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Como o setor de viagens está respondendo à invasão russa da Ucrânia

Rússia foi retirada dos roteiros turísticos das principais operadoras de viagens e cruzeiros; veja as sanções programadas do setor

Uma foto de longa exposição noturna mostra o centro de Moscou em dezembro de 2021
Uma foto de longa exposição noturna mostra o centro de Moscou em dezembro de 2021 Getty Images

Blane Bachelorda CNN

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Dos esportes profissionais a Hollywood e aos alimentos e bebidas, uma ampla gama de indústrias anunciou boicotes, proibições e outras formas de retaliação contra a Rússia em resposta à violenta invasão da Ucrânia.

Agora, o setor de viagens também está começando a agir.

As linhas de cruzeiros, incluindo empresas proeminentes como a Carnival, operadoras de turismo e várias organizações do setor, anunciaram planos para cancelar os próximos passeios na Rússia e também para restringir a participação de entidades russas em seus negócios.

Esses desdobramentos vêm logo após a agitação contínua nas viagens aéreas, já que a União Europeia, Canadá e Moscou emitiram proibições recíprocas de espaço aéreo nesta semana. Em seu discurso sobre o Estado da União na terça-feira (1º), o presidente Joe Biden também anunciou que os Estados Unidos fecharão seus céus para as aeronaves russas.

Não surpreendentemente, a indústria de viagens da Rússia está respondendo na mesma moeda. Na terça-feira, a Agência Federal de Turismo russa recomendou que seus cidadãos evitem visitar países que impuseram sanções à Rússia e aconselhou os operadores turísticos a suspender as vendas de tours para esses países.

Enquanto isso, muitos marcos e monumentos turísticos proeminentes foram iluminados com as cores amarela e azul da bandeira ucraniana, aumentando o ímpeto de protestos massivos em todo o mundo. Em menor escala, pelo menos uma grande empresa de viagens – a plataforma de reservas Kayak – adicionou as cores nacionais da Ucrânia ao seu logotipo digital.

Ainda não se sabe como essas medidas afetarão o setor de turismo da Rússia, que arrecadou cerca de US$ 84 milhões em 2019. Por enquanto, alguns líderes do setor dizem que uma demonstração de apoio unido em toda a indústria de viagens é crucial.

O Museu Hermitage e Palácio de Inverno são atrações que atraem turistas a São Petersburgo / Julian Finney/Getty Images

“A maioria das empresas de turismo, incluindo a nossa, vê nossa missão como embaixadores globais de culturas”, disse por e-mail Catherine Chaulet, presidente e CEO da Global DMC Partners, uma rede de empresas independentes de gerenciamento de destinos. “Em tempos de guerra, é ainda mais importante compartilhar a história dos lugares, os valores e as histórias das pessoas afetadas. Mais do que nunca, nosso papel hoje é compartilhar e proteger o que nos une, não o que nos divide”.

Veja um resumo de alguns desdobramentos notáveis até agora.

Tours cancelados

O famoso escritor de guias, Rick Steves, foi um dos primeiros e mais importantes nomes do setor a compartilhar notícias sobre sua empresa de turismo, a Rick Steves’ Europe, cancelando todas as viagens com escala na Rússia.

Steves anunciou a decisão em 24 de fevereiro, em um post em seu blog intitulado “Comrades No More” (“Camaradas Não Mais”, em tradução livre), escrevendo: “Nossa missão na RSE é ajudar os americanos a conhecer e entender melhor nossos vizinhos por meio de viagens. Mas quando trazemos viajantes para outro país, também trazemos seus dólares – os dólares que apoiariam o ataque de Putin”.

Outro provedor de viagens proeminente, a G Adventures, com sede em Toronto, no Canadá, foi mais a fundo em sua resposta. Além de cancelar passeios com paradas na Rússia, a agência de viagens de aventura não aceitará reservas de agências de viagens russas ou cidadãos russos como clientes “no futuro próximo”, disse o fundador da G Adventures, Bruce Poon Tip.

“O objetivo das sanções, o objetivo global é se unir, é pressionar internamente dentro do país”, disse Poon Tip. “Então, como empresas, devemos [todos] fazer nossa parte”.

Em 2019, a G Adventures fez mais de uma dúzia de viagens que incluíram paradas na Rússia; todas essas ofertas foram removidas de seu site. A empresa anunciou a notícia em um e-mail para funcionários e clientes na noite de terça-feira. “Sempre disse que viajar pode ser o caminho mais rápido para a paz, então parte o meu coração saber que tenha chegado a isso”, escreveu Poon Tip no e-mail.

A BusinessClass.com, uma plataforma de busca sediada em Oslo, na Noruega, especializada em viagens premium, também anunciou que está bloqueando de seu site todas as reservas e conteúdo da Rússia, uma medida que o CEO, Jason Eckoff, está pedindo a seus colegas do setor. “Agora estou pedindo a TODAS as empresas de viagens do mundo que se juntem a nós, excluindo tudo relacionado à Rússia em seus respectivos serviços até que essa terrível invasão não provocada chegue ao fim”, escreveu Eckoff em um post no LinkedIn.

Outras operadoras estão fazendo movimentos semelhantes. Charles Neville, diretor de marketing da JayWay Travel, com sede nos EUA, que fornece passeios personalizados para vários destinos do leste europeu, disse à CNN que não está mais promovendo ou reservando viagens para a Rússia, Ucrânia ou Belarus.

Juntas, as viagens a esses países representam menos de 5% dos negócios da empresa, disse Neville, e a companhia mantém uma comunicação próxima com os clientes que já reservaram esses destinos, com opções para adiar ou reorganizar suas viagens.

Muito mais complexa, no entanto, é a complicada questão de saber se a JayWay Travel acabará promovendo viagens para a Rússia novamente – uma tarefa especialmente difícil para organizações que têm funcionários com experiência em primeira mão e histórico familiar de opressão de regimes perigosos.

“Temos um colega na Ucrânia e fornecedores [locais] com quem isso está acontecendo agora, e para eles, perdoe minha linguagem, ‘Dane-se a Rússia, por que enviaríamos pessoas para lá?’”, disse Neville. “Acho que é uma discussão que muitas empresas de viagens terão que ter. Quero dizer, há muito poucas empresas enviando pessoas para a Coreia do Norte. É assim que a Rússia acaba?”

Cruzeiros redirecionados

Um barco turístico navega no rio Moskva em frente ao palácio do Grande Kremlin, à esquerda, e da Catedral da Anunciação em Moscou, Rússia, no dia 15 de fevereiro de 2022 / Bloomberg via Getty Images

As operadoras de cruzeiros estavam entre as primeiras empresas de viagens a anunciar o redirecionamento de itinerários com escalas na Rússia, incluindo os principais participantes, incluindo Norwegian Cruise Line Holdings, Viking e Carnival Corporation, empresa controladora de nove linhas de cruzeiro.

Outras operadoras que anunciaram mudanças semelhantes incluem a Atlas Ocean Voyages, nova no setor, a MSC e a marca-boutique Sea Cloud, disse por e-mail Colleen McDaniel, editora-chefe da Cruise Critic, um recurso online líder na indústria de cruzeiros.

Muitos itinerários incluem São Petersburgo, conhecida como a “capital cultural” da Rússia, que, segundo seu conselho de turismo, atraiu cerca de 10 milhões de visitantes em 2019.

O redirecionamento de itinerários para evitar o mau tempo ou destinos onde conflitos eclodiram, para manter os passageiros e a tripulação seguros, não é incomum no setor de cruzeiros.

No entanto, os recentes afastamentos da Rússia também refletem uma postura decididamente humanitária: a Carnival Corporation, por exemplo, concluiu seu anúncio postado no Twitter, em 26 de fevereiro, com a declaração “Nós defendemos a paz”.

McDaniel disse que isso está de acordo com os valores subjacentes de muitos passageiros de cruzeiros. “Isso reflete o que vimos em nossos conselhos e também nas mídias sociais, com clientes relatando que também falarão através de seus dólares”, disse ela.

Enquanto isso, a Royal Caribbean International (RCI), proprietária da Royal Caribbean, Celebrity e Silversea, divulgou na terça-feira um comunicado anunciando cancelamentos de seus itinerários com escalas na Rússia, confirmou um porta-voz do RCI por e-mail.

A Saga Cruises e a Hurtigruten Expeditions têm navios programados para escalar nos portos da Rússia neste verão e continuam monitorando a situação, de acordo com McDaniel.

#StandWithUkraine

Sydney Opera House foi iluminado com as cores da bandeira ucraniana em 1º de março de 2022 / STEVEN SAPHORE/AFP via Getty Images

Pelo menos um grupo de turismo do Leste Europeu se destacou na popular hashtag #StandWithUkraine (“Apoie a Ucrânia”, na tradução livre). ANTRIM, uma organização sem fins lucrativos que representa o setor privado na indústria do turismo da Moldávia (que compartilha sua fronteira leste de quase 1.200 quilômetros com a Ucrânia), anunciou no Instagram planos de disponibilizar hotéis, pousadas e restaurantes para os refugiados do país que fogem da guerra.

“Caros vizinhos ucranianos, estamos ao seu lado nestes tempos difíceis. Os tristes acontecimentos em seu país os forçaram a cruzar nossas fronteiras. Esperamos que as fronteiras e os muros de nosso país façam você se sentir seguro”, a agência escreveu, direcionando os refugiados para seu site ou centro de informações para visitantes em Chisinau. Um post subsequente compartilhou detalhes sobre como doar para uma conta bancária criada pelo Ministério das Finanças do país para fornecer apoio financeiro.

A plataforma de aluguel Airbnb também anunciou planos na segunda-feira para oferecer alojamento temporário gratuito para até 500 mil refugiados ucranianos.

Enquanto isso, o ministro do Turismo da Grécia, Vassilis Kikilias, anunciou planos esta semana para abrir 50 mil empregos no turismo para refugiados ucranianos ou expatriados gregos.

Outras demonstrações de solidariedade à Ucrânia podem ser vistas em pontos turísticos de todo o mundo.

Na sexta-feira (25), quando as forças russas entraram na capital da Ucrânia, Kiev, muitos dos monumentos mais famosos do mundo foram iluminados com as cores azul e amarela da bandeira ucraniana. Entre eles: o Empire State Building de Nova York, o London Eye, a Torre Eiffel e o Coliseu de Roma.

Em Berlim, o Portão de Brandemburgo foi iluminado com as cores azul e amarela da bandeira ucraniana no fim de semana. E no domingo (27), mais de 100 mil pessoas marcharam pelo famoso marco da Alemanha, durante um dos maiores protestos contra a invasão russa.

*Esta matéria foi traduzida. Leia a versão original aqui.

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