Um paraíso mineiro chamado Comuna do Ibitipoca por Daniela Filomeno

A palavra indescritível ainda é pouco para definir esse lugar. Aqui, o turismo de isolamento vem junto com muitas aventuras, gastronomia e natureza

Comuna do Ibitipoca é mais que um hotel-fazenda: é um projeto ambiental e social (Foto: Daniela Filomeno)

Uma das descobertas mais surpreendentes que tive no último ano foi a Comuna do Ibitipoca, em Minas Gerais. Muito mais do que um hotel-fazenda, é um projeto ambiental com proposta de sustentabilidade, responsabilidade social e vida no campo. Um destino polivalente que surpreende. Eu nunca vi nada parecido em nenhum lugar do mundo.

Daniela Filomeno na Cachoeira do Gritador (Foto: acervo pessoal)
Daniela Filomeno na Cachoeira do Gritador (Foto: acervo pessoal)

Rica em natureza, ela encanta quem busca isolamento e dias de sossego. Quer aventuras? Tem muitas! Pedaladas por montanhas, cavalgadas por cachoeiras e pela mata atlântica e mergulhos gelados em piscinas naturais de rio.

Próximo ao município mineiro de Lima Duarte, a pouco mais de uma hora de distância de Juiz de Fora, a Comuna de Ibitipoca traz a nostalgia das antigas fazendas, com forno a lenha, bolos quentinhos, queijo mineiro e pães de queijo fresquinhos, saídos do forno, daqueles irregulares e sem economia no tamanho. O hotel- fazenda, de apenas oito quartos, fica em uma casa de engenho de 1715, restaurada e transformada em um charmoso hotel, localizado em um espaço de 6 mil hectares (ou cerca de 60 quilômetros) de ponta a ponta.

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Com passeios de natureza dentro da mata atlântica, a Comuna do Ibitipoca encontra-se numa reserva privada em torno do Parque Estadual do Ibitipoca e circunda 80% da área protegida. Ir para lá é estar 100% em contato com a natureza e, de quebra, colaborar com o projeto socioambiental existente desde 1984 em prol das questões ambientais locais. O hotel, construído no entorno do parque, oferece uma verdadeira vida na fazenda, com luxo na medida e muito charme – como as refeições servidas em locações diferentes a cada dia, por exemplo.

Entre as atrações, a Prainha possui uma piscina natural de água em um dourado escuro (devido à decomposição das folhas), com chão de areia e uma cachoeira ideal para uma ótima massagem. A grande mesa com fogão a lenha é um convite para um dia perfeito, com direito a almoço mineiro. Um pouco acima pela trilha íngreme por dentro da mata, a Cachoeira do Gritador tem esse nome devido à força de sua queda, de 10 metros: é impossível ficar embaixo dela sem gritar. Subindo a montanha, chega-se às piscinas naturais, que também podem ser alcançadas de carro. A fartura de cachoeiras, rios e lagoas (não perca a Lagoa Negra e dê uma passada na Cachoeira do Andorião, abrigada em um apertado cânion) é surpreendente.

A prainha é um dos mais agradáveis lugares para almoçar, após um banho de cachoeira cercada pela lagoa de água doce (Foto: Daniela Filomeno)

Arte

As esculturas da artista americana Karen Cusólio representam as religiões do mundo (foto: Daniela Filomeno)

Um platô na Pedra do Tatu guarda o cartão-postal da Comuna do Ibitipoca: as sete esculturas descomunais de ferro reciclado, integradas à natureza. As impressionantes criações têm em média 9 metros de altura e pesam de 6 a 9 toneladas cada uma. As obras de arte vieram de São Francisco, na Califórnia (EUA), depois que um amigo do Renato, o proprietário da Comuna, viu a Ecstasy (mulher gigante no primeiro plano) no festival Burning Man. Renato conheceu os trabalhos da artista Karen Cusolio, que se recusou a vendê-los. Depois de muito tempo, ela disse que só venderia todas as peças juntas – afinal, são uma família, e cada uma representa uma religião. Karen estabeleceu duas condições: deveria antes conhecer o lugar onde as obras descansariam e ela mesma cuidaria do transporte, recusando-se a “fatiá-las”. Ao visitar a Comuna de Ibitipoca, a artista se encantou: “Agora sim elas encontraram seu lar”. E aí iniciou uma saga para cruzar o oceano e trazê-las, chegando de carreta até os portos, atravessando o Atlântico de navio; após mais um trecho de transporte de caminhões, as esculturas finalmente foram içadas ao seu destino final. Seu esplendor e magnitude, somados à imponente natureza ao seu redor, são espetaculares. O pôr do sol nesse local é uma experiência imperdível, assim como uma refeição preparada em um forno a lenha ali montado.

Gastronomia

No almoço podem ser apreciados saborosos pratos típicos mineiros, que saem dos fornos a lenha montados em diversas locações espalhadas pela Comuna. Com alimentos orgânicos ali mesmo produzidos, eles têm a proposta de diminuir o consumo de proteína animal – tanto que o Yucca, o restaurante que fica na pequena comunidade Mogol, é vegetariano. Para o jantar, menus de Claude Troisgros deixam as noites na fazenda mais sofisticadas.

Hospedagem

Além da sede, a Comuna oferece também algumas outras opções de hospedagem, como a Casa do Carlinhos (três suítes) e a Vila Mogol.

A Casa Carlinhos, uma típica casa de fazenda, a apenas 100 metros da sede, foi totalmente reformada em 2013, decorada com artesanato tradicional mineiro e proporcionando um ambiente tranquilo e intimista. Suas 3 amplas suítes, a maior delas, tem 70m² e está em frente ao cartão postal do hotel: o Pico do Gavião. É uma ótima opção para pequenos grupos e famílias.

Também chamado de Village, o Mogol fica a 18 quilômetros do engenho e tem como conceito um mundo melhor e uma vida mais saudável. Vilarejo antigo de moradores, hoje é uma comunidade, com propriedades em sua maioria privadas, além de alguns moradores que retornaram à cidade, antes praticamente abandonada.

A casa sede da Comuna é datada de 1715 (Foto: Daniela Filomeno)

Hoje, a maioria dos 121 moradores trabalham no projeto, movimentando a economia. São quatro casas e outros quatro quartos no Mogol. As construções foram feitas com material de demolição, têm painéis solares e coleta seletiva do lixo. O restaurante Yucca, que atende a essas hospedagens, é especializado em comida vegetariana, usando como principais ingredientes queijos, cogumelos e ovos.

Destaque para o Isgoné (Eagle Nest), uma casa isolada no topo da montanha, na qual, para chegar, é necessário enfrentar uma trilha a pé ou de quadriciclo – a definição de isolamento resume-se aqui. Está no ponto mais alto da Comuna do Ibitipoca, a 1500 metros de altitude, com uma vista impressionante!

Um dos quartos da casa do Engenho (Foto: Daniela Filomeno)

Reserva do Ibitipoca

Como um cinturão do Parque Estadual do Ibitipoca, contornando 80% de seu território, a Comuna do Ibitipoca tem 6 mil hectares, sendo que mais de 90% dessa área está em processo de rewild: recuperação da flora e da fauna nativas da mata atlântica. Mais do que um hotel, trata-se de um projeto socioambiental, com manutenção de espécies, projetos sustentáveis e responsabilidade social.

A Comuna do Ibitipoca é uma reserva privada, como um cinturão em torno do parque estadual (Foto: Daniela Filomeno)

No Mongol é mantida a Ibitipoca University, na qual são realizados cursos e treinamentos de capacitação para um futuro mais sustentável e consciente. Ela recebe ainda alunos da rede pública de Lima Duarte para imersão e aprendizado sobre o meio ambiente, assim como a integração com os moradores vizinhos da Comuna, para que eles também auxiliem no processo de revitalização da mata atlântica.

Refauna

O Programa de Refaunação busca reverter a situação de espécies originárias da região em extinção ou que abandonaram a área. Estão sendo reintroduzidos na região a anta, a jacutinga, o macuco e a arara-vermelha-grande. Destaque para o projeto Muriquis House, em parceria com o Muriqui Instituto de Biodiversidade (MIB), que busca a reintrodução do muriqui, o maior primata exclusivo da mata atlântica, em risco de extinção, além de promover a sobrevivência de indivíduos da espécie isolados e sua reprodução para o aumento da população na região e seu salvamento. Atualmente existem menos de 900 indivíduos na natureza. Os últimos muriquis de Ibitipoca eram apenas dois machos, que sobreviviam solitários em uma pequena área de floresta sem condições de procriação e sobrevivência em longo prazo. Agora, com o projeto Muriqui House, eles estão protegidos, vivem juntos com outras fêmeas que estavam em situação semelhante e poderão acasalar e contribuir para o aumento e a recuperação de sua espécie.

Aqui, a simplicidade é o maior luxo que se pode ter. E que lugar!