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Conheça a história de casais que juntos comandam as cozinhas e os balcões mais requisitados de SP

Misturar amor e trabalho dá certo? Casais importantes no cenário da gastronomia paulistana contam como administram e lidam com essa mistura e afirmam que essa harmonização pode dar certo

Cristiana Negreiros e Spencer Amereno Jr. estão juntos no comando do balcão do charmosos Carrasco
Cristiana Negreiros e Spencer Amereno Jr. estão juntos no comando do balcão do charmosos Carrasco Divulgação

Fernanda Meneguetticolaboração para o Viagem & Gastronomia

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Não é mito e nem deveria ser tabu: nas séries hospitalares, médicos se casam com médicos. Nas que envolvem a mídia, seja em agências de publicidade ou em redações jornalísticas, sempre tem uma pegaçãozinha.

Óbvio, se invadirmos os bastidores de reality shows culinários algum romance há de ter. Afinal, nada mais natural que profissões que exijam um convívio intensivo – senão exagerado – desdobrem-se em paixões, certo?

Pensando nelas, para este Dia dos Namorados, ouvimos alguns dos casais mais emblemáticos da atual cena gastronômica paulistana. Duplas capazes de dividir as bocas do fogão, as coqueteleiras e até o saca-rolhas na mais pura generosidade e que, exclusivamente para CNN Viagem & Gastronomia, descortinam um pouco dessa rotina íntima.

Novela Mexicana

Luana Sabino e Eduardo Ortiz estão à frente do disputado Metzi / Estudio Cumaru

Os chefs Enrique Olvera e Daniela Soto-Innes, do celebradíssimo restaurante Cosme, em Nova York, nunca foram um casal, mas são responsáveis pela formação de um: o da paulistana Luana Sabino e do mexicano de Oaxaca Eduardo Ortiz.

“A gente começou a trabalhar juntos em 2017 e viramos amigos, mas as pessoas começaram a reparar, a Daniela começou a fazer brincadeiras e acabou que a gente saiu”, conta Luana. A partir dali, o casal permaneceu mais alguns nos Estados Unidos, outros rodando o México até desembarcarem no Brasil, no finzinho de 2019.

Embora tenham encontrado um imóvel em Pinheiros sem demora, só abriram o Metzi nos fim de 2020. Desde então, a casa contemporânea, inspirada nas tradições mexicanas, sem ignorar os insumos tupiniquins, vai de vento em popa – e o casal também, obrigado.

“Como a gente se conheceu trabalhando, a gente separa muito bem as coisas. Dentro do Metzi nem parece que a gente é um casal e quando chega em casa, evita ao máximo falar de trabalho”, pontua Luana. “Em casa somos um casal, no restaurante somos dois sócios, dois líderes que dividem a cozinha. Isso é o que faz com que estejamos juntos até hoje”, acredita Eduardo.

A divisão é tão clara que, mesmo no apartamento onde vivem, a duas quadras do trabalho, quando veem uma série sobre comida ou estão em processo de mudança de cardápio, guardam as conversas – e os bate-bocas – para a mesa do escritório.

Entre Taças & Beijos

Cassia Campos e Daniela Bravin viraram o casal referência quando o assunto é vinho / Divulgação

Em 2014, Cassia Campos era sommeilère do Grupo Chez e Daniela Bravin de seu próprio restaurante, o Bravin. No ano seguinte, o estabelecimento encerrou as atividades e os habitués órfãos passaram a implorar as dicas de vinhos da expert. Mais do que a sugestão de rótulos, eles queriam as sacadas, ou seja, a curadoria da “titia”.

“Da saudade que sentiam da Dani veio a ideia das caixas da titia, sempre com seis garrafas, e foi também a semente do nosso clube de vinhos”, explica Cassia. Na sequência, surgiu a necessidade de aparições em público, uma vez que à parte o tutorial das experts, os clientes queriam mais contato físico.

Com o projeto “Sommelier Itinerante”, as meninas levavam sua banheira cheia de garrafas para vender taças em espaços como o Mercado de Pinheiros, o Lobozó e o Conceição Discos entre vários restaurantes e cantinhos com boa comida e boas vibes.

“A gente já tinha essa vivência do vinho e ele nunca foi um peso, sempre foi um tema muito recorrente no nosso dia a dia”, frisa Dani. “A ponto da gente sentar para almoçar ou para jantar e ter a ideia de um projeto que acaba se desenrolando numa coisa grande, como foi com o Sede 261 e com o Huevos de Oro”, comenta Cassia.

Se por um lado o primeiro, o wine bar, demanda um esforço criativo incessante, visto que é preciso selecionar de 30 a 40 rótulos semanais a serem servidos em taças, o segundo, o bar espanhol, é mais complexo porque além dos vinhos, envolve cozinha, salão e administração. Somando-os à trabalheira do clube de assinaturas e de eventinhos aqui e acolá, pode-se dizer que a harmonização é para lá de bem-sucedida.

Por sorte ainda, de bar a bar, são apenas 180 metros e a casa delas e de cinco pets está literalmente no meio do caminho: “Levar o trabalho para casa não é uma coisa estressante. A gente vive o vinho, né? É muito difícil separar”, confessa Dani.

Cassia emenda: “Não vamos para casa pensando em desligar tudo. A gente chega, abre um vinho e continua conversando, de uma maneira mais leve”. E define: “Às vezes a gente sai de férias para não pensar em trabalho. Aí entra num restaurante, pega uma carta e já está ali falando sobre seleção, sobre de onde é tal vinho, sabe assim? Então no fim tudo se encaixa e a gente está muito feliz com a maneira despretensiosa com que leva tudo. É uma parceria muito frutífera”.

Pasta & Magia

Joseph Lim e Bia Freitas se conheceram em NY e agora estão no aclamado Pasta Shihoma / Acervo pessoal

Em 2017, o floridense filho de coreanos e ex-piscólogo, Joseph Lim, recebeu a ex-publicitária de Araraquara, Beatriz Freitas, em sua praça no Flora Bar, o aclamado restaurante de frutos do mar do chef Ignacio Mattos, em Nova York.

Depois do treinamento, ele ficou com o serviço da noite e ela o do dia: “A cada manhã, vinha um bilhetinho do Joey com a lista de produção, até que um dia a gente saiu para ir ao cinema”. “Assistir Star Wars!”, emenda ele.

“Foi super legal, paramos numa loja de filhotinhos e ficamos horas brincando com eles, fomos comer, foi um super date, mas a gente não ficou”, revela Bia. “Mas a gente ficou uma semana depois, na minha festa de aniversário”, entrega Joey.

Como ela morava bem pertinho do trabalho e ele muito longe, até para ganharem tempo, naturalmente passaram a viver juntos: “Desde o começo a gente se acostumou a ficar muitas horas juntos no mesmo lugar, fossem 16 horas na cozinha ou todos os minutos em casa”.

Hoje no festejadíssimo Pasta Shihoma, na Vila Madalena, passaram por um momento de adaptação: “Lá sou chef de cozinha e ele é sub-chef. A gente teve que entender como era essa dinâmica nova e separar muito bem a função de cada um. Para mim, o Joey é o melhor cozinheiro que já conheci e sigo aprendendo com ele todos os dias”, conta ela.

No apartamento em Santa Cecília, a paixão por comida, por restauração e o “workaholiquismo” dominam, sim, as conversas, porém, há uma regra intocável: quando chegam muito cansados ou estressados, o assunto trabalho é proibido. Assim, a carruagem segue o seu andar.

Coquetelaria Carinhosa

Cristiana Negreiros e Spencer Amereno Jr. assumem que se divertem preparando coquetéis um para o outro em casa / Divulgação

Por trás do balcão de um dos bares mais charmosos e românticos da pauliceia, o do Carrasco, estão Cristiana Negreiros e Spencer Amereno Jr. Ali, drinks como o Waffle Cocktail, à base de bourbon, calda de bordo e bitters aromáticos de chocolate, foram criados a quatro mãos: “Ele criou o conceito, equilibramos o álcool e os sabores juntos, ele sugeriu o copo, eu incluí a guarnição de um mini stroopwafel, o waffle holandês”, explica ela.

Um dos mais premiados bartenders do país, Spencer conheceu a companheira em um evento profissional no Rio de Janeiro, em junho de 2021. Na época, ela trabalhava no Maguje, no Jardim Botânico, contudo, o encontro foi tão, mas tão intenso que, no mesmo mês, Cris cruzou a ponte aérea e se instalou com ele no bairro da Liberdade.

“A gente aproveita a vizinhança para pesquisar ingredientes. É um bairro que me inspira muito. Saio para caminhar e volto com uma ideia de apresentação de coquetel, um conceito novo e, em casa, a gente fala sobre isso”, conta o mixologista.

Além de trocarem ideias sobre a labuta, no aconchego do lar, eles se mimam com seus próprios preparos: “Gostamos de clássicos, então faço Gimlet pra ele e ele faz Manhattan pra mim, pois gosto de drinques mais alcoólicos”.

Muitos desses bem-executados aperitivos embalam sessões de reality shows. “Na verdade qualquer que tenha a ver com gastronomia ou coquetelaria, nós gostamos de assistir”, complementa Cris.

Monotemáticos Amorosos

Laura Oliveira e Alexandre Vorpagel comandam o Bottega 21/ Divulgação

Há menos de um ano, os chefs Laura Oliveira e Alexandre Vorpagel, o Alemão, comandam coladinhos o Bottega 21, bar disputado de ascendência italiana na Rua dos Pinheiros. O entrosamento deles, contudo, vem de 2016.

“Quando entrei na área da gastronomia, meu tio disse que ia me apresentar um amigo chef para conseguir um estágio pra mim. Ficamos juntos no mesmo dia e o estágio nunca saiu! No mês seguinte já estávamos morando juntos”, confessa Laurinha. Alemão, na época, chefiava a Adega Santiago e ela, sem o tal do estágio, foi parar no Grupo Fasano.

“Nós nos completamos muito profissionalmente também, mas muitas vezes brigamos, com direito a arranca rabo no meio da cozinha mesmo. Se dá vontade de estrangular o outro, nos afastamos, respiramos fundo e depois voltamos a trabalhar”, ri Laurinha.

Tirando a montagem e renovação de menus, sempre feitas a quatro mãos, para evitar um possível estrangulamento, ela assume a gestão, a capacitação da equipe e o funcionamento da cozinha, enquanto Alemão fica na trincheira do dia a dia, mantendo o contato direto com fornecedores e o padrão das receitas.

“Em casa falamos do trabalho o tempo inteiro, conversamos sobre o futuro dos nossos projetos, o que fazer para melhorar, criamos receitas… O duro é que os dois são workaholics e gostamos muito da pauleira do dia a dia. Não é o duro, é o divertido na verdade!”, diz ele.


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