Como a cerveja se tornou popular no Brasil

A chegada ao nosso país, o nascimento das grandes marcas, o surgimento das cervejas artesanais, o brinde típico na mesa de bar que sela o final de expediente. Todas essas histórias são contadas abaixo. Um brinde!

(Foto: Getty Images)

Colaborou: Daniela Caravaggi

“Esse costume foi se intensificando ao longo dos anos. Os brasileiros se expressam de uma forma muito intensa, utilizando as mãos, contando suas histórias e compartilhando momentos de forma expansiva. O consumo de cerveja em bares, junto com petiscos que não necessitam de talheres para serem consumidos, facilitou essa liberdade na forma de se expressar. O clima tropical e a ideia de consumir as cervejas bem mais frias – vinda depois da Segunda Guerra Mundial – também contribuíram para que esse hábito estivesse cada vez mais presente no país”, analisa Edu Passarelli, professor do Instituto da Cerveja.

A chegada da cerveja ao Brasil
De acordo com Ronaldo Morado, cervejólogo e autor do livro “Larousse da Cerveja”, a paixão nacional pela bebida levou alguns anos para se popularizar. No século XVII, uma expedição holandesa desembarcou no Nordeste do Brasil pela Companhia das Índias Ocidentais. Sua comitiva trazia cientistas e artistas, que abriram vários empreendimentos na região de Pernambuco, entre eles a primeira cervejaria do Brasil. Em 1654, quando os holandeses deixaram o país, a cerveja foi com eles. Nada ficou aqui e todos os equipamentos e receitas foram levados pela expedição, o que apagou por um longo período a bebida da memória dos brasileiros.

Ainda segundo os registros da época, com a fuga da Família Real para o Brasil e a abertura dos portos da colônia em 1808, as atividades cervejeiras foram retomadas por aqui.

“Elas, entretanto, eram produzidas de forma artesanal, pelas mãos de imigrantes alemães e holandeses, que faziam essa produção caseira para consumo próprio. Não havia atividade industrial. Os ingredientes utilizados nessa produção também eram outros. O lúpulo e a cevada, que teriam de ser importados, não estavam na composição à época. O que se sabe é que insumos como arroz, milho, trigo eram utilizados”, explica Passarelli.

As grandes marcas e diferentes opções
Em 1850, pequenas cervejarias começaram suas atividades. A primeira registrada foi a Bohemia, em 1853. O ano de 1888, entretanto, é considerado um marco para esse mercado no país. Foi quando as duas maiores cervejarias surgiram quase simultaneamente no Brasil. Enquanto no Rio de Janeiro foi criada a Cia Cervejaria Brahma, em São Paulo nascia a Antarctica – anos depois as duas se fundiriam para criar a Ambev, maior produtora do país, que só cresceu de lá pra cá. Hoje, a empresa engloba diversas marcas da bebida, sendo uma das grandes referências do segmento.

Se você for a qualquer mercado hoje, encontrará inúmeras opções da bebida. São diferentes rótulos, marcas, estilos que fazem brilhar os olhos daqueles que amam uma cerveja. Mas a dúvida que fica é: qual é a melhor? O que é uma boa cerveja? Qual a diferença entre uma cerveja artesanal e uma comercial/industrial?

A sommelière de cerveja Bia Amorim, que atua há mais de dez anos no mercado, faz sua análise:

Bia Amorim trabalha no mercado cervejeiro há mais de 10 anos (Foto: arquivo pessoal)

“A conotação do que é bom ou é ruim é muito ampla. É bom para quem? Em qual ocasião? No Brasil, não temos uma descrição oficial do que é uma cerveja artesanal. É muito delicado a gente colocar as cervejas comerciais no papel de vilãs. O nosso imaginário afetivo, de tomar uma cerveja trincando de gelada, vem das festas, da casa dos avós, de comemorações, e essas cervejas são daquelas marcas conhecidas. Isso não quer dizer que é ruim ou bom, é só uma questão de objetivo e do que a pessoa busca ao tomar aquela bebida”, ressalta.

Mas falando especificamente sobre qualidade: segundo a sommelière, os pontos principais que devem ser levados em conta são as matérias primas e a técnica utilizadas na produção da cerveja. “O mercado, hoje, é desigual. Faltam melhores políticas para as cervejarias menores, e as grandes acabam surfando melhor algumas ondas. No fundo, é tão complexo como qualquer outro mercado. Como sommelière, consumir produtos daquelas empresas que têm os mesmos valores que os meus”, completa.

Cervejarias artesanais
Essa onda, entretanto, começou a pegar no Brasil, de fato, recentemente, apesar de seu conceito já

A Trilha Cervejaria é reconhecida pela inventividade, diversidade em estilos da bebida, produtos de alta complexidade, ousadia e pelo trabalho com ingredientes nacionais (Foto: divulgação)

circular no país há muitos anos. A Colorado, marca que hoje pertence à Ambev, por exemplo, foi uma das pioneiras. Criada em 1996 em Ribeirão Preto, sempre apostou em ingredientes nacionais em suas cervejas, como mandioca, café e rapadura. Os diferentes rótulos fizeram com que o inusitado virasse tradição, abrindo portas para que outras cervejarias desenvolvessem esse processo, priorizando a qualidade do que é entregue ao consumidor final.

Já a Eisenbahn foi criada em 2002, em Blumenau (SC), pela família Mendes. Nasceu com o objetivo de democratizar o acesso às cervejas artesanais e ser porta de entrada a esse universo para o público em geral. A marca produz seus rótulos de acordo com a Lei Alemã da Pureza (1516) e já recebeu mais de 100 prêmios internacionais, além dos inúmeros prêmios nacionais.

“O segmento mostra potencial há algum tempo e começou a desabrochar a partir da evolução do paladar do brasileiro, que aconteceu por volta de 2010, por introdução de cervejas Pilsen com um perfil mais marcante, como o do líquido de Heineken, por exemplo. A partir daí, o segmento segue uma tendência de democratização similar à ocorrida com outras categorias, como vinhos”, diz Karina Pugliesi, gerente de marketing da Eisenbahn.

“Nesse contexto de pandemia, as cervejas artesanais se mostraram uma opção para os momentos de isolamento dentro de casa. O consumidor passou a buscar mais esse segmento de produtos e se interessar por temas relacionados a ele. Eisenbahn, hoje, desponta como uma das principais marcas do segmento e está constantemente gerando conteúdos para desmitificar esse universo para os consumidores”, completa.

Hoje, só em São Paulo, são mais de mil cervejarias que trazem o conceito “artesanal”. Algumas delas são mais personalizadas, com produção em menor escala – o que está entre as características consideradas fundamentais por muitos na fabricação de uma cerveja artesanal. Uma delas é a Trilha, dos sócios Daniel Bekeierman e Beto Tempel.

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Consumidores e apaixonados por cerveja, perceberam uma discrepância muito forte em termos de qualidade do que estava sendo bebido lá fora e resolveram desenvolver uma ideia própria aqui no país.

“Começamos a observar o comportamento do consumidor e os modelos de negócios aplicados no exterior. As cervejarias tinham verdadeiras comunidades, as cidades tinham orgulho de ter um lugar desses fornecendo um produto de qualidade diretamente ao consumidor final. Sempre enxergamos em São Paulo essa grande oportunidade e começamos a colocar em prática. Depois de 11 meses, conseguimos lançar nossa primeira receita”, conta Daniel.

Desde 2016, a cervejaria é reconhecida pela inventividade, diversidade em estilos da bebida, produtos de alta complexidade, ousadia e pelo trabalho com ingredientes nacionais, como frutas, café, cacau, entre outros. A aposta é em lotes pequenos, sempre frescos, nunca pasteurizados, e em uma frequência de lançamentos de rótulos novos ou sazonais – um a cada semana.

“O mercado da cerveja artesanal não chega nem aos 3% do nacional. Lá fora, ele já está na casa dos 15%, 20%. Estamos atrasados em cerca de 20 anos, na minha visão. Mas acredito que é uma mudança de hábito de consumo. As pessoas estão prestando cada vez mais atenção no que estão consumindo”, analisa.

“Na nossa concepção, a cerveja artesanal é quando ela é produzida com uma visão de produto, não de mercado. É um negócio tocado por apaixonados por aquilo que é feito, não por executivos. É pensar sensorialmente na cerveja e se questionar sempre: qual sentimento o que eu faço vai transmitir?”, explica.

Sem nunca abrir mão da entrega pela qualidade, a Trilha também se preocupa em estar presente em todas as etapas da cadeia, até o consumidor final. “As cervejas são sempre entregues refrigeradas ao cliente. Se eu não tenho essa possibilidade, não entrego”, enfatiza Daniel. As cervejas da Trilha são distribuídas para o Brasil inteiro nesse formato.

A Bierteria, no Rio de Janeiro, é um outro exemplo de como a inovação e preocupação com a experiência e produto final fazem a diferença nesse mercado. A cervejaria alternativa virou febre na Cidade Maravilhosa e desenvolve rótulos criativos para todos os gostos, com muito humor.

A paixão do casal Dalmo Marcolino e Marília Loiola por cerveja e as inúmeras tentativas de chegar a receitas que trariam sensações diferentes aos seus consumidores fizeram com que o foco fosse desenvolver rótulos que retratam o cotidiano com bom humor, sem obrigações.

“Criamos conceitos e desenvolvemos a ideia. A cerveja “DR”, por exemplo, foi o primeiro rótulo da linha ‘Casal Lupulado’. Partimos do princípio de que uma DR não precisa ser ruim e chata, pode ter um aroma maravilhoso e sabor melhor ainda. Outra em que brincamos dentro dessa ideia maior foi o rótulo ‘Rotina’, que não precisa ser ruim e pode reservar grandes surpresas. São cervejas de diferentes estilos, que fazem com que a experiência seja divertida e gostosa”, conta Dalmo.

A cervejaria alternativa Bierteria fica no Rio de Janeiro e tem mudado seu modelo de negócios por conta da pandemia (Foto: divulgação)

Ela, que nasceu em um modelo cigano – em que os cervejeiros alugavam espaço de uma fábrica para produzir sua própria cerveja –, teve de repensar sua estratégia de negócio com a pandemia. Sempre ligada ao mundo das criptomoedas, a cervejaria foi a pioneira ao vender pela primeira vez uma cerveja com pagamento por bitcoin. Agora, tem o grande objetivo de distribuir suas receitas para que qualquer fábrica do mundo possa produzir suas bebidas.

“O projeto ainda está em fase inicial, mas a ideia é que qualquer cervejaria possa comprar as nossas receitas, como se fosse uma música. Assim, teria o direito de usar a composição, bem como o rótulo. É uma forma de inovar e superar os desafios que a pandemia tem gerado”, ressalta.