por: Viagem e Gastronomia Viagem e Gastronomia

Um passeio pela incrível cidade subterrânea da Capadócia, na Turquia

Medindo 18 andares e localizada a 85 metros de profundidade, Derinkuyu é uma das maiores e mais profundas cidades subterrâneas da Turquia

Ouvir notícia

Richard Quest e Joe Minihane, CNN

(CNN) – É uma paisagem quase estranha. Pedra calcária macia, expelida de vulcões há milênios para criar uma série de chaminés de fadas, como ficaram conhecidas por serem graciosamente esculpidas pela natureza. Esta é a Capadócia.

Erguendo-se acima das Planícies da Anatólia, no centro da Turquia, esta região histórica foi declarada Patrimônio Mundial da UNESCO, atraindo milhares de turistas todos os anos. Muitos vão para o céu em balões de ar quente quando o sol nasce, para ter uma visão melhor das formações rochosas chamadas de “chaminés de fada”, dispostas em diversos tamanhos e em formatos pontiagudos e cônicos.

A natureza pode ter criado essa paisagem, mas foram as civilizações antigas que a transformaram e adaptaram para seus próprios fins. A população local trabalhou muito para preservar esta história e as culturas tradicionais que emergiram dali. E em nenhum lugar isso é mais óbvio do que nas profundezas daqueles picos de calcário.

Por baixo da terra. A rocha macia e seus sistemas sinuosos de cavernas naturais fizeram com que a Capadócia se tornasse famosa por suas cidades subterrâneas que datam do período medieval. Quando os exércitos saqueadores chegavam, milhares de pessoas escapavam para o subsolo, onde poderiam viver por meses.

Medindo 18 andares e a uma profundidade de 85 metros, Derinkuyu é uma das maiores e mais profundas cidades subterrâneas da Turquia. Omer Tosun é um colecionador de antiguidades local e proprietário do primeiro hotel de luxo da Capadócia. Ele fez questão de apresentar aos visitantes fascinados todas as facetas da cultura da Capadócia, especialmente Derinkuyu.

Derinkuyu, cidade subterrânea na Capadócia, Turquia (Foto: Getty Images)

“Imagine isso”, diz ele em pé no que antes era um estábulo subterrâneo. “As pessoas estão trabalhando no cultivo do lado de fora e, quando um exército ataca, elas pegam todos os seus animais e entram.”

Omer explica que cerca de 20 mil pessoas teriam se escondido nessas passagens estreitas por meses no momento em que as forças mongóis andavam por cima da cidade subterrânea. Eles teriam feito uso de centenas de depósitos, salas de estar e até túneis de comunicação através dos quais poderiam gritar mensagens e transmitir notícias do que estava acontecendo na superfície.

Hoje, Omer dirige o Museum Hotel. Cuidadosamente restaurado ao longo de duas décadas, essa propriedade opulenta abriga 60 cavernas e 10 edifícios incríveis, alguns com mil anos. O trabalho de Omer para trazer as ruínas de volta à vida significa que os turistas agora podem ficar neste local histórico, localizado abaixo do Castelo de Uchisar, o ponto mais alto da Capadócia.

Igreja escura. As cavernas são adornadas com obras de arte originais, com uma espetacular Suíte Sultan preenchida por uma banheira de hidromassagem com vista para as chaminés de fada.

“Isso é como o Jardim do Éden”, diz Ome, apontando para um casal de pavões. “Temos muitos pássaros lindos por perto e eles vêm e dão as boas-vindas a você.” O que esse hotel incrível e essas cidades antigas guardadas dentro das cavernas mostram é como o povo da Capadócia moldou a paisagem, e vice-versa, como eles também foram moldados pela cidade ao longo dos últimos milênios.

Não há lugar melhor para ajudar a entender esse vínculo entre o ambiente e as pessoas do que o Museu ao Ar Livre de Goreme. Acredita-se que tenha sido um assentamento monástico bizantino antes de se tornar um local de peregrinação, no século 17. As numerosas capelas escavadas na rocha são o lar de obras de arte e artesanato incríveis.

Embora cada uma delas seja linda, a mais incrível de todas é a Igreja Escura. O exterior pouco atraente da caverna dá pouca indicação da beleza eclesiástica escondida dentro dela. Conhecida como a Igreja Escura porque não tem janelas, a falta de luz fez com que seus afrescos requintados fossem totalmente preservados. As representações coloridas de Cristo na cruz e a traição de Judas datam do século 11. Assim como em Derinkuyu, vale a pena esperar o inesperado.

Terra de belos cavalos. Os cavalos selvagens vagam por essas montanhas há séculos. Diz a lenda que foi a presença deles que deu o nome a Capadócia. “Capadócia significa a terra dos belos cavalos”, confirma Irfan Ozdogan. Irfan é um cowboy turco moderno, o proprietário de um pequeno estábulo de onde ele parte com os turistas para um passeio pelas maravilhosas paisagens rochosas.

Rio Kizilirmak, que atravessa a bonita cidade de Avanos (Foto: Getty Images)

Os passeios de Irfan proporcionam vistas deslumbrantes das chaminés de fada, além de dar aos visitantes a chance de desacelerar e aproveitar o ritmo de exploração da área a cavalo. Como diz o provérbio turco: “Quem não tem cavalo não tem pé.”

Mas a paisagem da Capadócia não serve apenas para exibir imagens de cartão-postal de seus fenômenos naturais mais famosos ou do paraíso subterrâneo. O rio Kizilirmak, que atravessa a bonita cidade de Avanos, é outro exemplo de natureza trabalhando em conjunto com a população local para ajudar a criar algo bonito. Este rio e a lama que produz forneceram a gerações de artesãos uma argila vermelha distinta que tornou famosa por sua cerâmica.

Galip Lorukcu é um mestre da arte, que aprendeu ainda pequeno. Com uma roda que opera com os pés e com o barro do rio nas mãos, ele produz peças apreciadas em toda Capadócia e em outras regiões. “Aprendi com meu pai. Meu pai aprendeu com o pai dele e assim por diante”, diz ele enquanto trabalha. Sua esposa, Lilian, diz que Galip é, pelo menos, a quinta geração de sua família a trabalhar com peças de cerâmica formadas pelo barro do rio Kizilirmak.

A velocidade, precisão e habilidade demonstradas por Galip são extraordinárias, aprimoradas ao longo de muitos anos de aprendizado e prática. “Se ele trabalhasse o dia todo, poderia fazer cerca de 150 potes”, diz Lilian. Mesmo com a ajuda de Galip, é impossível fazer algo que se assemelha a uma panela ao tentar operar a roda pela primeira vez, muito menos imaginar fazer obras que ele coloca em exposição em sua loja.

Estranho, maravilhoso e único. Mas Galip não se especializou apenas em cerâmica. Ele tem outro interesse, algo que o marca na Capadócia e não deriva da paisagem natural. Nos fundos de sua loja de cerâmica está o Museu do Cabelo de Avanos. Compreensivelmente, ele foi classificado como um dos museus mais estranhos do mundo.

Leia mais:
Olha no Caribe oferece visto especial de moradia para pessoas se isolarem na natureza
Sabia que há ferramentas escondidas no seu celular que permitem visitar cidades por realidade virtual?
Cansado da mesma vista? Conheça o mundo através das janelas de outras pessoas
A corrida contra o tempo para salvar Pompeia, na Itália

Existem mais de 16 mil tranças de todo o mundo. Isso não é tanto uma coleção, mas um santuário de mechas femininas. Ao circular pelo museu, é impossível afastar a sensação de estranhamento. “Eu não obrigo ninguém a dar, elas dão por si mesmas”, diz Galip. “Quem sou eu para dizer se é estranho ou não?”

As mulheres doam seus cabelos para Galip há mais de 30 anos, incluindo Lilian. “Estou acostumada porque moro nela”, ela ri. “Mas eu lembro que no começo eu achava muito engraçado.” O cabelo tem um propósito. Todas que doam suas mechas deixam uma etiqueta nelas, com nomes selecionados aleatoriamente para uma semana gratuita de alimentação, hospedagem e aulas de cerâmica. Uma forma, embora um pouco diferente, de Galip transmitir suas habilidades como ceramista.

Tudo isso não é para sugerir que a Capadócia não esteja mergulhada em atividades turcas mais tradicionais. Na verdade, é um dos melhores lugares do país para adquirir o produto de exportação mais famoso: os tapetes. E poucas pessoas sabem mais sobre eles do que Ruth Lockwood, uma conhecedora de tapetes da Nova Zelândia que veio para a Turquia há mais de 30 anos.

Ela diz que embora a tradição de fazer, vender e pechinchar tapetes continue forte, as coisas mudaram “enormemente” para ela. “Quando eu vim aqui pela primeira vez, era selvagem. Era como o Woodstock dos tapetes”.

Lockwood explica que os comerciantes trazem um grande número de tapetes e tapeçarias para convencer os turistas a abrir mão de seu dinheiro. O segredo, ela diz, é não ficar muito animado quando avistar algo de que gosta.

“É sempre melhor não parecer muito entusiasmado ao comprar”, diz ela. “Porque se você demonstrar que adorou é claro que o preço vai subir.”

Lockwood aprendeu a escolher os melhores tapetes vintage, aqueles que ajudam a contar a história da Capadócia. Em vez de vê-los como de segunda mão, ela diz que são antigos e que “representam uma história e uma tradição às quais não podemos voltar”.

“Cada área, cada região, cada aldeia, cada tribo tem tamanhos, cores e desenhos que pertencem a esse grupo.”

Esse amor pelo específico, pelo ornamentado e pelo lindamente trabalhado é o que resume a Capadócia. É um evento único. Há uma paisagem única, com experiências inusitadas e enriquecedoras.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).

 

Mais Recentes da CNN