Dia da Cachaça Mineira: por que a bebida é especial no estado

Minas Gerais é o maior produtor de cachaça de alambique do país e aposta no processo lento como trunfo de sua qualidade ímpar

Traditional brazilian drink, cachaça, and pigskin, upon a rustic table.
Traditional brazilian drink, cachaça, and pigskin, upon a rustic table.

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Foto: Getty Images

Água que passarinho não bebe, marvada, veneno. São vários os nomes que tentam traduzir o sabor único e a ardência que desce pela garganta dessa que é uma das bebidas que mais representa o Brasil: a cachaça. Mesclando-se à história nacional, o destilado também é um dos patrimônios de Minas Gerais, que celebra a bebida feita no estado em 21 de maio.

O Dia da Cachaça Mineira é comemorado desde 2001 e a data foi escolhida por marcar o início da safra da cana-de-açúcar em Minas, quando Itamar Franco, então governador, regulamentou a produção da bebida no estado.

Mas sua história por aqui começa bem antes disso e remete ao início da colonização do Brasil pelos portugueses. Segundo o Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac), a teoria mais aceita de seu surgimento diz que os portugueses improvisaram uma bebida destilada a partir de derivados do caldo da cana-de-açúcar, que produzia o mesmo efeito prazeroso da bagaceira, destilado de casca de uva.

Não se sabe ao certo o local onde ocorreu a primeira destilação da bebida, mas pode-se afirmar que ela se deu em algum engenho de açúcar no litoral do Brasil entre os anos de 1516 e 1532. A cachaça é, assim, considerada como o primeiro destilado da América Latina, antes mesmo do aparecimento do Pisco, da Tequila e do Rum.

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Minas na dianteira

E, embora as primeiras “branquinhas” tenham sido difundidas em Pernambuco e outros grandes produtores de cana, foi em Minas que a bebida ganhou força e características únicas. Atualmente, o estado é o maior produtor de cachaça em alambique do país (a artesanal, feita em menor escala mas de melhor qualidade) com 200 milhões de litros por ano, respondendo pela metade da produção nacional, segundo dados da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas (Seapa).

Sinônimo de tradição e cultura, a produção também é o ganha pão de muita gente. A atividade no estado gera mais de 100 mil empregos diretos e cerca de 300 mil indiretos. O Anuário da Cachaça 2020, do Ministério da Agricultura, aponta que Minas possui 375 registros de estabelecimentos produtores de cachaça e também é o campeão em número de registro de produtos (1.286) e de marcas registradas (1.680).

No norte de Minas, Salinas é a cidade que mais concentra os produtores do estado: são 21 ao todo. Não por acaso, é chamada de capital mundial da cachaça e em 2012 foi fundado ali o Museu da Cachaça para celebrar a tradição da bebida na região. A Festa da Cachaça também ocorre periodicamente e movimenta tanto o mercado cachaceiro quanto o turismo regional.

Mas por que a cachaça mineira se tornou tão famosa? A tradição que atravessa gerações, o terroir mineiro – a relação mais íntima entre o solo e o microclima local – e a produção em alambiques de cobre podem ser algumas das explicações, como indica Gilson de Assis Sales, superintendente de abastecimento e cooperativismo da Seapa. Este último fator, diferente da produção industrial em tonéis de inox, ocorre de maneira bem mais lenta, em que há a separação de compostos indesejáveis da bebida, deixando-a muitas vez com uma cor amarelada ou ouro. Já a versão não envelhecida, conhecida como “branca” ou “prata”, é engarrafada imediatamente após a destilação, produzida em maior escala e, como resultado, tende a ser mais barata.

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Para ser considerada uma autêntica cachaça artesanal de Minas, a bebida deve ser fermento-destilada com graduação alcoólica de 38% a 54% v/v (volume por volume), à temperatura de 20°C, produzida no Estado e fabricada em safras anuais. Além disso, deve ser processada de acordo com as características históricas e culturais de cada uma das regiões de Minas; elaborada e engarrafada na origem.

Cachaças premiadas

O Spirits Selection do Concurso Mundial de Destilados de Bruxelas, maior concurso de destilados do mundo, premiou 36 cachaças brasileiras na edição de 2020. Do todo, 10 são mineiras. Confira a lista:

Medalha Grande Ouro

W! Cachaça Prime – Ohy Special Blend (MG)
W! Exclusive Cristal (MG)
Cachaça do Conde Amburana (SC)
Cachaça Cafundó da Serra Prata (SC)

Medalha de Ouro

Borghezan Tajuva 4 Months (SC)
Cachaça Barauna Carvalho Premium (PB)
Cachaça Barauna Tradicional (PB)
Cachaça Barauna Umburana (PB)
Cachaça Bylaardt Premium 5 Years (SC)
Cachaça Cafundó da Serra Ouro French Oak 2 Years (SC)
Cachaça Catarina Unica (SP)
Cachaça Córrego Novo Amburana (BA)
Cachaça Córrego Novo Prata (BA)
Cachaça de la Vega Premium (RJ)
Cachaça Extra Premium (SC)
Cachaça Guaraciaba Jequitibá (MG)
Cachaça Pátria Amada Carvalho e Cumarú (RN)
Cachaça Pátria Amada Ouro (RN)
Cachaça Seleta (MG)
Cachaça Sóbria Clássica 2019 (SP)
Cachaça Vanalli Envelhecida 10 anos (SP)
Cachaça Vanderley Azevedo Prata 2018 (MG)
Cachaça Vanderley Azevedo Premium (MG)
Moendão Premium Blend (SC)
Pé Na Areia Cachaça Prata 40° (RJ)
Pinoco’s Premium French Oak 2 Years (SC)

Medalha de Prata

Arbórea Amburana (MG)
Arbórea Carvalho (MG)
Cachaça da Quinta 40° (RJ)
Cachaça Sagrada (MG)
Cachaça Triumpho armazenada em barril de carvalho 2018 (PE)
Cachaça Vanderley Azevedo Single Barrel Extra Premium 2007 (MG)
Imigrante Balsamo 9 Months (SC)
Pinoco’s Cachaça French Oak 6 Years (SC)
Refazenda Prata 2 Years (SC)
Xanadu Black American Oak 6 Years (SC)

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