As ilhas na Itália que não foram atingidas pela Covid-19

Conheça os cinco destinos italianos isolados e paradisíacos onde o novo coronavírus não chegou

Por Silvia Marchetti, CNN

Existem poucos lugares no mundo que conseguiram escapar da pandemia de Covid-19; até a Antártida relatou casos. Mas, embora o vírus tenha se espalhado por toda parte, alguns poucos locais remotos e sortudos permanecem livres do coronavírus mesmo após um ano que a doença acometeu grande parte do mundo.

A Itália, que está em estado de emergência até 30 de abril, foi devastada pelo vírus no ano passado e atualmente tem um dos maiores índices de mortalidade da Europa. O país agora está dividido em zonas, dependendo dos níveis de infecção. No entanto, um punhado de suas ilhas mais isoladas estão entre os pontos que mantiveram a Covid-19 afastada, ao menos por enquanto.

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Um provérbio italiano popular entre os marinheiros declara que “o mar pode ser traiçoeiro, mas também pode ser seu maior aliado”. Isso parece particularmente adequado agora, já que a água atua como uma barreira natural, protegendo aqueles que vivem em ilhas.

Mas embora morar em um local isolado tem provado ser uma benção, os temores relacionados ao coronavírus ainda atingem muitas desses moradores. Então, como é ver os desdobramentos da pandemia além do horizonte, enquanto você vive em ilhas isoladas da Itália?

Os moradores desses locais contam à CNN Travel como a situação afetou suas vidas e se eles conseguiram manter a calma a serenidade quanto os destinos que habitam.

Linosa

Casas coloridas típicas de Linosa, na Itália

Posicionado no meio do caminho entre a Sicília e a Tunísia, no Mediterrâneo, este minúsculo atol vulcânico está fora do radar da maioria dos viajantes. Para chegar, é preciso voar para o aeroporto da ilha irmã, Lampedusa, e depois pegar um barco, ou ainda uma balsa no Porto Empedocle, na Sicília continental, e embarcar em uma jornada marítima de 12 horas. Mas esta viagem definitivamente vale o esforço.

Embora alguns casos tenham sido relatados em Lampedusa, não houve casos confirmados de coronavírus em Linosa. Da praia de La Pozzolana, que parece um canto de Marte com sua areia preta e camadas amarelo-enxofre e vermelho, até a extinta cratera do Monte Vulcano, a ilha está repleta de paisagens majestosa e é circundada por uma estrada principal, cheia de frutas de cactos (uma espécie de pitaia) e paredes baixas de tijolos adornadas com alcaparras.

Fabio Tuccio, um dos 200 residentes que vivem lá, diz que as coisas permaneceram praticamente as mesmas desde o início da pandemia. “Um cenário como o lockdown é normal aqui nesta época do ano”, disse Tuccio à CNN. “Não tem muito o que fazer. Está tudo fechado menos o supermercado, dois bares, farmácia, correio. Entrega de pizzas somente aos sábados. É inverno e as pessoas passam o tempo em casa, cuidando de seus terrenos no campo ou pescando em seus pequenos barcos diariamente para comer com suas famílias. As coisas não mudaram realmente”.

Enquanto os habitantes locais usam máscaras para se encontrarem com a família e amigos no bar em frente ao porto tranquilo ou fora das residências rosa, roxo e verdes da ilha, enfeitadas com flores de primaveras de cores vivas, a ausência de uma praça principal evita a aglomeração.

Não há dúvidas de que a distância de Linosa ajudou a manter a ilha segura contra a Covid-19 até agora, mas seus residentes continuam temerosos de que o vírus possa encontrar seu caminho para este paraíso seguro.

“Os moradores suspeitam muito das pessoas de fora e são cautelosos quanto à sua segurança”, disse o prefeito Totò Martello à CNN Travel. “Como Linosa teve sucesso em se manter livre da Covid, cada vez que uma balsa chega, eles se reúnem no porto para examinar quem desembarca e ver se há algum rosto desconhecido entre as pessoas que poderia trazer o vírus”.

Todos os visitantes ou não-residentes devem fazer um teste de Covid-19 no porto da balsa, antes de colocarem os pés na ilha. “O mar protege do risco de contágio e as pessoas se sentem seguras, desde que estejam de fato seguras, sem casos positivos por perto. O medo nos mantém alertas”, acrescenta Tuccio.

Tremiti

San Nicola di Tremiti

Apesar do arquipélago de Tremiti, na costa da Puglia, ficar cheio durante o verão, quando mergulhadores e banhistas se juntam, apenas 200 pessoas vivem lá no inverno. Com águas de cor verde-esmeralda, pedras de granito e penhascos irregulares, é fácil entender porquê as cinco ilhas desse arquipélago são conhecidas como “as Pérolas do Adriático”. Os residentes de Tremiti estão espalhados nas duas ilhas principais de San Nicola, com seu monastério, e San Domino. As outras três ilhas de Tremiti são desabitadas.

De acordo com a mitologia grega, Diomedes, um pretendente de Helena de Tróia, criou o arquipélago depois de jogar um apanhado de pedras da cidade antiga para dentro do oceano.

No porto Termoli, que fica a uma hora de balsa, os controles de entrada são rigorosos. A temperatura corporal de todos os viajantes é registrada, e seus documentos de identidade são examinados minuciosamente. As pessoas que moram no arquipélago dependem do turismo, e recuperar essa fonte de renda perdida, juntamente com a manutenção da saúde, tem sido a principal preocupação delas nos últimos meses.

Além de pescar e cultivar vegetais, os habitantes buscam ficar em forma para o próximo verão, que eles esperam ser melhor do que o último. E isso não quer dizer utilizar os músculos para subir em um trajeto íngreme da ilha apelidado de “Escalada da Morte”. Aqueles que tem um negócio ou uma atividade turística estão atualmente arrumando suas lojas, hotéis e restaurantes, bem como os barcos e apartamentos que costumeiramente são alugados pelos turistas.

O inverno é o momento ideal para fazer reparos, bem como revitalizar as poucas estradas. “Nossa loja de mergulho está sempre aberta. Para a primavera, estamos organizando viagens de barco guiadas e esperamos ter novamente turistas quando esse pesadelo passar”, diz Samantha Dionisi, do centro de mergulho Blu Tremiti.

No seu tempo livre, o prefeito Antonio Fentini aproveita para cultivar alface, repolho e o tradicional nabo verde de Puglia. “Não somos sortudos, nós temos apenas tomado cuidado em adotar corretamente regras anti-Covid e estamos acompanhando o que vem acontecendo no mundo com muita atenção e esperança”, diz Fentini. “Estamos ansiosos para recomeçar, voltar para o ‘normal’ pré-pandemia e preparar Tremiti para o próximo verão. Mal podemos esperar para dar as boas-vindas aos turistas”.

Vulcano

Vulcano

Com praias de águas translúcidas e belíssima paisagem, essas agradáveis ilhas que formam parte do maravilhoso arquipélago da Sicília, normalmente não tem problemas em atrair turistas, mas a pandemia foi uma dura pancada.

Quando a Itália reabriu brevemente para viajantes em junho, a segunda onda que atravessou o continente europeu em outubro afastou a maioria dos turistas e a bela ilha Eólia de Vulcano ficou praticamente vazia. Desde então, os moradores reclamam que nenhum turista foi visitar a fascinante ilha, conhecida como “a Boca do Inferno”.

Vulcano registrou um caso de Covid-19 no ano passado, mas permaneceu livre do vírus desde então. A Itália tem estendido a proibição de viagens entre as regiões, então é provável que o local continue quieto no futuro próximo.

“Tem sido extremamente silencioso ultimamente. O turismo é nossa vida; a maioria de nós trabalha apenas durante os meses de verão, mas nós não podemos reclamar”, diz Marco Spisso, que co-gerencia os populares banhos de lama em Vulcano. “O inverno é geralmente quieto, então nesse ponto, a pandemia não revolucionou nossas vidas”.

De acordo com a lenda, o deus grego do fogo Hefesto despejou sobre Vulcano a raiva da traição de sua mulher Afrodite, algo que parece pertinente para uma ilha cheia de banhos de lama, termas medicinais e fumarolas subaquáticas. É um lugar onde os gases sulfúricos vazam das paredes e pavimentos de pedras pretas, vermelhas e amarelas por onde os turistas geralmente se juntam para esperar pela balsa. Aqui, nuvens de calor podem ser vistas se elevando das rochas.

As, aproximadamente, 300 pessoas que vivem em Vulcano durante todo o ano continuam na mesma. Elas passam o tempo pescando, caminhando, arrumando suas casas, se encontrando para conversar (usando máscaras) no bar local ou relaxando em casa. Lojas fechadas não são algo incomum nessa época do ano, diz Spisso, que frequentemente faz mergulho na praia vulcânica em frente à sua casa.

A temperatura em Vulcano é quente durante todo o ano e a constante atividade vulcânica ajuda a deixar a água prazerosamente morna. “Nós vivemos uma vida pacífica, relativamente serena, e nos sentimos seguros em comparação a muitas pessoas vivendo em outros locais”, acrescenta Spisso. “Existem checagens frequentes de Covid-19 no porto de Milazzo de onde partem as balsas”.

Mesmo com a ilha sendo próxima a Sicília, que foi atingida de forma dura pela pandemia, ela continua livre do vírus. Marco Giorgianni, que é prefeito das Ilhas Eólias, com a exceção da ilha de Salina, reforçou as regras contra o coronavírus em outubro passado, limitando viagens rápidas entre as sete ilhas, e essa decisão aparentemente tem sido um sucesso.

Filicudi

Terraço do La Canna Hotel em Filicudi

A ilha de Filicudi, uma das mais selvagens e distantes entre as ilhas Eólias, também se saiu bem em manter a Covid-19 afastada. As balsas costumam ter dificuldade em atracar devido ao mar agitado. Embora isso fosse uma frustração para os moradores locais no passado, a falta de conexão agora é vista como uma coisa boa.

Os moradores locais se sentem sortudos por viverem em tal reclusão, longe do caos e da confusão causados pelo coronavírus. “É um momento ruim para a humanidade, mas estou feliz por viver aqui, é como estar em outro mundo”, diz Peppino Taranto, morador de Filicudi. “Somos privilegiados. O distanciamento social é garantido. Graças ao nosso clima quente de inverno, minha esposa e eu jantamos com frequência ao ar livre, sob o céu estrelado”.

Os nativos podem passar horas relaxantes nos típicos terraços panorâmicos de estilo eólio, feitos de colunas cobertas por primaveras e bancos feitos de cerâmica em mosaico, com vistas deslumbrantes do mar.

Filicudi tem apenas uma vila de pescadores, Pecorini a Mare, conectada ao porto por uma estrada de terra. As trilhas estreitas e íngremes, e caminhos de pedra da ilha levam a chalés iluminados, e seus penhascos pretos, verdes e vermelhos contêm labirintos de grutas.

Pietro Anastasi, proprietário do hotel e restaurante panorâmico La Canna, mora em Filicudi há décadas. O carteiro aposentado de 85 anos mora sozinho em La Canna, que agora está fechado. “Todos os dias, cuido dos meus pequenos tomates e das saborosas ‘perette’, uma minúscula variedade de peras que só crescem aqui”, diz Anastasi. “Quando o mar está calmo, desço até a praia e pesco a minha pescaria do dia, peixinhos gostosos que frito no almoço. Estou feliz. Este é o meu mundo. Sempre tenho pequenas coisas para fazer e meus dias são cheios; gosto de ficar sozinho”.

A família de Anastasi diz a ele para evitar assistir as notícias, e ele gosta de ter a liberdade de se movimentar em seu grande jardim de figueiras e cactos com frutas sem ter que usar uma máscara, embora ele cubra o rosto para ir à missa.

Alicudi

Alicudi

Alicudi, a ilha irmã de Filicudi, é a mais isolada das ilhas Eólias, que instiga uma vibe primitiva. Nesta pequena ilha, a Covid-19 é vista como uma ameaça muito, muito distante. Durante o verão, Taranto administra na ilha um hotel e restaurante chamado Ericusa. Mas como a maioria dos estabelecimentos locais, atualmente está fechado.

O silêncio domina em Alicudi. Esqueça carros, motocicletas e até bicicletas. Não há estradas, apenas caminhos estreitos de terra que se estendem por 25 quilômetros. Mais de 10 mil degraus de pedra conectam as habitações desta aldeia pitoresca.

Os burros são o único meio de transporte na ilha. Alicudi não tem caixas eletrônicos, boutiques, clubes ou vendedores de cigarros. Não há iluminação pública, apenas as estrelas como lanternas naturais à noite. A praia de seixos da ilha é marcada por arcos naturais e casas coloridas bizarras que são construídas dentro de rochas em forma de cogumelo.

Os residentes mais velhos de Alicudi gostam de contar histórias assustadoras de bruxas voadoras e burros fantasmas.

Aldo Di Nora, que se mudou do norte da Itália para Alicudi anos atrás e agora dirige o resort Casa Ibiscus, está ciente de como é sortudo por viver em um lugar tão isolado e protegido. “O distanciamento social não é um problema. O único momento em que pequenas multidões podem se formar é quando as pessoas se encontram no porto de Alicudi para pegar as balsas”, diz Di Nora. “Eu acompanho as notícias dos trágicos acontecimentos que acontecem na Itália e em todo o mundo e sou grato por viver em um lugar tão maravilhoso, rodeado de paz e risco zero de contágio”.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).