Sabores mineiros: onde comer em Belo Horizonte, por Daniela Filomeno

Torresmo, pão de queijo, cachaça... A lista de iguarias é deliciosa, assim como os restaurantes e botecos da capital que servem o melhor da culinária mineira

Daniela Filomeno no Xapuri, tradicional restaurante de comida mineira na capital do estado
Daniela Filomeno no Xapuri, tradicional restaurante de comida mineira na capital do estado CNN Viagem & Gastronomia

Daniela Filomenodo Viagem & Gastronomia

Belo Horizonte

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Cachaça artesanal que abre o apetite, torresmo crocante, fígado acebolado com jiló e aquele cafézinho passado na hora para finalizar a tarde junto de um pão de queijo, quem resiste? Assim é Belo Horizonte, que oferece os mais diversos – e deliciosos – sabores da gastronomia tipicamente mineira em uma cena gastronômica de fazer inveja a muita megalópole ao redor do mundo.

A capital mineira, inclusive, é dona de um título respeitável: é considerada a “capital mundial dos botecos” devido a quantidade de botecos e bares em sua área. De acordo com a prefeitura, são cerca de 28 bares a cada quilômetro quadrado – os bairros que mais reúnem estabelecimentos são o Centro e Savassi.

Reunindo criatividade e qualidade, os aromas e sabores da cidade se refletem em casas que servem o melhor da cozinha mineira e também de variadas vertentes. É um deleite conhecer o rico patrimônio cultural e histórico da cidade e unir aos programas paradas gastronômicas que representam o que de melhor “Beagá” – e Minas – tem a oferecer.

Vamos comigo mergulhar nas delícias de Belo Horizonte? Divido a seguir os melhores endereços e experiências que tive na capital mineira:

Mercado Central de Belo Horizonte

Daniela Filomeno em balcão da Bar da Lôra, no Mercado Central, point turístico disputado em BH (Foto: acervo pessoal)

É ponto obrigatório de parada na cidade: são mais de 400 lojas, que vendem desde produtos alimentícios, artesanato e comidas típicas, entre doces, queijos, temperos, embutidos, pimentas, cachaças e tudo de mais delicioso que faz parte da cultura mineira. Aberto há 92 anos, é um dos principais e mais interessantes pontos turísticos da capital.

E por falar em comida boa, não faltam opções no “Mercadão”. Além das lojinhas, os restaurantes e bares marcam presença no pedaço, que nos fazem comer com os olhos e nos deixam satisfeitos no estômago. Um dos exemplos mais notáveis dali é o Bar da Lôra, que oferece o típico – e caprichado – fígado com jiló, prato carro-chefe da casa. Comum vê-la passando com caixas de cerveja na cabeça, Eliza Fonseca, a Lôra, comanda o negócio, sendo a única mulher entre os 14 proprietários de bares e mercearias do Mercado. O bar está ali há 18 anos e antes era tocado pelo pai de Eliza e seus tios, mas a fama pegou mesmo com a ajuda da chef e proprietária. 

E, uma vez dentro do Mercado Central, uma coisa que não pode faltar é torresmo. Disputado, o pequeno espaço do movimentado balcão do Rei do Torresmo é palco para a comilança de iguarias deliciosas: o torresmo de barriga com farofa, feito também com jiló, ou o torresmo pururuca são pedidas certas. Inaugurado em 1995, o dono, Geraldo Magela, brinca que “Minas não tem mar, mas tem bar”. E quem resiste a um torresminho com cerveja gelada?
Avenida Augusto de Lima, 744, Centro, Belo Horizonte – MG

Mercado Novo

cachacaria lamparina
Prateleiras da Cachaçaria Lamparina, no Mercado Novo, que trabalha com cachaças de produção artesanal e familiar/Foto: Daniela Filomeno

A história dele é, no mínimo, interessante: construído na década de 1960, o Mercado Novo, como o próprio nome já diz, foi idealizado para ser um complemento ao tradicional Mercado Central, como um novo point da cidade. Mas o projeto não andou e a ideia ficou dormindo por décadas, até que em 2018 um grupo de empreendedores deu vida ao espaço com uma incubadora de negócios locais e sustentáveis voltados para arte, design, gastronomia e cultura.

De cara dá para perceber que a arquitetura rústica e a decoração retrô são as marcas registradas do pedaço. Espaço urbano descolado e agitado, há estabelecimentos que vendem chopes, vinhos, petiscos, sorvetes, pratos e muito mais. Com isso em mente, destaco a Cachaçaria Lamparina, casa com decoração que remete aos armazéns antigos e que trabalha exclusivamente com cachaças de produção artesanal e familiar, uma das grandes riquezas de Minas Gerais.

Como um bom bar e boteco, o legal é ficar encostado no balcão e interagir com os funcionários, sempre pedindo aquela dose especial da “marvada”. Idealizadores da cachaçaria, Guilhereme Costa e Thales Campomizzi fazem viagens pelo estado a fim de visitar alambiques, conhecer o processo de produção e enriquecer a cartela de opções. Dica: experimente o Macunaíma, coquetel brasileiro que saiu do Bar Boca de Ouro, em São Paulo, e já conquistou o paladar – e o coração – dos mineiros, assim como o Bombeirinho, que é refrescante, semelhante a um suco – com a diferença de ter álcool e predominância de limão.

Outra descoberta de ouro no próprio Mercado Novo é a Cozinha Tupis, do chef e empresário Henrique Gilberto. No terceiro pavimento do local, a cozinha apresenta releituras de delícias mineiras muito bem feitas para o almoço, daquelas que queremos petiscar sem parar. Sempre há o prato do dia: uma carne ou vegetal com escolha de mais cinco acompanhamentos. Os ingredientes são frescos e o cardápio está em constante mudança.

O que fica fixo, porém, é o melhor de toda a experiência: o balcão. A cozinha é toda aberta, em que podemos ver todos os ingredientes e o vai e vem dos funcionários logo à nossa frente. Como ressalta o próprio Henrique, a melhor experiência em BH é ir para os botecos e prosear – o que definitivamente acontece aqui de uma maneira natural e despojada.

E, claro, duas coisas não podem faltar: o bom e velho torresmo e a cerveja gelada. Juntos, eles formam um dos DNAs de Minas – que está muito presente na Cozinha Tupis.

Além da cachaça e do torresmo, todos sabemos que Minas é a terra do pão de queijo. Inovando e fazendo bonito com a iguaria está A Pão de Queijaria, que vende quitutes tradicionais tanto no Mercado Novo quanto em uma loja no bairro Savassi. O interessante é que eles possuem um cardápio com mais de 10 tipos de pães de queijo, que são recheados com mortadela, frango e até costelinha de porco desfiada com queijo minas derretido! Os cardápios das duas lojas diferem entre si, trazendo exclusividade e mais criações inusitadas para nós.
Avenida Olegário Maciel, 742, Centro, Belo Horizonte – MG. 

Xapuri

torresmo xapuri
Torresmo de barriga servido no Xapuri, típico da culinária mineira (Foto: Daniela Filomeno)

Comer no Xapuri é presenciar uma história de amor com a melhor cozinha tradicional mineira. É comida típica de verdade, acolhedora e que remete à sabores afetivos do passado. Situado próximo à Lagoa da Pampulha, a casa foi fundada em 1987 e tem um espaço enorme, que abriga, além das mesas e da cozinha, uma hípica com cavalos, doceria, espaço kids e loja de artesanato, tudo isso em um ambiente rústico. Já tradicional em Belo Horizonte, o restaurante é comandado por Flávio Trombino sob os ensinamentos e cuidados da mãe, a famosa Dona Nelsa.

Cozinheira de mão cheia, ela fazia almoços para amigos que, com o tempo, se tornaram uma fonte de renda. Antes pequenas reuniões, as pessoas começaram a procurá-la de maneira que Dona Nelsa enxergou uma oportunidade de começar a cobrar e fazer disso um negócio. Em 1987 veio o Xapuri, hoje tradicional e imperdível na cidade. Não deixe de pedir o torresmo de barriga com algum drink gelado, combinação entre crocância e sabor apurado, assim como o frango preguento do Bento, considerado o prato oficial e mais famoso da casa. É um frango bem reduzido, cozido no próprio caldo e que fica com um aspecto de cola por conta do colágeno que solta no fundo da panela – foi um dos primeiros pratos do Xapuri e é servido junto de outras guarnições.

Para finalizar, os doces no Xapuri também são sensação. Dona Nelsa sempre fazia doces em compota em tachos – cuidado que é refletido hoje em dia no buffet de doces. Entre as delícias estão cocada branca, cocada queimada, quindim, broa de fubá, doce de leite… a lista é grande. Com porções fartas, feitas no forno a lenha, é perfeito para ir em família. A casa conta com um amplo espaço aberto repleto de mesas de madeira grandes e, muitas vezes, ainda tem com música ao vivo.
Rua Mandacaru, 260, Bairro Trevo, Belo Horizonte – MG

Glouton

Fachada do Glouton, em Belo Horizonte, restaurante do chef Leonardo Paixão/Foto: reprodução/Facebook

Apresentando um menu-degustação único, que contempla snacks, entradas, peixe, carne, queijo e sobremesa, o Glouton é um dos restaurantes mais renomados não somente da cidade, mas também de todo o estado de Minas. É preciso experimentá-lo!

A cozinha é capitaneada por Leonardo Paixão, chef criador de pratos com inspiração nos sabores da roça mineira e que sempre trabalha com os melhores insumos locais. As criações para lá de apetitosas e requintadas são elaboradas tendo em vista a base francesa do chef – ele deixou de lado a carreira na medicina para estudar na École Supérieure de Cuisine Française, em Paris.

O resultado? Uma mescla reconfortante entre as técnicas francesas com os sabores cativantes da nossa cozinha brasileira em cada garfada. Localizado no sofisticado bairro de Lourdes, a decoração rústica nos acolhe, assim como faz o quintal dos fundos e as paredes de tijolinho – ótimo ambiente para desfrutar uma comida saborosa junto de boas bebidas ao lado das amizades.
Rua Bárbara Heliodora, 59 – Lourdes, Belo Horizonte – MG

Nicolau Bar da Esquina

Nicolau bar da esquina
Arrozinho meloso de porco com tomates assados e quiabos tostados do Nicolau Bar da Esquina/Foto: reprodução/instagram

Capital mundial dos botecos, Belo Horizonte também nos reserva um gastrobar à altura dos paladares mais exigentes. Leonardo Paixão, mesmo nome por trás do renomado Glouton, emprega no Nicolau sua técnica afinada numa gastronomia “sem frescuras”. Valorizando a cozinha mineira caseira, comemos com as mãos uma comida com gostinho da casa de vó e damos risadas altas junto dos amigos.

O sabor da comida de roça surpreende nas mais simples criações, como no croquete de rabada com maionese de alho, torresmo de barriga com caramelo de missô e até no arrozinho meloso de porco com tomates assados e quiabos tostados no ponto.

Localizado entre os bairros de Santa Tereza, Horto e Floresta, o local funcionou via delivery na pandemia e tem previsão de reabertura presencial em dezembro. Fazendo jus à região boêmia da cidade, o casarão foi construído unificando dois lotes e uma casa tombada.
Rua Pouso Alegre, 2217 – Santa Tereza, Belo Horizonte – MG

Chico Dedê

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Já um clássico da casa, quiabo com molho tonkatsu ao perfume de cachaça do Chico Dedê (Foto: reprodução/Instagram)

Comandado pelo chef André Paganini, que já deu aulas de gastronomia e foi responsável pela cozinha de um hotel antes de se jogar na empreitada boêmia, o Chico Dedê é descrito como um bar de “alma mineira”. É na verdade um “buteco” gastrobar, reunindo o melhor das comidinhas e bebidas do estado.

Os petiscos típicos ganham versões repaginadas pelas mãos da equipe e que honram as raízes mineiras, sempre com toques para lá de criativos. Entre as especialidades da casa que mais saem estão o tempurá de quiabo servido com molho tonkatsu ao perfume de cachaça – antes era um acompanhamento que hoje ganhou porção só para ele e já é um dos clássicos do local – assim como a barriga de porco pururuca, clássico da casa e da cultura mineira servido ali com gengibre com limão.

Seja na calçada ao ar livre ou no salão, é mais um dos lugares imperdíveis de Belo Horizonte para comer uma boa comida de Minas, mas desta vez com misturas de sabores que nos surpreendem.
Rua Francisco Deslandes, 438, Anchieta, Belo Horizonte – MG


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