Um convite para conhecer três vinhos paulistas, por Daniela Filomeno

Na Serra da Mantiqueira, a tecnologia tem driblado as condições climáticas e produzido vinhos tintos de qualidade. O enoturismo no interior de São Paulo está crescendo. Reúno uma série de rótulos nacionais para degustar sem preconceito e destaco aqui um pouco da história de três deles

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Daniela Filomeno indica vinhos surpreendentes produzidos no interior paulista. Na foto, ela está na Vinícola Guaspari, que produz rótulos reconhecidos internacionalmente (Foto: acervo pessoal)

“Fazer vinho é um negócio relativamente simples. Difíceis são só os primeiros 200 anos”, já dizia a baronesa francesa Philippine Rothschild, “la grande dame”. Talvez a tecnologia venha driblando o tempo e contribuindo para a produção de vinhos de qualidade no interior de São Paulo. Um dos grandes entraves eram as chuvas de verão, que (para ser prática e didática) “encharcavam” as uvas, que não resultavam em um vinho de qualidade. A perseverança do agrônomo brasileiro Murilo Regina, mestre em viticultura pela Université de Bordeaux II, através da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), tem revolucionado nossa história na área. Ele inventou uma técnica que driblou as estações do ano: a poda invertida.

Basicamente, ela é realizada no período oposto ao “ideal”, deixando a planta reiniciar seu processo e beneficiar a colheita, igual ao Velho Mundo. O ciclo produtivo das plantas é invertido, o que permite que os frutos amadureçam no outono, com dias ensolarados e secos e noites frias. O resultado: vinhos surpreendentes, que têm angariado prêmios – no ano passado, foram os primeiros do país a estar na capa da revista Decanter, e continuam caminhando.

A produção da bebida em solo nacional tem ganhado cada vez mais adeptos e, com o aumento de consumo, a escassez de importados na pandemia e a alta do dólar nos últimos tempos, entrou no circuito dos enófilos. Com técnicas arrojadas e vinícolas espalhadas por cidades com climas amenos e de amplitudes térmicas suscetíveis à produção, os rótulos nacionais fazem frente a muitos estrangeiros. Apesar do consumo per capita ter subido 30% no país no último ano, segundo a Ideal Consulting, que acompanha a evolução do setor, ainda temos muito a crescer. O vinho local produzido a partir de uvas viníferas só representa 6% do consumo total.

As uvas syrah e sauvignon blanc têm sido o destaque, mas já temos boas garrafas sendo produzidas com cabernet sauvignon, cabernet franc, chardonnay, entre outras. Sendo assim, em minha coluna desta semana, convido você a conhecer – assim que a pandemia permitir – três vinícolas próximas à capital paulista. Por enquanto, faremos apenas uma viagem pelo sabor e pela história com boas taças em casa mesmo.

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Vinícola Guaspari, Espírito Santo do Pinhal (SP)
A família Guaspari estabeleceu sua vinícola onde antigamente residia uma fazenda de café em Espírito Santo do Pinhal (SP), região na divisa com Minas conhecida por sua tradição cafeeira. Não é à toa que um dos produtos vendidos ali seja o café arábica, nas versões moída e torrada, que possui aromas de caramelo, nozes e chocolate.

Syrah – Vista da Serra 2018: vinho de coloração rubi intensa, boa acidez e aroma de amora (Foto: reprodução/Instagram)

Mas a verdadeira alma do negócio gira em torno da produção e da venda de vinhos e do enoturismo. A vinícola fica entre duas fazendas magníficas, entre 1.000m e 1.300m de altitude, em que a insolação durante o dia e as noites fresquinhas garantem um produto similar às regiões europeias produtoras. O solo seco com boa drenagem faz com que os vinhos dali tenham um terroir único – como se fosse o DNA da bebida, que leva em conta o conjunto de variáveis como clima, solo e intervenção humana.

A vinícola investiu pesado em tecnologia e na técnica da poda invertida e vem colhendo resultados; além de uma safra ultra especial com apenas mil garrafas/ ano, a linha “terroir” (vendida somente a um clube seleto de clientes), foi a primeira vinícola nacional a ter uma garrafa estampada na capa da prestigiada revista Decanter, o Syrah Vista da Serra 2017. Já o Syrah Vista do Chá 2016 teve uma ótima avaliação levando 91 pontos.

Destaco o vinhos Guaspari Terroir Pinot Noir 2015 e o Guaspari TerroirCabernet Franc 2015 que degustei em minha estadia por lá e me surpreenderam. Os meus favoritos são o Chardonnay – Vista do Lago 2018, o blend Cabernet Franc/ Cabernet Sauvignon Vista da Mata 2015 e 2017, Syrah – Vista da Serra 2018 e o Sauvignon Blanc – Vista do Café 2018.

Distante 200 quilômetros da capital, cerca de 2h30 de carro, a vinícola possui vistas incríveis para o entorno. As montanhas da Serra da Mantiqueira podem ser apreciadas de um dos vinhedos onde são plantados seis hectares da uva Syrah. Uma outra paisagem igualmente encantadora é a Vista do Lago, voltada para um lago dentro da propriedade e cercado de palmeiras-das-canárias, onde há um vinhedo com cultivo de Cabernet Sauvignon e Chardonnay. Ali na sede da Guaspari é possível fazer uma verdadeira imersão no enoturismo. Além da degustação dos vinhos da casa e a contemplação das paisagens, pode-se conhecer toda a propriedade ao lado de técnicos da vinícola e ainda reservar um piquenique no gramado, em que toalhas e almofadas fazem parte do pacote. Ótimo para terminar o dia na companhia de bons amigos, queijos e vinhos!

Vista de um dos vinhedos da Guaspari durante o pôr do sol (Foto: reprodução/Instagram)

Caso queira ficar pela cidade por um dia, hotéis e pousadas aconchegantes dão conta de receber gentilmente os turistas. Indicados pela própria Guaspari, experimente a Hospedaria Casa da Pedra, cuja casa principal está encravada em uma pedra a 1.100m de altitude e é rodeada pela natureza peculiar, ou ainda o Villa Do Poeta, hotel numa casinha antiga no centro da cidade que carrega o charme da região. A Pousada do Vinhedo oferece uma experiência mais intimista e possui um pequeno vinhedo, de onde sai um vinho tinto de intensa coloração, e, caso queira ficar dentro de uma fazenda, a Pousada Famiglia Barthô dispõe de instalações ao mesmo tempo modernas e rústicas em um amplo espaço. 

Vinícola Terra Nossa, Santo Antônio do Jardim (SP)

Vinhedo com cultivo de Syrah da Vinícola Terra Nossa, que é adepta da técnica de dupla poda (Foto: reprodução/Instagram)

A pequena cidade de Santo Antônio do Jardim, quase na divisa com Minas, guarda a acolhedora Vinícola Terra Nossa em meio a 1.100 metros de altitude. Nascida pelas mãos e pela vontade de cinco amigos-sócios amantes do vinho, o negócio começou com uma pequena produção de vinhos para a família e amigos. Entre eles estão o sommelier chileno Cristian Pulveda, que já passou pela Guaspari e faz consultoria para muitas vinícolas da região e todo Brasil (sim, tem muitas outras regiões produzindo vinho, além do Sul) e do paisagista Roberto Ferrari, responsável por inúmeras caves e seus jardins exuberantes.

O sol, o clima, a água e intervenção humana na região, além da proximidade com a face oeste da Serra da Mantiqueira, propiciam o desenvolvimento de parreirais de alta qualidade e uvas com altos teores de frutose. Assim, nascem os bons vinhos da vinícola, que, por enquanto, possui três produtos: um Syrah 100% e um Rosé de Syrah, ambos da linha Profano, que não passam por madeira, e um último produto premium, o Syrah Clássico, mais elaborado, de coloração vermelha intensa, taninos robustos e notas de pimenta preta e fruta negras. Diferente da linha Profano, o clássico fica entre 12 e 14 meses em barricas de carvalho francês e outros dois anos engarrafado.

Os três vinhos da Terra Nossa são de alta qualidade e possuem uma identidade irreprodutível em outros lugares. É um dos meus vinhos brasileiros favoritos, em especial o tinto Syrah.
A instalação é aconchegante e, mais importante, super amigável e íntima. A estrutura, porém, ainda está sendo modificada para logo receber visitantes e amantes de vinho, com previsão de início das atividades em junho deste ano. Como o vinho atrai uma relação boa entre as pessoas, não é à toa que a ideia dos donos da empreitada é ter uma clientela fiel, que ajuda até nos processos de poda e na produção da bebida, e que compra diretamente da propriedade. A Terra Nossa não tem a pretensão de ser grande, busca ser uma boutique de vinhos onde amigos compram o seu barril e asseguram uma produção inteira personalizada, com os toques marcantes da uva da região.
Outra característica marcante da Terra Nossa é que, além dos próprios rótulos, a equipe presta consultoria a outros projetos iniciantes do mundo do vinho, passando um know-how e tecnologia para empreitadas até de outros estados. Brinco que é como um “kit vinícola”: oferecem do paisagismo ao conhecimento de produção para quem tem o sonho do seu próprio terroir e suas garrafas.

Distante cerca de 2h40 de carro da capital paulista, a região possui boa infraestrutura caso o turista queira conhecer o entorno. Se pretender ficar pela região e visitar tanto a Terra Nossa quanto a Guaspari, a pedida é se hospedar em uma das propriedades de Espírito Santo do Pinhal, como o Recanto Serra Nascente do Sol, com quartos amplos e arejados que fica num bairro calmo e próximo ao centro da cidade, assim como as outras opções acima

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Casa Verrone, Itobi (SP)
A Casa Verrone completa cinco anos da primeira produção em 2021, mas possui muito mais história do que isso. Localizada a 240 quilômetros de São Paulo, cerca de 3 horas, a empreitada nasceu a partir da admiração por vinhos de Marcio Verrone, proprietário da vinícola, que se aventurou num curso voltado ao tema em 2000 e passou a viajar em busca de novos estudos e informações. 

Colheita de inverno da uva Syrah da Casa Verrone (Foto: reprodução/Instagram)

Após nove anos, foram plantadas as primeiras videiras na atraente propriedade em Itobi, modesto município de aproximadamente 7.800 habitantes. Após o sucesso inicial com a qualidade da produção obtida, a área foi ampliada e, atualmente, soma cerca de 12 hectares plantados de videiras europeias.

A produção dali é agraciada por uma amplitude térmica que promove o bom desenvolvimento das uvas. A média das temperaturas máximas varia entre 25°C e 30°C durante o ano, e a média das mínimas cai para próximo de 10°C no inverno. O clima do município é amenizado pela localização geográfica do vale do Rio Pardo, entre as montanhas da Serra do Cervo – braço da Serra da Mantiqueira. 

Dentre as opções produzidas e comercializadas pela Casa Verrone, os brancos e o Gran Speciale são as minhas duas linhas de vinhos preferidas da casa! O Sauvignon Blanc possui aroma frutado, com destaque para o maracujá, e uma refrescância ímpar, assim como o Chardonnay, que lembra frutas brancas como a pera. Já o Gran Speciale vale muito a pena pelo custo-benefício, sendo um tinto de coloração vermelho rubi intenso, com um perfume inigualável. Inclusive, em safras passadas, os três vinhos já angariaram prêmios Brasil afora. 

E, para coroar a experiência, em novembro de 2020 foi inaugurado um restaurante no local. Uma instalação envidraçada com um deck exterior dá para uma linda vista para o verde ao redor e é perfeita para estimular ainda mais a enogastronomia. O menu muda de tempos em tempos e oferece uma grande variedade de pratos, elaborados em consonância com a cozinha contemporânea.

Por ali, é possível fazer uma visita guiada com o próprio dono da vinícola, que explica o processo produtivo dos vinhos enquanto se faz um passeio pelos vinhedos e pela adega. As reservas podem ser feitas via site.

Caso a viagem de ida e volta seja muito longa, pousadas de cidades vizinhas são recomendadas para hospedagem. O Espaço Bambu, em Casa Branca, a 14 quilômetros de Itobi, é um local que reúne um restaurante, uma escola de gastronomia e ainda uma pousada. As suítes são dispostas em pequenos e modernos chalés em meio a uma ampla área cercada por natureza. Em São José do Rio pardo, a 20 quilômetros de Itobi, a pedida fica no centro da cidade: o Vale do Sol Pousada e Hotel é de pequeno porte, agradável e possui quartos de bom tamanho junto de algumas facilidades, como café da manhã e estacionamento já inclusos na diária. 

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