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Karaokê e um toque de filme noir: como foi trabalhar com Bourdain na Tailândia

Joe Cummings

da CNN

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Quando a equipe do programa “Anthony Bourdain: Parts Unknown” da CNN me contatou em fevereiro de 2014 para fazer uma sessão de fotos na Tailândia, é claro que concordei sem pensar duas vezes.

Nenhuma celebridade da culinária era mais amada do que Anthony Bourdain na época, e sua fama póstuma e reconhecimento só aumentaram desde então. Em uma época em que os chefs são as novas estrelas do rock, ele era Johnny Cash, mantendo-se cru e real.

Tony gostava de se descrever como um chef falido, desprezava sua história em cozinhas profissionais, incluindo a Brasserie Les Halles de Manhattan, e falava abertamente sobre o abuso de drogas no passado. Ele criticou duramente os chefs de TV superestimados e o culto ao guia Michelin, usando sua influência para elogiar os vendedores ambulantes e cozinheiros que alimentam a maior parte do mundo.

Por 17 anos, em quatro séries de televisão (“A Cook’s Tour”, “Sem Reservas”, “The Layover” e “Parts Unknown”) gravadas em mais de 50 países, Tony nos deixou acompanhá-lo enquanto conhecia pessoas de todas as esferas de vida e explorava suas tradições alimentares, não importa o quão estranhas pudessem parecer para o público doméstico. Na verdade, quanto mais estranho fosse, melhor – mas sempre em um contexto local e não como um observador crítico e julgador.

E não se tratava apenas de comida. Seu caminho em ziguezague pelo mundo era repleto de pérolas rústicas da filosofia.

“Quanto mais eu viajo, menos eu sei”, dizia.

Veja Anthony Bourdain comer cérebros e sangue na Tailândia em seu programa “Parts Unknown”.

Fui convidado pelo produtor de Tony, Tom Vitale, que passou praticamente toda a carreira trabalhando ao lado dele. Ao se apresentar, Vitale disse que Tony gostava de trabalhar com os autores dos guias Lonely Planet, porque eles conheciam o terreno e estavam acostumados a horários de viagem apertados.

Em uma série de emails, Vitale expôs seus planos de filmar em Chiang Mai e pediu meu conselho sobre locais e atividades. Nesse ponto, a série, de enorme sucesso, estava em sua terceira temporada.

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Não foi a primeira visita de Tony à Tailândia. Em 2003, numa viagem com a equipe de “A Cook’s Tour” planejada para Cingapura, ele acrescentou Bangkok no roteiro, já que havia uma escala na capital tailandesa. Bangkok apareceu novamente na quinta temporada de “Sem Reservas” (2008), quando Tony mergulhou cada vez mais na comida de rua.

“Por que alguém comeria em um restaurante quando pode comer assim?”, perguntou, sentado nos degraus de madeira do Mercado Flutuante Amphawa, na Tailândia, pegando bolinhos de camarão em um prato de papel.

Portanto, Tony e sua equipe não eram estranhos na Tailândia quando me abordaram sobre as filmagens de “Parts Unknown” em Chiang Mai. O produtor Vitale disse que eles precisavam de locais espetaculares onde pudessem filmar o cultivo de arroz, os monges recebendo esmolas ao amanhecer e a paisagem ao longo do rio Ping, o principal canal de Chiang Mai.

Depois que enviei a Vitale uma lista de locais em potencial, ele fez outro pedido.

Por causa do meu livro Sacred Tattoos of Thailand (Tatuagens sagradas da Tailândia, sem tradução no Brasil), ele perguntou se eu poderia providenciar para que Tony fizesse uma tatuagem mágica tailandesa, ou sak yan, em algum lugar em Chiang Mai. Sugeri um mestre relativamente pouco conhecido (na época) chamado Ajahn Nen, que conheci quando ele era um monge em Wat Si Munruang, próximo a Saraphi.

Bourdain e amigo em restaurante tailandês
Andy Ricker, chef e dono do restaurante tailandês Pok Pok de Portland, levou Anthony Bourdain aos seus restaurantes favoritos em Chiang Mai durante as filmagens.
Foto: Zero Point Zero

Vivendo atualmente em seu próprio santuário sagrado de sak yan, não muito longe de seu antigo mosteiro, mas não mais como um monge, Ajahn Nen disse na ocasião que ficaria feliz em hospedar a equipe.

A essa altura, a equipe de produção convidou Andy Ricker, chef e dono do famoso Pok Pok, no norte da Tailândia, para levar Tony aos seus restaurantes favoritos em Chiang Mai e arredores. Andy e eu nos conhecemos há anos e trocamos emails entusiasmados discutindo a sessão de fotos em Chiang Mai.

Caubói de karaokê

Depois de recomendar os locais a ser visitados e concordar em ajudar durante a sessão de tatuagem, pensei que minhas responsabilidades haviam terminado. Foi então que Vitale mandou novo email dizendo que Tony havia perguntando se eu poderia fazer uma aparição como cantor de karaokê em uma cena.

Com apenas dois dias de antecedência, eles me pediram para compor uma canção sobre bebedeira em tailandês que eu pudesse cantar para Tony em um karaokê em Chiang Mai. Segundo ele, usar uma música existente poderia criar problemas de direitos autorais. Concordei em tentar – imagine o meu nervoso por cantar em tailandês diante das câmeras, e ainda por cima ter que escrever a música eu mesmo – e Vitale respondeu: “Maravilhoso! Você tem um terno de linho branco? Estou procurando um toque de filme noir para a cena. Um tom melancólico como nesta cena de Cidade fantasma”.

Ele me enviou um link do YouTube com um trecho do filme policial de 2002, ambientado no Camboja do pós-guerra, mostrando o ator James Caan cantando a cantiga khmer “Bong Srolanh Srolanh Tae Oun” em um casa noturna cambojana decadente.

Mais tarde, Tony me disse que ele e Vitale prepararam a cena do karaokê de Chiang Mai como uma homenagem maliciosa a um de seus filmes favoritos. Vários outros episódios de “Parts Unknown” contêm referências cinematográficas semelhantes, embora possam ser difíceis de detectar.

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Então eu teria de escrever a música e cantar, imitando um ator mundialmente famoso. Nada como um pouco de pressão para que as coisas aconteçam.

Os produtores gravaram em Nova York uma faixa instrumental de fundo apropriada para karaokê, e a enviaram para mim poucas horas antes de eu encontrar Tony e Andy em um karaokê rústico no meio do nada.

Só para tornar tudo ainda um pouco mais desafiador, compus a letra no dialeto tailandês do norte, pois sabia que a maioria dos clientes do karaokê seria dessa região.

No dia da filmagem, encontrei-me com Tony e Andy ao entardecer no minúsculo karaokê com telhado de bambu à beira da estrada que eles haviam encontrado. Enquanto a equipe se ocupava acendendo as luzes e religando a máquina de karaokê – uma enorme jukebox com reverberação insana e frequências de graves de sacudir o teto – Tony me convidou para uma bebida, numa mesa de canto, antes da ir para a frente das câmeras.

Andy trouxera algumas garrafas de lao khao, uma bebida alcoólica ilícita feita com arroz que era uma verdadeira paulada. Fora das câmeras, Tony era tão carismático e envolvente quanto na frente delas, mas com o tom de voz um ou dois níveis mais baixo.

Anthony em karaokê
“No quinto take, eu não precisava mais fingir que estava bêbado”, diz o autor de seu momento no centro das atenções do karaokê.
Foto: Screenshot/Parts Unknown

Ele falou de sua admiração pelo meu trabalho no Lonely Planet, e nós três trocamos histórias de estradas e curiosidades sobre viagens, coisas que viajantes fazem quando se encontram pela primeira vez.

A preparação levou algum tempo e acabamos virando uma ou duas garrafas de lao khao – puro, sem entremear com uma bebida mais leve para limpar as papilas, e ficando mais saborosa a cada dose.

Eu posso ter agido de um jeito um pouco mais exagerado do que normalmente faria para entrar “no personagem” de um cantor de karaokê bêbado, mas a verdade é que estava com um medo terrível de estar no palco.

Eu toco e canto em bandas de pub rock desde os 15 anos, mas nunca sonhei que seria lançado em uma arena internacional virtual como esta.

Finalmente, a equipe disse que era hora de filmar, então vesti o paletó de linho branco emprestado de um amigo e fui para outra mesa, onde fiquei sozinho bebendo lao khao até ser chamado para cantar.

Pouco antes de as câmeras começarem a rodar, Vitale correu até mim com um lenço vermelho grosso para jogar no meu pescoço – era o detalhe que faltava para completar a roupa que James Caan havia usado em Cidade fantasma.

Pelo que me lembro, fizemos cerca de 20 tomadas da cena do karaokê. Na quinta, eu não precisava mais fingir que estava bêbado.

A clientela tailandesa não tinha a menor ideia de quem eram esses farangs (estrangeiros) enlouquecidos que invadiram sua cabana de karaokê escondida.

No início, surpresos ao ver um cara alto e branco cantando (um pouco mal, mas isso fazia parte do show) no norte da Tailândia, eles logo estavam adorando e não pareciam se importar em acompanhar tomada após tomada da mesma música.

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Na edição final do episódio, que foi ao ar em junho de 2014 nos EUA, Tony usa frases típicas, no seu melhor estilo, enquanto estou cantando.

“Esse cara é muito bom!”, seguido por uma narração cortante alguns momentos depois: “Poderia ser eu algum dia em que as coisas dão um pouco errado e eu saio dos trilhos. Seria muito atraente. Eu posso muito bem me ver cantando parabéns em alemão para turistas em um bar de hotel em Jacarta ou Bangkok”.

Anthony Bourdain e amigos em jantar na Tailândia
Joe Cummings, à esquerda, janta com o proprietário de Pok Pok Andy Ricker, Anthony Bourdain e o escritor Austin Bush.
Foto: Joe Cummings

Encerrada a cena, tomamos mais lao khao em uma mesa ao ar livre com Tony, Andy e Austin Bush (meu sucessor do Lonely Planet Thailand, que veio para as filmagens) e algumas garrafas de cerveja tailandesa também.

Eu me lembro daqueles momentos em que ouço outra narração que Tony adicionou à cena do karaokê: “Isso pode te surpreender, mas eu não sou um alcoólatra. Eu não bebo em casa nunca. Não há cerveja na minha geladeira. Se não estou trabalhando, não vou para bares. Mas se eu fosse um alcoólatra e frequentasse bares, ficaria aqui”.

Proteção de diamante

Para a cena da tatuagem, levei a equipe ao samnak sak yan de Ajahn Nen, um santuário especial dedicado à pintura de tatuagens tailandesas tradicionais.

Enquanto as câmeras e o áudio estavam sendo organizados, Tony e eu nos sentamos de pernas cruzadas diante do mestre das tatuagens, a quem eu ajudava a elaborar um desenho sagrado apropriado.

Tony, cujos braços e tronco já exibiam bastante tinta naquela época, disse que estava aberto a absolutamente tudo.

Explicando que as tatuagens tailandesas funcionam como prescrições médicas, no sentido de que são dadas para remediar um problema, perguntei a Tony se havia alguma coisa que faltava em sua vida. Ele deu de ombros e disse: “Joe, tenho mais do que jamais desejei. E mais um pouco”.

Traduzi para Ajahn Nen, que refletiu por um minuto e então perguntou a Tony: “Você tem algum inimigo?” Tony fixou o mestre com um olhar solene e depois olhou para mim. “Tenho”.

Bourdain fazendo tatuagem na Tailândia
Joe Cummings levou Bourdain para fazer uma tatuagem sagrada de sak yan.
Foto: Joe Cummings

Após uma rápida discussão, Ajahn Nen e eu decidimos que o design mágico certo para Tony seria a Armadura de Diamante (Kraw Phet), uma matriz retangular em forma de diamante que confere proteção contra os inimigos.

A defesa reflexiva da tatuagem é tão poderosa que faria qualquer dano que seus inimigos desejassem infligir a você se voltar contra eles.

A decisão seguinte foi onde colocar o desenho. Aqui, novamente, Tony estava aberto e satisfeito em deixar as agulhas agirem em qualquer lugar de seu corpo.

Eu apontei um espaço em branco em seu antebraço direito, e o mestre acenou com a cabeça – e foi lá que ele mirou.

Depois que Tony ofereceu ao mestre um prato cerimonial segurando uma flor branca, três incensos, duas velas, um maço de cigarros e algumas moedas tailandesas, Ajahn Nen começou a aplicar a tinta na pele delicada do pulso e antebraço de Tony usando uma agulha de aço afiada e bifurcada presa a uma haste de aço fina.

Assim que o desenho foi concluído, o mestre entoou uma série de mantras e borrifou água benta com uma varinha de palha sobre a cabeça e os ombros de Tony, para fortalecer a tatuagem.

Durante todo o tempo, o rosto de Tony não mostrou nenhuma indicação de dor – mas só até a hora em que ele se levantou.

Seus joelhos estavam tão travados depois de 45 minutos sentado no chão que foi preciso a ajuda de três de nós para ajudá-lo a ficar de pé.

Jantei fora com Tony e Andy outra noite durante a filmagem, mas sem as câmeras. O “Tony real” – se foi isso que eu vi – era muito mais descontraído, de fala mansa e parecia mais introspectivo do que o nova-iorquino sarcástico que todo mundo vê na tela.

Escapada

Quando ouvi a notícia de que Tony havia morrido, em 8 de junho de 2018, fiquei arrasado. Ainda mal posso acreditar que ele se foi.

Tony era um pioneiro muitíssimo importante para a mídia de gastronomia e viagens e um modelo para tantos de nós, escritores, cozinheiros, funcionários de restaurantes e amantes da vida em todos os lugares.

Recentemente, assisti novamente ao episódio do Butão de “Parts Unknown”, que foi o último da 11ª temporada, após a morte de Tony.

O programa mostra ele e o cineasta Darren Aronofsky comendo com pastores tradicionais de iaques no Himalaia e visitando o mosteiro mítico do “louco divino”, um monge budista do século 15 chamado Drukpa Kunley que pregava a iluminação por meio do sexo sem inibições.

Em Thimphu, a capital do país, eles compartilham uma refeição tradicional preparada por Kesang Choden, dona do Folk Heritage Restaurant.

A cena captura com amor as cores, texturas e métodos exclusivos da cozinha, mas Tony não é visto até o início do jantar.

Por um capricho, outro dia perguntei a uma amiga butanesa se ela poderia me colocar em contato com Kesang. Recebi um número de telefone e, após algumas tentativas, alguém finalmente atendeu.

Eu já tinha visto o rosto angelical dela em “Parts Unknown”, então foi fácil imaginá-la enquanto conversávamos sobre sua experiência cozinhando para Tony e sua equipe. 

“O pessoal das câmeras ficou aqui quase o dia todo enquanto cozinhávamos”, contou.

“Eles pediram que eu fizesse tudo de uma maneira bem tradicional, como nós butaneses estamos acostumados, não como cozinhamos para turistas. O senhor Bourdain chegou quando os pratos estavam prontos. Fiquei impressionada como ele experimentou todos os pratos sem relutância, até mesmo a pele de iaque frita. Ele gostou de tudo que fizemos para ele e me disse que era ‘muito original’. Colocamos bastante pimenta na comida, porque é assim que comemos. Ele comeu tudo”.

Desde que o episódio foi ao ar em junho de 2018, Kesang diz que seu restaurante Folk Heritage tem recebido um fluxo constante de visitantes pedindo para comer o que Tony comeu.

Sinos de templos, vales com florestas densas e picos cobertos de neve preenchem o pano de fundo do episódio no Butão.

Tony observa a ausência total de Starbucks e KFC. Existem várias referências verbais e visuais que expressam como as mudanças climáticas estão afetando até mesmo um dos locais mais remotos da Terra.

Quase no final do programa, quando Aronofsky e ele colocam pequenas estupas votivas (recipientes com restos de cremação humana) de terracota em fendas protegidas em um penhasco isolado, Tony diz, bastante cansado: “Eu sei, é lindo. Estou feliz que esse lugar ainda não tenha sido ferrado pelo mundo”.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).

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