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Ecoturismo no Brasil: a tendência que veio para ficar no pós-pandemia

O brasileiro está redescobrindo o Brasil e o fortalecimento do turismo nacional é uma das consequências do fechamento de fronteiras

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Daniela Filomeno aposta no ecoturismo no Brasil como tendência de viagem pós-pandemia. Na foto, ela pratica caiaque no Sul da Amazônia (Foto: acervo pessoal)

A pergunta que mais escuto ultimamente: o que você acha que vai mudar nas viagens no pós-pandemia? Não acho que alguém tenha todas as respostas, mas tenho uma visão que é compartilhada também por alguns especialistas e dados que comprovam: o turismo nacional entrou de vez na rota dos travelholics brasileiros.

Conhecido e exaltado por suas belezas naturais e culturais pelo mundo afora, o Brasil foi o destino escolhido por cerca de 19 milhões de estrangeiros nos últimos três anos, de acordo com o Ministério do Turismo. E neste setor uma modalidade vem tomando frente: o ecoturismo (ou turismo ecológico). Ele foi o motivo de viagem de 18,6% destes turistas, que saíram de suas casas em busca de cenários paradisíacos, com fauna e flora tão próprios que só o país com uma das maiores biodiversidades do mundo possui.

Lagoa do Japonês, em Tocantins, é ponto de parado obrigatório (Foto: divulgação/Coletivo Ecoturismo)

Agora, nós, brasileiros, que estamos tão perto desses privilégios, valorizamos o nosso patrimônio e colocamos viagens domésticas como as nossas primeiras opções?

O fato é que no último ano, por conta da Covid-19 e o fechamento de muitas fronteiras, mesmo aqueles que não abrem mão de uma viagem internacional tiveram de adaptar seus planos e acabaram descobrindo um mundo novo cheio de possibilidades dentro do território nacional. Estar em contato direto com a natureza também foi uma válvula de escape para aqueles que sentiram na pele e na cabeça os efeitos da pandemia.

Lugares mais tranquilos, fora dos grandes centros, longe de aglomerações e com inúmeras possibilidades de atividades ao ar livre viraram verdadeiros sonhos de consumo.

Crescimento é um fato, mas ecoturismo não é novidade
Apesar desse aumento perceptível na busca desse tipo de destino no ano pandêmico, o ecoturismo é um segmento que vem crescendo anualmente há tempos. Segundo o módulo sobre Turismo da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e apresentada em agosto de 2020, a cultura e o turismo de natureza motivaram mais de 60% das viagens de lazer internas já em 2019.

Luiz Del Vigna, diretor executivo da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura, trabalha com o segmento há mais de 40 anos e explica essa tendência da “bola da vez”.

“O ecoturismo é uma necessidade contemporânea. O processo de urbanização ao longo dos anos fez com que ficássemos cada vez mais afastados da natureza. Natureza é saúde! Essa procura, essa transformação, já vinha acontecendo. Acredito que a pandemia adiantou uma série de coisas em uns dez anos, e com ele não foi diferente. É um movimento que há muito tempo acompanhamos e entendemos como certo de acontecer”, diz Luiz.

Segundo a ABETA, o Brasil conta hoje conta hoje com 13.583 empresas que estão diretamente relacionadas ao turismo de natureza. A Associação, que completará 18 anos, tem entre seus objetivos qualificar e controlar a segurança deste universo.

“Acreditamos que a população vai começar a fazer viagens mais curtas. O carro vai ser cada vez mais utilizado. Todos querem evitar o transporte aéreo muito pelo medo da Covid-19. É um movimento que vai promover profunda alteração no nosso turismo. Como entidade, queremos inspirar o brasileiro a desejar a conhecer mais o país. É uma oportunidade valorizarmos e reorganizar o turismo doméstico”, completa.

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Turismo sustentável
O ecoturismo não é um assunto novo, mas sua ascensão acabou trazendo novas formas de enxergá-lo.

Expedições da Vivalá unem turismo e voluntarismo em uma só viagem (Foto: divulgação Vivalá)

Gustavo Monteiro de Carvalho, secretário executivo do Circuito Litoral Norte, órgão que promove o turismo de uma das regiões mais ricas em ecoturismo do estado de São Paulo, enfatiza a importância da visão sustentável nesse tipo de mercado.

“Em termos gerais é um segmento da atividade turística que utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista por meio da interpretação do ambiente, promovendo o bem-estar”, classifica.

“Com a interatividade e respeito ao ambiente em que se está inserido, permite um impacto positivo para a economia e população local”, completa.

Grupo de viajantes Vivalá curtindo uma praia deserta nas margens do Rio Tapajós (Foto: Vivalá/divulgação)

E foi justamente com essa preocupação ambiental, social e econômica, olhando pra dentro do Brasil, que a Vivalá nasceu há cinco anos e vem conquistando cada vez mais espaço no que classifica ser a evolução do ecoturismo, contemplando mais do que só a preservação ambiental e abrangendo o social e econômico com igual importância.

Fundada por Daniel Cabrera e seus sócios, a Vivalá proporciona expedições em unidades de conservação com profunda interação com a natureza no Brasil, sempre via turismo de base comunitário ficando muito próximo dos moradores locais. Isso por meio do aprendizado da sua cultura e incentivo do desenvolvimento local com a compra de serviços e produtos comunitários, além de voluntariado, contribuindo com o desenvolvimento local, e transformando essa experiência em uma forma mais complexa do ecoturismo.

“Queremos que as pessoas conheçam o próprio país e ressignifiquem essa relação com a natureza e as comunidades que as cercam. Esse tipo de viagem estará cada vez mais presente. O turismo vazio, sem significado e predatório fica cada vez mais distante”, ressalta Daniel.

Dia de ‘praia de rio’ na Amazônia em uma expedição Vivalá, com muito sol, água doce e natureza (Foto: Vivalá/divulgação)

Ficou animado para fazer uma viagem voltada ao ecoturismo? Conheça destinos imperdíveis:

Bonito, em Mato Grosso do Sul
Jardins submersos, aquário naturais, águas transparentes, formações geológicas e muito ecoturismo são algumas características para tentar definir em poucas palavras este destino espetacular que é Bonito. Fazendo jus ao nome, as paisagens do Cerrado se misturam com elementos da Mata Atlântica e do vizinho Pantanal, que tem uma grande influência na culinária local, tornando a região cheia de cenários peculiares.

Começando pelo maior clichê de todos, não é Bonito, é lindo! É um destino para repetir a dose: é impossível conhecer todas as atrações de uma vez só, lição aprendida por mim da pior forma. Foi tão difícil escolher, queria fazer tudo!

As flutuações, passeios com snorkel em rios de correnteza suave, são as atrações mais procuradas e mais básicas de se fazer na região. Não deixe de ir ao Rio Sucuri e ao Rio da Prata: não escolha apenas um, tem que fazer os dois! Ambos oferecem experiências diferentes e igualmente impressionantes. Por ali também há cachoeiras de cair o queixo, como a Boca da Onça, maior queda d’água do estado, assim como grutas, lagoas, balneários e a maior dolina da América Latina, o Buraco das Araras.

Sul da Amazônia, Mato Grosso  

Daniela Filomeno faz trilha no Amazonas (Foto: acervo pessoal)

Praticar turismo na maior floresta tropical do mundo não se resume somente ao Amazonas (o estado é apenas a porta de entrada principal). Afinal, seu território legal faz fronteira com nove estados. Já o bioma que leva o mesmo nome e ocupa 49% de nosso território pode ser visitado a partir de vários lugares: um deles, muito especial, fica no sul da Amazônia.

Essa região, chamada sul da Amazônia, tem uma diversidade não vista nas demais áreas amazônicas. Devido à proximidade com o Pantanal e o cerrado, ela recebe migração de animais e tem uma variedade oriunda não somente da floresta: concentra um terço das espécies de todas as aves do Brasil, com mais de 600 diferentes tipos. E pesquisadores sempre acham uma nova espécie no local. Por lá, trilhas, passeios de barco e mergulho fazem parte do cotidiano do turista.

Jalapão, em Tocantins
Ir para o Jalapão, em Tocantins, é uma viagem transformadora. Suas cores, seu astral e sua natureza intocada te encantam. Apesar da pouquíssima estrutura para receber turistas, o destino está entre os mais requisitados pelos amantes de ecoturismo.

Se fosse apenas por ser um parque estadual, já valeria a visita, afinal, o Jalapão é um dos mais bonitos do país. Quem visita, diz que a energia de lá é indescritível. Uma natureza realmente intocada que faz com que este contato seja mais intenso. É uma mistura de cenários fascinantes, que em cada quilometro percorrido um tipo de vegetação diferente é desvendada.

Um dos mais conhecidos cartões-postais do destino, o Jalapão reúne alguns fervedouros, que são verdadeiros oásis em meio ao cerrado. Eles são nascentes de rios subterrâneos, que por conta da grande pressão da água impedem que as pessoas afundem. Um dos mais visitados é o Fervedouro Bela Vista, um grande poço redondo de água azul turquesa. Dunas e cachoeiras compõem o cenário paradisíaco.

Serra da Bocaina, divisa dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo
O Parque Nacional da Serra da Bocaina, por sua dimensão e grande variação de altitude, apresenta variadas paisagens e diversos atrativos naturais como praias, piscinas naturais, rios, cachoeiras, picos e mirantes, sem contar a riqueza de flora e fauna, típica da Mata Atlântica.

Também são muitos os atrativos de interesse histórico e cultural, como os caminhos e trilhas do ouro que o atravessam, remanescentes da época dos tropeiros, bem como a cultura caipira e caiçara conservada na porção serrana e litorânea, respectivamente.

Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso 
Parque nacional localizado a pouco mais de uma hora da capital, Cuiabá, a Chapada dos Guimarães reúne atrações como cavernas, lagoas e cachoeiras. Seus paredões de arenito vermelho-alaranjado – marcas registradas da região – têm mais de 150 km de extensão. A cidadezinha que leva o mesmo nome da reserva é um típico município do interior, com construções antigas e uma bucólica igreja com uma praça onde, aos finais de semana, funciona uma feirinha de artesanato durante o dia.

Carrancas, em Minas Gerais
Ao sul de Minas Gerais, vale pegar o carro e desbravar as mais de 70 cachoeiras da região, seus poços e grutas incríveis. A melhor maneira de circular por lá é seguir os complexos, como o da Zilda, com uma extensão de dois quilômetros, a cachoeira da Zilda é a principal atração do complexo que leva o mesmo nome. É preciso atravessar um rio e percorrer uma trilha por 15 minutos para se chegar à queda das águas, que formam um poço e uma prainha. No caminho é possível encontrar pinturas rupestres nos paredões e pequenas quedas d’água para se refrescar. O Complexo ainda conta com a Cachoeira dos Anjos, a Racha da Zilda e um escorregador natural de dez metros, diversão garantida para todas as idades. Importante se informar antes sobre o grau de dificuldade e estrutura que cada atração oferece.

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