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Sons da aurora boreal: se eles existem, por que não há pesquisas científicas sobre isso?

Experts explicam o fenômeno, que já foi ouvido por muitos turistas

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Terry Ward, CNN

Na calada de uma noite invernal, num longínquo trecho canadense da Rodovia do Alasca, enquanto arruma a máquina fotográfica, o fotógrafo Ryan Dickie, de 36 anos, ouve um som estranho: era um chiado vindo do vale MacDonald, longe de tudo e de todos, onde ele havia dirigido para fotografar a aurora boreal.

No entanto, em nada o som se lembra um filme de terror. “Quando você está morando aqui, ouve histórias de que as ‘luzes do norte’ fazem um som e, se assobiar para eles, eles se aproximam do solo. Minha avó me contava essas histórias”, relembra. Mas quando Dickie finalmente ouviu, foi bem diferente das lendas contadas em sua infância. “Foi meio fraco no início e depois foi aumentado. Mas era mais parecido com um pedaço de carne batendo em uma frigideira”, conta Dickie.

Orelhas para o céu
Causadas por erupções solares na superfície do sol, as luzes do norte – também conhecidas como aurora borealis ou uma aurora – o fenômeno pode aparecer no campo magnético da Terra como formações esbranquiçadas ou esverdeadas semelhantes a nuvens, cortinas coloridas ou explosões em redemoinho que irrompem através do céu em verdes, rosa e roxo. Em lugares onde eles são vistos regularmente – como Ártico do Alasca, Ártico do Canadá, norte da Noruega, Lapônia finlandesa e outras partes do norte do planeta – há inúmeros relatos de pessoas ouvindo sons.

Mamie Williams, membro da tribo Tlingit em Hoonah no Alasca, lembra que suas avós sempre lhe disseram para ouvir as ‘luzes do norte’ quando ela era criança. “São nossos ancestrais nos informando: ‘Nós cruzamos, mas ainda estamos aqui com você'”, disse Williams, que atualmente trabalha como intérprete cultural no Alaska Native Voices.

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Williams ouviu pela primeira vez sons da aurora boreal quando ela tinha 14 anos. Uma vez, quando o céu estava vibrante com tons roxos e verdes, ela conta que até ouviu o som de tambores acompanhando as luzes no céu. “Quanto mais brilhantes eles ficam, mais você ouve”, disse Williams.

Embora relatos como os de Dickie e Williams não sejam incomuns entre os povos indígenas e não indígenas que vivem onde as luzes do norte podem ser vistas regularmente, até agora houve pouca pesquisa científica sobre o fenômeno.

“Há anos e anos de relatos anedóticos de pessoas que ouvem um som sibilante ou crepitante, mas se você pensar sobre isso fisicamente, não há nenhuma maneira de realmente obter sons da própria aurora”, disse Donald Hampton, professor associado de pesquisa do Instituto de Geofísica da University of Alaska Fairbanks que estuda física espacial e interações aurorais com a atmosfera superior.

Segundo o professor, isso se dá porque “as luzes do norte ocorrem entre 100 e 160 mil quilômetros acima da superfície da Terra e o som leva vários segundos para viajar tão distante”, disse Hampton. “Depois de um raio cair, leva cinco segundos para o som percorrer um quilômetro e meio”, disse.

Então, se os sons viessem das próprias luzes do norte, levariam de cinco a dez minutos para serem ouvidos no solo. Ainda assim, Hampton não descarta a teoria de que as luzes do norte podem ser responsáveis ​​pelo som que as pessoas afirmam ouvir.

Teoria iluminada
Unto K. Laine ouviu pela primeira vez um som acompanhando a aurora boreal enquanto visitava a remota vila de Saariselkä, no norte da Finlândia em 1990 para um festival de jazz. Acompanhado de quatro amigos, o professor emérito em acústica da Universidade Aalto em Espoo, também na Finlândia, decidiu convidá-los para “ouvir o silêncio da Lapônia”, contou. Naquela noite, três pessoas em seu grupo ouviram sons suaves “como bolhas de sabão estourando”, narrou Laine.

“Nós realmente tivemos que ficar em silêncio por mais de dois minutos e nos concentrar para ouvir”, disse. Foi uma experiência inesquecível, especialmente com todas as histórias de pessoas relatando sons associados com as luzes do norte. “Esse ponto de interrogação estava permanentemente em minha mente”, disse Laine, que passou a maior parte de sua carreira estudando o fenômeno dos sons, mas não achou nada na academia sobre esse fenômeno.

Foi então que conseguiu publicar em 2016 uma hipótese: que é a camada de inversão de temperatura que postula o som que as pessoas associam às luzes do norte. Ou seja, na verdade, vem de descargas elétricas em altitudes mais baixas, em torno de 70 e 90 metros. Essas faíscas, ele teoriza, emitem da aurora quando uma camada de inversão de temperatura – ou uma camada na atmosfera onde o ar se aquece com a altura em vez de esfriar – é produzida.

Para chegar ao resultado, ele passou décadas gravando os sons usando uma configuração de três microfones e uma antena de loop VLF (frequência muito baixa) conectada a um gravador digital de quatro canais. Durante as noites claras, segundo Laine, a camada de investimento acumula cargas espaciais – positivas da alta atmosfera e negativas do solo, portanto a tempestade magnética que causa as luzes aurorais dispara e libera essas descargas na camada de inversão, produzindo sons audíveis.

Hampton disse que a teoria de Laine “não está fora do reino das possibilidades.” “Ele está partindo do pressuposto de que tem a ver com eletricidade”, disse Hampton. “Um forte campo elétrico pode criar mecanismos pelos quais você pode obter vibrações de ar ou pequenas descargas que podem estourar ou estalar.”

Aurora Boreal (foto: Getty Images)

Pesquisa ampliada.
A teoria de Laine ajudou a inspirar um novo projeto de “ciência cidadã”, que será  lançado no meio deste ano perto de Jyväskylä, Finlândia. Voluntários do Observatório Hankasalmi serão incumbidos de gravar sons associados a auroras 24 horas por dia pela primeira vez, usando quatro microfones ao invés de três usados por Laine.

O projeto é financiado em parte pela União Europeia e pelos 200 voluntários locais. A esperança é que os quatro microfones – que podem captar os mesmos sons que o ouvido humano – sejam capazes de identificar de onde vêm os sons, ajudando a provar ou refutar a teoria de Laine, disse Arto Oksanen, presidente do observatório.

“Estamos tentando ouvir o mesmo som com três ou quatro microfones localizados a poucos metros de distância”, disse. “Medindo o tempo de atraso em cada gravação, é possível calcular a posição tridimensional da fonte sonora – ou pelo menos a direção da fonte sonora.”

Combinar esse resultado com o sinal eletromagnético medido com uma antena VLF também dará a distância da fonte de som. Oksanen disse estar “aberto a tudo e a fazer gravações”, mas admitiu ser “um pouco cético” quanto ao fato de as luzes do norte serem responsáveis pela produção dos sons, tendo passado centenas de horas a ver auroras sem ouvir nada.

“Há tantas histórias de pessoas ouvindo os sons que acho improvável que eles estejam inventando, mas não sei se são verdadeiros sons acústicos. Hoje em dia, deve ser muito fácil gravar, já que todo mundo tem um telefone. Então, por que não há gravações?”

Comparado com a configuração portátil que Laine usou para fazer gravações até agora, a configuração do observatório permitirá coletar muito mais dados. Adicionar um microfone também “dá mais confiança e análise de erros”, disse o coordenador. “Muitas universidades e cientistas não acreditam nos sons e nem mesmo estão se candidatando a financiamento para fazer essas gravações. Então, talvez possamos encontrar algo que ninguém encontrou antes”, disse.

Porém, nem todo mundo precisa de uma gravação para se convencer de que os sons existem. “Foi definitivamente o som que eu sempre ouvi que eles faziam”, disse Dickie sobre a noite ao longo da Rodovia do Alasca e o show que ele nunca esquecerá. “Eu tinha certeza de que era o som das luzes do norte.”

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).

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