por: Viagem e Gastronomia Viagem e Gastronomia

Dia Mundial do Turismo: o retorno e as tendências de um dos setores mais afetados pela pandemia

De acordo com especialistas, o segundo semestre de 2021 é encarado com otimismo. A chegada das vacinas trouxe esperança e, aos poucos, a retomada do turismo vem ganhando dados interessantes

“A retomada do turismo já acontece, de forma gradual e responsável.", diz Tiago Lopes, diretor de Sourcing da Decolar
“A retomada do turismo já acontece, de forma gradual e responsável.", diz Tiago Lopes, diretor de Sourcing da Decolar Getty Images

Daniela CaravaggiTina Binido Viagem & Gastronomia

Ouvir notícia

Dia 27 de setembro é comemorado o Dia Mundial do Turismo. E se tem uma coisa que todo mundo carrega um pouquinho consigo é o chamado “espírito turista”, afinal, quem nunca esteve neste papel por pelo menos um dia? Seja para encarar uma viagem a milhares de quilômetros de distância de casa, conhecendo um novo país, ou para desbravar a cidade vizinha: turistar sempre será sinônimo de descobertas e prazer, independente de lugar ou tempo.

Em março de 2020, quando o mundo parou por conta da pandemia da Covid-19, fazer uma simples viagem tornou-se um verdadeiro sonho. A notícia, entretanto, é boa: após um ano e meio, um dos setores mais afetados neste período vem ganhando sobrevida, e o sonho que antes era distante já pode se tornar realidade.

A volta do setor em números

A Abear (Associação Brasileira de Empresas Aéreas) divulgou que a aviação doméstica alcançou 75% da oferta de voos pré-pandemia em setembro / Foto: Pexels/ divulgação

No feriado nacional do dia 7 de setembro, por exemplo, um levantamento realizado pelo Ministério do Turismo apontou a movimentação de mais de 1,5 milhão de pessoas pelos aeroportos do país. A Abear (Associação Brasileira de Empresas Aéreas) divulgou que a aviação doméstica alcançou 75% da oferta de voos pré-pandemia em setembro, o que seria impensável se pegássemos a mesma época no ano passado, quando o setor não ia nada bem.

Com as fronteiras fechadas para turistas estrangeiros e o medo instaurado, o maior efeito negativo ocorreu no segundo trimestre de 2020, quando houve redução de 68,8% na Receita Cambial Turística, segundo o relatório de Impacto da Pandemia da Covid-19 nos setores de turismo e cultura no Brasil. A comparação foi feita em relação ao mesmo período de 2019.

Mas o segundo semestre de 2021 é encarado com otimismo. A chegada das vacinas trouxe esperança para todos os setores e, aos poucos, a retomada do turismo vem ganhando dados interessantes. Cerca de 22% das associadas à Braztoa (Associação Brasileira das Operadoras de Turismo), por exemplo, já venderam o mesmo ou mais que antes da pandemia em junho deste ano.

A CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) projeta o avanço de 17,8% no volume de receitas do turismo em 2021, o que seria a maior taxa de crescimento do setor em 11 anos.

“A retomada do turismo já acontece, de forma gradual e responsável, conforme a vacinação e a flexibilidade nas restrições de alguns países. Observamos, nas últimas semanas, o aumento de cerca de 45% na procura por hospedagem para as férias (dezembro/janeiro). Houve um crescimento expressivo nas buscas de alguns destinos nacionais, como Imbassaí (250%), Porto de Galinhas (92%), Foz do Iguaçu (75%)”, diz Tiago Lopes, diretor de Sourcing da Decolar, uma das maiores agências de viagem online da América Latina.

A turismológa e proprietária da agência Ivy´s Travel, Ivete Rosa, trabalha no ramo há mais de 40 anos. Neste período, viu de perto situações que causaram impacto direto no setor, como o atentado de 11 de setembro e o aparecimento da H1N1, mas nada em comparação à crise gerada com a pandemia da Covid-19.

“O ano de 2020 teve um impacto negativo, com muitas demissões e fechamento de agências e operadoras. Foi um efeito dominó em toda a cadeia, afetando companhias aéreas, hotéis, restaurantes e comércio de forma geral. A retomada me dá muita esperança e otimismo, principalmente com a abertura das fronteiras. O movimento e interesse já estão voltando e a perspectiva para o futuro é boa”, ressalta.

Quais os destinos mais procurados?

Em março de 2020, Ivete se viu obrigada a paralisar praticamente todas as atividades da agência (cerca de 90%), que voltaram apenas em junho deste ano, ainda longe da normalidade. Entre março de 2020 e maio de 2021 nenhuma viagem foi vendida na Ivy’s. A turismóloga destaca a expectativa para o futuro e também como enxerga a escolha dos destinos para os próximos meses.

Segundo pesquisa realizada pelo Booking.com, as praias são os locais mais cobiçados para as futuras viagens por 60% dos participantes pelo país / Foto: Pexels/divulgação

“Para este ano, as pessoas ainda estão programando viagens de curtas distâncias, para dentro do país. Percebo que a grande maioria está em busca de sol, praia, mar e da sensação de liberdade, que por muitos meses foi tirada de todos. Aqui na agência, o nordeste é o principal destino. Natal, Itacaré, Morro de São Paulo, Costa do Sauipe e Fernando de Noronha estão entre os mais procurados”, enfatiza.

“Sinto que ainda que há uma certa resistência a viagens Internacionais, mesmo com a abertura das fronteiras. O público ainda está receoso e quer esperar o progresso a longo prazo para viajar ao exterior com mais segurança e tranquilidade, principalmente os passageiros da terceira idade. Acredito que 2022 será o ano de retomada deste tipo de viagens mais longas e planejadas”, analisa.

Uma pesquisa comandada pela Booking.com apontou que São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza são as cidades que os brasileiros mais planejam visitar em suas futuras viagens domésticas. As praias são os locais cobiçados para as futuras viagens por 60% dos participantes pelo país, enquanto os destinos de natureza são os mais desejados por 42%.

Em níveis regionais, a pesquisa revelou que 70% dos viajantes da região Sudeste pretendem visitar o litoral do país, seguidos dos turistas do Sul com 63%, do Nordeste com 60%, do Centro-Oeste com 57% e do Norte com 51%. Já explorar as paisagens naturais do Brasil será a opção de 45% de viajantes do Sudeste, 43% do Sul e 42% do Nordeste. Enquanto isso, conhecer grandes cidades é a vontade de 44% de pessoas das regiões Norte e Centro-Oeste para as próximas viagens.

Já na plataforma Decolar, Rio de Janeiro, Porto de Galinhas (PE) e Embassaí (BA) aparecem nas primeiras posições, respectivamente.

Rio de Janeiro aparece como um dos destinos domésticos mais procurados em duas pesquisas recentes (Foto: Unsplash/Divulgação) / Unsplash/Divulgação

“Há uma demanda reprimida de viagens – as pessoas estão programando com mais antecedência e preferindo destinos que proporcionem atividades ao ar livre, praia e contato com a natureza. Também acreditamos que o anywhere office é uma tendência que veio para ficar e será um aliado para aquecer ainda mais as viagens de lazer, uma vez que as pessoas podem trabalhar em lugares distintos”, completa o diretor Tiago Lopes.

Viajar de avião, carro ou ônibus?

Apesar da queda dos números da pandemia, é importante ressaltar que o vírus continua em circulação e todos os cuidados ainda precisam ser tomados. Ainda há muitas dúvidas sobre qual o método mais seguro de viagem.

Segundo a infectologista Melissa Valentini, do grupo Pardini, a melhor, sem dúvidas, é viajar de carro particular – e com pessoas do seu ciclo familiar de preferência. Mas se tiver de escolher entre ônibus ou avião, não se desespere: alguns pontos de atenção podem e devem ser levados em conta para sua proteção seja a mais eficaz possível.

Para essas viagens coletivas em transportes sem janela, a infectologista recomenda o uso dos modelos de máscara N95 ou PFF2, que possuem um filtro mais eficaz. Caso utilize cirúrgicas, é preciso colocá-las da forma correta, cobrindo a boca e o nariz, e se atentar ao tempo de troca (de quatro em quatro horas ou assim que ficarem úmidas). Melissa dá outra dica importante, que muitas vezes as pessoas esquecem: proteger os olhos. O uso de óculos nestes ambientes também ajuda a minimizar a exposição ao vírus.

“O ideal é que sejam trajetos mais curtos e que as pessoas não tirem suas máscaras durante esse período. Evitar a ingestão de alimentos nestes meios de transporte coletivos ajuda a minimizar o risco de contaminação. Essa é uma das horas que mais requer atenção e cuidado”, ressalta.

Onde se hospedar?

Se você está com uma viagem marcada, mas ainda está em dúvida sobre qual é o lugar mais seguro para se hospedar, a infectologista indica o aluguel de casas ou apartamentos particulares para que o convívio fique restrito a pessoas que estão viajando com você.

“Os hotéis que estão funcionando tiveram de ter os alvarás renovados e passam sempre por uma avaliação de vigilância sanitária. As normas têm de ser seguidas, mas o risco maior existe por você compartilhar ambientes com outros hóspedes. As refeições, por exemplo, precisam ser um ponto de atenção. São momentos em que as pessoas ficam sem máscara e o ambiente pode ser contaminado. É preciso manter o distanciamento e optar por locais mais arejados. Por isso, se você tiver a opção de escolher por uma hospedagem particular, em que não terá interação com pessoas desconhecidas, o risco de contaminação também é minimizado”, explica.

Quais cuidados devo tomar em minha hospedagem?

Segundo Melissa, o ideal é que, ao chegar no quarto ou na casa em que irá se hospedar, você abra todas as janelas para arejar o ambiente. Se não sentir confiança, use desinfetantes e reforce a limpeza. Caso se sinta mais confortável, leve suas roupas de cama e toalhas, mas o mais importante: redobre a atenção aos cuidados pessoais de higiene, pois o ambiente não apresenta tantos riscos.

“Depois de mais de um ano, está claro que a transmissão ocorre principalmente pelas secreções respiratórias e com o contato próximo entre as pessoas. É claro que há o risco do vírus persistir por algum tempo em alguns móveis, roupas, objetos ou ambientes, mas é mais raro. Para evitar que a contaminação aconteça dessa forma, é preciso estar atento principalmente à higienização das mãos e não levá-las em hipótese alguma aos olhos, boca e nariz – isso serve para qualquer hora em qualquer ambiente”, enfatiza.

Se não puder viajar agora, faça planos, turista!

A pandemia e necessidade de isolamento social causaram uma mudança brusca na rotina da maioria das pessoas. Estar privado de exercer suas atividades diárias, não tendo uma perspectiva de melhora, mexeu com o psicológico de muita gente, como explica a psicóloga Ana Gabriela Adriani, que viu a procura de sua agenda aumentar em 40% no último ano.

“Percebo que todos estão mais tristes, cansados e deprimidos de ficarem só em casa, naquilo que já é conhecido, no convívio com as mesmas pessoas. Não ter contato com experiências novas e ficar na ‘mesmice’ também cansa. Quando o descanso não é uma escolha, ele também causa um sério impacto na rotina de todos”, ressalta.

Uma das sugestões da psicóloga para que essa sensação seja um pouco amenizada é: programe uma viagem! Só o fato de planejar algo – mesmo que não tenha uma data ainda para acontecer – fará você se sentir melhor.

“Viajar melhora nossa qualidade de vida e atua diretamente em nossa saúde mental, reduzindo de forma direta o stress, a tristeza e até depressão. Ao viajar, você se torna psicologicamente mais saudável e se torna dono do seu tempo, sem pressões cotidianas, fazendo o que quiser e na hora que quiser. Viajar é ter a possibilidade de viver novas experiências, de estar em contato com o novo e isso expande nosso aprendizado e causa essa sensação boa.”, ressalta.

“Mas quem pensa que isso só acontece no dia em que você embarca ao destino está enganado. A viagem começa exatamente no momento em que você inicia o seu planejamento. É muito saudável fazer planos. São por meio deles que podemos fugimos da realidade e sonhar, na esperança de que tudo o que estamos vivendo vai passar”, enfatiza.

Até nas viagens a trabalho essa sensação é reforçada. Caso você seja uma daquelas pessoas que necessariamente precisa viajar, tome todos os cuidados possíveis, mas saiba que pelo menos o seu psicológico será beneficiado.

“Principalmente se não for uma viagem tão estressante, pode ajudar muito. Ela irá te tirar do seu ambiente e te colocará diante de situações novas, trazendo momentos de aprendizado e tirando do clima de monotonia, vivido há mais de um ano. O home office mexeu muito com as pessoas. A sua casa, que não está preparada para isso, virou absolutamente tudo: local de trabalho, escola, academia, lazer. Poder sair dessa rotina, mesmo que por motivos de trabalho, trará benefícios para a sua saúde mental”, finaliza.


Mais Recentes da CNN