por: Viagem e Gastronomia Viagem e Gastronomia

Barrados em Tóquio, turistas brasileiros mudam planos e cancelam viagem após bloqueio

Conheça histórias de pessoas que tiveram que mudar a rota e anular passeio após serem impedidas de irem ao evento; Chef brasileiro é quem garantirá a alimentação com "gostinho de casa" ao time do Brasil

Ouvir notícia
(Foto: Getty Images)

De quatro em quatro anos, os apaixonados por esporte contam os dias para o evento mais esperado de todos: os Jogos Olímpicos. E, a cada edição, uma cidade-sede é escolhida: em 2020 era a vez de Tóquio receber atletas e turistas de todos os cantos do mundo para dias repletos de superação, emoção e troca de experiências culturais – o último palco havia sido o Rio de Janeiro, em 2016. A pandemia do novo coronavírus, entretanto, fez os planos serem adiados

A saber: esta não foi a primeira vez que uma Olimpíada não aconteceu por um problema global. Três edições – Berlim-1916; Tóquio-1940 (coincidentemente); e Londres-1944 – foram canceladas por conta das duas guerras mundiais. A guerra que fez “Tokyo-2020” não acontecer no ano certo foi outra: contra um inimigo em comum que ainda não foi vencido mundialmente. Ao contrário das outras, ela não aconteceu no ano em que deveria, mas foi remarcada para 2021. Nesta quarta-feira (14) estamos a exatos 100 dias para o seu início, que acontecerá no dia 23 de julho.

Totalmente diferente das imagens de estádios, quadras, ginásios e pontos turísticos lotados que estamos acostumados a ver, o evento não receberá turistas estrangeiros. A decisão foi anunciada pelo Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos. “A fim de esclarecer a situação para aqueles que compraram ingressos e que moram no exterior e permitir que possam ajustar seus planos de viagem neste momento, as partes do lado japonês concluíram que essas pessoas não poderão entrar no Japão durante os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos”, diz o comunicado oficial.

Veja também:
Tudo sobre a Olimpíada de Tóquio
Hotspots em Tóquio por Daniela Filomeno
Super Nintendo World, o novo parque temático da Universal Studios no Japão
10 dicas incríveis do Japão por Marcelo Fernandes do Kinoshita

Ação de relacionamento com a comunidade local no início de 2020, antes da pandemia (Foto: Rafael Bello)

Serão cerca de 600 mil ingressos comprados em outros países que terão de ser devolvidos. Alguns deles pertencem ao especialista em marketing esportivo Nicolas Mêmolo, que, junto com três amigos, estava com a viagem toda paga para o Japão.

“Somos apaixonados por esporte e em 2019 decidimos que iríamos fazer essa viagem entre amigos. Nos organizamos, pegamos férias no trabalho, guardamos o dinheiro e estávamos preparados para irmos aos Jogos. Estávamos animados também para conhecer um pouco o Japão e todas as experiências que esse evento oferece. Com o adiamento para 2021, decidimos não desistir e adaptamos os planos, tendo a esperança de que o cenário iria mudar. Mas há dois meses, com todas essas notícias desanimadoras, começamos a ficar inseguros e antes mesmo de anunciarem oficialmente que estrangeiros não poderiam participar do evento, nós optamos por não ir”, conta Nicolas.

Autorizada e responsável por vender os ingressos para a Olimpíada, a empresa Match Hospitality resolveu o problema do grupo de amigos, devolvendo de forma rápida o valor dos ingressos que tinham adquirido – em torno de seis modalidades compradas. A única coisa que acabou não sendo ressarcida foi a taxa de serviço, que estava prevista na cláusula do contrato, o que para Nícolas foi justo. “Eles nos ajudaram muito durante todo o processo, sempre ficaram à disposição, mesmo com todas essas incertezas. É um momento atípico para todo mundo”, ressalta.

Após o anúncio da proibição de estrangeiros no evento, a empresa colocou um comunicado oficial em seu site. Nele, ela explica que aguarda ainda informações sobre o procedimento de reembolso dos ingressos adquiridos por residentes no Brasil, mas ressalta que os brasileiros já possuem opções destacadas na política de cancelamento. O comunicado na íntegra pode ser lido clicando neste link.

Se por um lado o reembolso dos ingressos está garantido, a devolução dos valores de passagem e hospedagem depende de cada caso e deve ser negociada diretamente com os responsáveis pelas vendas. Nícolas e seus amigos conseguiram tranquilamente o cancelamento da reserva do hotel. Já a situação do aéreo ainda está pendente.

“Senti que eles também foram pegos de surpresa com a informação e pediram um tempo para resolver. Neste período, acabaram cancelando uma das minhas “pernas” da viagem. Estou aguardando, mas acredito que não teremos problemas também”, ressalta.

Lua de mel ‘olímpica’ cancelada

Primeira Olimpíada do casal foi em Londres, em 2012 (Foto: arquivo pessoal)

A advogada Mayra Campos e seu noivo Diego Avancine são apaixonados por esporte. Após a experiência inesquecível de assistirem aos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, traçaram uma meta: tentariam ir a todas Olimpíadas que viriam pela frente. Rio-2016 chegou e a promessa foi cumprida, lá estava o casal mais uma vez torcendo e vibrando pelos atletas olímpicos. Juntos desde 2009, eles marcaram o casamento para o dia 11 de julho de 2020, mas com segundas intenções: passar a lua de mel em Tóquio, justamente para continuar a tradição de assistir mais uma edição do evento. E é assim com a maioria das viagens que fazem: tentam conciliar a paixão esportiva com os próximos destinos.

“Decidimos que essa seria nossa grande viagem de quatro em quatro anos. Compramos todos os ingressos que queríamos e estávamos animados. Até que em janeiro, recebemos a informação de um médico amigo da família que uma até então epidemia estava preocupante na Ásia. Ele falou pra gente não comprar passagem e nem hospedagem. Foi a nossa sorte, acabamos ficando só com a pendência do ingresso, que automaticamente foi transferido para o ano seguinte. Até que mês passado veio a notícia da proibição de estrangeiros. Já não estávamos mais com muita esperança e pedimos o reembolso para empresa”, conta Mayra.

“A programação era assistir a seis modalidades em média e tirar uns dias para conhecer Tóquio. Antes passaríamos pela Coreia. A empolgação com a viagem, de poder assistir mais uma Olimpíada, era até maior do que com o casamento”, brinca.

Se Tóquio acabou não dando certo, não tem problema. O casal pretende ficar junto por muitos e muitos anos e já está programando as próximas viagens. E é claro, com muito esporte no meio: Paris 2024 e Los Angeles 2028 que os aguardem.

Casal colocou como meta ir a todas as Olimpíadas. Na foto, estão nos jogos do Rio, em 2016 (Foto: arquivo pessoal)

Grupo formado para viagens esportivas

Jaime foi a Pequim em 2008 e aproveitou para visitar um dos pontos turísticos mais famosos do país (Foto: arquivo pessoal)

Quinze pessoas apaixonadas por esporte se conheceram por amigos em comum e formaram o grupo ‘Olímpicos’. O assunto diário não podia ser outro. Seja uma Copa do Mundo ou uma Olimpíada, os integrantes sempre estão planejando uma viagem para viver grandes emoções. Jaime Ferreira, engenheiro de formação que hoje, por sua paixão, atua na área de gestão e negócios do esporte, é um dos integrantes. O turismo esportivo faz parte de sua vida e suas viagens são sempre planejadas com esse objetivo, assim como a maioria do grupo.

Sua primeira olimpíada foi em Pequim, em 2008. A seguinte, em Londres, também ficou na memória. “São momentos inesquecíveis que passamos e aproveitamos para conhecer lugares que nunca conheceríamos se não fossem os Jogos e suas particularidades. A preparação para uma viagem dessas sempre é muito legal. É preciso ter atenção com logística, estudar cada local que será visitado, escolher com calma os ingressos, entender onde cada modalidade acontecerá. É um planejamento muito gostoso. Você acaba conhecendo pessoas do mundo inteiro, vivendo experiências únicas com pessoas que estão lá com o mesmo objetivo”, ressalta.

“Uma das coisas mais legais é essa: conhecer cada região. Defendi na minha tese de mestrado justamente essa questão de como desenvolver o turismo por meio do esporte. É uma fonte de renda que gera bilhões de dólares para os países. Hotéis, companhias aéreas, produtos licenciados, pontos turísticos: tudo acaba desenvolvendo uma região e girando a economia em cima disso”, reforça.

O grupo que tem integrantes que foram para Sidney (2000), Atenas (2004), Pequim (2008), Londres (2012), Rio (2016) estava também preparado para Tóquio. A felicidade de escolher e comprar cada ingresso virou frustração. Uma das integrantes, que trabalhava em uma empresa japonesa, visitava o país e tirava fotos para o grupo, mostrando a evolução das obras, descrevendo qual modalidade estaria em qual local.

A proibição de brasileiros entrará na lista de histórias que o animado grupo carrega, mas a garantia é certa: Paris, em 2024, ficará pequena para a tamanha vontade acumulada de uma viagem olímpica dos “olímpicos”.

Delegação brasileira e cuidados especiais
Se o adiamento dos Jogos Olímpicos já causou um misto de sentimentos de ansiedade, apreensão e tristeza para os turistas, imagina para as grandes estrelas do evento? Atletas, comissões, profissionais de todas as áreas referentes ao esporte olímpico profissional, que se preparam quatro, oito, doze anos esperando o grande momento, tiveram de conviver com as incertezas em meio à  intensa preparação.

A rotina não podia parar e todos tinham essa ciência e preocupação. Desde o início, o Comitê Olímpico do Brasil tomou uma série de iniciativas com objetivo de dar todo o apoio necessário ao Time Brasil – nome oficial da delegação brasileira.

“Trabalhamos desde o início na busca por alternativas que amenizem os danos causados. Desenvolvemos 15 medidas para apoio ao sistema olímpico nacional, propiciando a melhor preparação e condições de classificação para os nossos atletas. A Missão Europa, que levou atletas brasileiros para treinarem em Portugal, e a reabertura do CT Time Brasil, com rigorosos protocolos, em meados de 2020, foram ações que deram a oportunidade a mais de 200 atletas de 28 modalidades de retomarem seus treinamentos e rotinas de forma segura.”, ressalta Paulo Wanderley, presidente do COB. “Nossa prioridade sempre foi e sempre será a saúde e segurança deles”, reforça.

E no Japão? Como será?
A curiosidade que fica é: como os jogos acontecerão em segurança? Rígidos protocolos de segurança estão sendo desenvolvidos. Por parte do Comitê Olímpico do Brasil, grandes ações em prol da saúde dos atletas brasileiros estão sendo feitas. Os parentes deles, que antes eram presença garantida, terão que assistir e torcer este ano pela televisão.

Um dos diferenciais do planejamento do COB para Tóquio serão as bases de apoio. Ao todo, nove locais serão utilizados, possibilitando uma série de serviços de performance e saúde para os atletas. As bases serão montadas em Hamamatsu, Saitama, Sagamihara, Ota, Chiba, Enoshima, Miyagase, Koto e Chuo.
Todos os locais serão adaptados de forma a atender aos rígidos protocolos sanitários para prevenir o contágio do vírus.

Todos os integrantes da delegação brasileira farão testes RT-PCR antes do embarque e teste para antígeno na data da viagem. Além disso, uma rigorosa bateria de exames clínicos será exigida a todos os membros do Time Brasil e aqueles identificados como grupo de risco não deverão embarcar para o Japão. A maioria dos atletas viajará via Toronto. No período de aclimatação, a maioria ficará nas bases de apoio antes de seguirem para a Vila Olímpica.

“As nove bases de apoio do Time Brasil farão de Tóquio 2020 a operação mais complexa da história olímpica brasileira. Além de rígidos protocolos de saúde e segurança que serão adotados para prevenção de casos da Covid-19, por se tratar de uma competição do outro lado do mundo, nossos outros pontos de atenção serão o clima quente de Tóquio nessa época do ano e o fuso horário”, ressalta Rogério Sampaio, ex-judoca e diretor geral do Comitê.

“Todas as nossas decisões precisam passar pelo aval médico e os protocolos terão que ser seguidos por todos os participantes da Missão. Diante de tantas incertezas, precisamos do comprometimento, responsabilidade, flexibilidade e serenidade para criarmos um ambiente seguro aos integrantes da delegação. Serão Jogos diferentes, teremos que nos adaptar, mas estamos muito empenhados em encontrar soluções”, completa.

Chef brasileiro garantirá alimentação com gostinho de casa
Além de toda estrutura para treinamento e recuperação dos atletas, o COB dará uma atenção especial à questão da alimentação. Eles encaram a comida como um dos grandes desafios que encontrarão no Japão. Por isso, em todas as nove bases do Time Brasil terá culinária brasileira para todos se sentirem em casa. Allan Salles, chef de cozinha brasileiro que vive no Japão, será o responsável pela coordenação do trabalho e comandará uma equipe de 18 cozinheiros, entre eles japoneses, que passaram por um processo de treinamento para conhecer o tempero brasileiro. Serão servidas quase 35 mil refeições para os cerca de 400 integrantes da delegação nacional.

Chef brasileiro com Seleção Brasileira de handebol em um dos testes para os Jogos Olímpicos. Serão cerca de 35 mil refeições servidas (Foto: Reprodução Instagram)

PARIS 2024′
Já que a Olimpíada de Tóquio não é mais uma realidade para os turistas brasileiros e estrangeiros, que tal sonhar com os próximos jogos? Paris será a cidade daqui a três anos. Não custa nada ter esperança que dias melhores virão e começar a planejar essa viagem. Enquanto isso não acontece, as participações dos brasileiros no Japão terão de ser vistas de longe, do dia 24 de julho a 8 de agosto. Já os Jogos Paralímpicos terão início no dia 24 de agosto e terminarão dia 5 de setembro.

Mais Recentes da CNN