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Viagens corporativas: setor espera retomada surpreendente, dizem especialistas

Com faturamento de R$ 869 milhões em março de 2022, um dos setores mais atingidos nos últimos dois anos lança tendências e aposta na inovação e na tecnologia para as viagens de negócios

77% dos viajantes de negócios americanos concordam que é mais importante do que nunca trazer de volta as viagens de negócios
77% dos viajantes de negócios americanos concordam que é mais importante do que nunca trazer de volta as viagens de negócios Pxhere

Saulo Tafarelodo Viagem & Gastronomia

São Paulo

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Durante o auge da pandemia, quando a Covid-19 ainda obrigava boa parte do quadro de funcionários das empresas a trabalhar de forma remota e a respeitar medidas sanitárias contra a propagação do vírus, uma frase alarmista ecoou pelas conversas mundo afora: “As viagens de negócios nunca mais vão voltar“.

Com a fortificação de ferramentas digitais que encurtaram as distâncias, atenuaram os gastos e obrigaram as pessoas a se comunicar por meio de telas, a sentença acima poderia até fazer sentido em certos momentos dos últimos dois anos, mas o cenário já mostra sinais de retomada.

A volta das viagens corporativas e de grandes eventos presenciais no começo do ano, especialmente no último mês de março, chegou com força e surpreendeu até os mais céticos do setor.

O fim das restrições de viagens graças ao avanço na vacinação, à queda do número de mortes e de hospitalizações fez com que empresas, entidades e profissionais do setor de viagens corporativas observassem um aumento na demanda de deslocamentos e encontros presenciais.

Ainda distantes dos números pré-pandêmicos, especificamente o ano de 2019, os dados mostram que a retomada está na esteira do crescimento.

Ao todo, o setor brasileiro de viagens corporativas faturou R$ 869 milhões em março deste ano, montante apenas 2% menor quando comparado a 2019, quando o valor chegou a R$ 890 mi.

Os dados são da Associação Brasileira de Agências de Viagens Corporativas (Abracorp), que, apesar da elevação dos custos operacionais acentuados pela guerra na Ucrânia e da dificuldade na contratação de mão de obra, enxerga que os números e os resultados são promissores para o futuro próximo.

“Acredito que teremos uma curva crescente ao longo de 2022”, destaca Gervásio Tanabe, presidente executivo da Abracorp.

A guerra continua como uma dúvida neste momento, mas, por outro lado, a associação enxerga a pandemia como um “fato já controlado”. “Já vemos os eventos corporativos e as reservas acontecerem definitivamente – e sem cancelamento”, afirma.

Se no segundo trimestre de 2020 as viagens corporativas viram uma queda de quase 90% em seus números, 2021 fechou com dados mais palatáveis.

No ano passado, o faturamento total alcançou R$ 4,370 bilhões, o que representa cerca de 40% do faturamento de 2019 (R$ 11,388 bilhões), e um crescimento de 18% em comparação aos números de 2020 (R$ 3,705 bilhões).

Não temos o “novo normal” que as pessoas esperavam, os eventos não serão todos de modo virtual. Eles existirão sim, mas os eventos presenciais serão também muito fortes. E já são uma realidade, não uma expectativa

Gervásio Tanabe, presidente executivo da Abracorp

Da sazonalidade ao aperto das mãos: a importância das viagens corporativas

Interação face a face, conexão pessoal, qualidade de relacionamento, ampliação do networking e maior confiança na hora de fechar um negócio com o famoso aperto de mãos. Estes são apenas alguns atributos mais comentados que as viagens corporativas proporcionam, pois são parte fundamental no processo do desenvolvimento de muitas áreas.

E, apesar de alguns contras pesarem na hora de uma viagem de negócios ser fechada, ela continua como uma peça extremamente importante no mundo do turismo e das empresas.

Segundo o relatório mensal de dados da US Travel Association de março de 2022, mais de 77% dos viajantes de negócios e 64% dos americanos empregados concordam que é mais importante do que nunca trazer de volta as viagens corporativas.

Para se ter uma ideia, no Brasil, as viagens de negócios, num geral, representam 60% dos bilhetes aéreos emitidos, de acordo com informações da Abracorp.

“Há uma preocupação com o preço, as passagens aumentaram, as tarifas dos hotéis aumentaram. As empresas e os indivíduos sabem que vão gastar muito mais num evento. Só que o cliente quer o evento. O passageiro quer viajar, ele quer se relacionar, quer estar naquele fornecedor e com aquele cliente. O ‘shake hands’ faz diferença”, diz Marcelo Cohen, CEO da BeFly, empresa especializada em turismo de negócios, referindo-se ao poder do clássico “aperto de mãos”.

No ritmo contrário de retração da pandemia, Cohen, que controlava a Belvitur, empresa de turismo de Minas Gerais, adquiriu em 2021 a Flytour, então terceira maior companhia de turismo da América Latina e líder no mercado corporativo.

Em março de 2019, a Flytour faturou R$ 415 milhões com um quadro de 2.500 funcionários. Já em março de 2022, sob a administração da BeFly, foram faturados R$ 594 milhões com 1.200 funcionários.

Marcelo Cohen, CEO da BeFly: “O aperto de mãos faz diferença”/ Divulgação

Segundo o CEO da holding, os resultados vieram com a redução do quadro de funcionários, que, de acordo com ele, já era prevista, e com os fortes movimentos de tecnologia e automatização de processos.

“O movimento que fiz nesse ecossistema foi o de entender que em 2022 o mercado corporativo ia voltar, foi um intuito meu, como acreditava. Dei sorte em acreditar no que estava certo”, resume.

“O que vemos hoje? As empresas deixando o home office (inclusive a própria Flytour), o mercado de lazer dando uma enfraquecida por conta dos preços abusivos das passagens aéreas e o mercado corporativo voltando com muita força”, aponta Cohen.

Como explica Gervásio Tanabe, o Brasil, assim como outros países, possui uma sazonalidade no turismo. Segundo ele, a grande demanda das viagens de lazer no ano ocorrem geralmente em três meses principais: dezembro, janeiro e julho.

Logo, fora destes meses, quem mantém o setor do turismo e de viagens, é o mercado corporativo. “É nesta ‘baixa temporada do lazer’ que entra a ‘alta temporada do corporativo'”, sugere Tanabe.

De modo geral, o mercado afirma que o nicho corporativo ainda tem um peso muito importante no setor das viagens, pois consegue manter a sazonalidade – e o Brasil ainda depende fortemente do mercado corporativo em comparação ao mercado de lazer.

A importância das viagens corporativas também seguem para o setor hoteleiro, que chegam a ser cruciais para o segmento. “Para nós é um segmento superimportante pois os viajantes corporativos não necessariamente representam um maior número, mas eles viajam muito mais”, afirma André Sena, Chief Commercial Officer (CCO) da Accor na América do Sul, rede com 330 hotéis em operação no Brasil.

Para Sena, o cliente corporativo viaja em uma média muito maior por ano quando comparado com o viajante de lazer. “Isso gera um volume de negócios muito importante para nossos hotéis e cria um colchão de ocupação para podermos trabalhar de maneira mais eficiente em outros segmentos”.

Plataformas de viagens corporativas: salto com a pandemia

Além da Flytour, a pandemia abriu espaço para um outro filão relacionado aos deslocamentos de negócios:  as plataformas e startups que facilitam as viagens e as despesas corporativas. Uma delas é a Onfly, travel tech mineira que surgiu em 2018 a partir da insatisfação de seus fundadores com este mercado.

Ao lado de Elvis Soares, Marcelo Linhares percebeu que os sistemas de viagens do nicho era muito antigo e antiquado, e que tinham o mesmo perfil: a secretária mandava um e-mail, havia a cotação, o vai e volta de e-mails e um processo de pedir reembolso traumático.

Segundo Linhares, era um “processo extremamente ineficiente”. “Fomos para o mercado e percebemos que essa era uma dor de uma boa parte das empresas”, diz.

Era então criada a Onfly que, após alguns ajustes ao longo do tempo, funciona como uma plataforma de tecnologia de viagens e despesas corporativas. Com um sistema de assinatura, a empresa configura uma política dentro da plataforma, cadastra os usuários e eles mesmos podem fazer suas próprias viagens, o fluxo de trabalho é registrado e os recibos digitalizados.

Marcelo Linhares, um dos fundadores da Onfly, travel tech mineira que facilita o controle e as despesas de viagens corporativas / Claudio Ribeiro Jr

A diferença é que a Onfly é dona dos próprios sistemas de tecnologia, o que os ajuda a trazer mais fornecedores para sua base e levar uma potencial economia para os clientes além de gerenciar as despesas. Em números: no período pré-pandemia a startup tinha cerca de 40 clientes em modelo de assinatura e hoje já são cerca de 440. Em 2021 foram R$ 45 milhões de volume transacionado, e a meta para este ano é R$ 160 milhões.

A digitalização e a tecnologia, logo, já fazem parte da jornada das viagens corporativas e, nesse ponto, a pandemia ajudou a startup.

“No começo o grande lema das empresas era a digitalização, levar tecnologia e inovação. Várias abriram as portas e antes não estavam interessadas em nosso processo. No início era muita porta na cara, as pessoas não entendiam, não gostavam, não queriam mudar, mas quando veio a pandemia as coisas começaram a ganhar outros contornos”, diz.

E Linhares é categórico. “Estou convicto que muitas viagens corporativas vão ser substituídas pelo digital, e estou confortável com isso, mas acho que nada substitui a interação face a face, a conexão pessoal. Para muitas situações, isso é insubstituível”, sugere.

Rede hoteleira

Parte importante da cadeia das viagens de negócios, a rede hoteleira também tem visto um aumento na procura em suas instalações neste momento de maior flexibilidade das restrições de protocolos. “Algo que tem surpreendido a gente é que a retomada dessas viagens [como em períodos pré-pandêmicos] talvez não demore tanto quanto a gente imaginava”, fala André Sena, da Accor.

Grande parte dos 330 hotéis da marca multinacional no Brasil – que somam mais de 53 mil quartos – recebem muitos viajantes a negócios. Não é de se estranhar que, antes da pandemia, as viagens corporativas representavam mais do que as viagens de lazer para a Accor por aqui.

“Hoje as viagens corporativas representam menos do que o lazer nesse cenário, óbvio. Atualmente nosso principal segmento é lazer doméstico – como em toda indústria se formos ver”, completa André.

Mas será que os números pré-pandêmicos serão atingidos novamente em algum momento? “Acreditamos que sim. O que divulgamos de forma aberta é que esperamos que essa volta ocorra entre 12 e 18 meses. É difícil de prever, mas esperamos recuperar os níveis pré-pandemia neste período”.

Coworking da Accor tem tido boa recepção e já possui mais de 150 pontos de serviço pelo Brasil, como este no Ibis Budget dos Jardins/ Divulgação

Uma das apostas da marca para atrair cada vez mais clientes corporativos e proporcionar uma experiência mais completa a esse público aterrissou no Brasil no ano passado, durante a pandemia. É o WOJO, marca global de coworking da Accor, que alia o coworking com experiência de hotel a um serviço hospitaleiro.

Com uma boa aceitação por aqui – já são 150 pontos de serviço e 100 spots (espaços de coworking com acesso gratuito ao Wi-fi nos lobbies, bares e restaurantes) – o WOJO entrega uma oportunidade de aproveitar as estruturas das propriedades e oferece uma estrutura adequada de trabalho.

Afinal, mesmo com a não necessidade de ir até o escritório “as pessoas ainda precisam de cômodos confortáveis e estrutura para poderem trabalhar”, como exemplifica André.

O executivo define como otimista a relação da marca com o turismo. “De médio a longo prazo, somos extremamente otimistas com o mercado de turismo como um todo. A pandemia mudou algumas coisas para sempre, óbvio, mas muitas outras não. O desejo das pessoas de viajar, conhecer outros lugares, a importância do contato físico: isso não mudou com a pandemia”.

Retomada dos eventos

No início de 2022 uma certa dúvida ainda pairava no ar sobre o retorno das viagens corporativas. As grandes capitais ainda estavam sofrendo um movimento menor do que em 2019. Mas então o mês de março chegou e, com ele, uma certeza: os eventos retornaram de uma maneira muito forte – até surpreendente.

Segundo as fontes ouvidas, os eventos são ocasiões excepcionalmente importantes na receita das viagens corporativas, pois geram receitas extras e também mais ocupação nos quartos de hotéis.

“O que temos visto é que eventos voltaram de maneira forte. A gente sempre teve muita receita de clientes da Onfly em que clientes iam para eventos e março beneficiou muita gente com receita”, diz Marcelo Linhares.

“A retomada do tipo de evento presencial é superimportante para a indústria como um todo porque aumenta a ocupação dos hotéis não apenas próximos do evento, mas também na cidade como um todo. Eventos estão voltando de forma acelerada e são importantes para a nossa recuperação”, categoriza André Sena, CCO da Accor, que fala ainda que, recentemente, muitos hotéis da rede tiveram 100% da lotação de salas em alguns dias – uma movimentação não prevista

Marcelo Cohen, da BeFly, concorda. “Há cotação de evento como nunca agora. Não tenho nenhuma empresa me pedindo evento virtual, isso acabou”. Segundo o profissional, algumas empresas multinacionais, por questões de protocolo, ainda não voltaram 100%, mas as pequenas e médias já estão trabalhando o tempo todo, a todo vapor.

O que mudou e o que veio para ficar

Viagens mais longas e mais otimizadas são tendências para as viagens corporativas e traços de diferenças com tempos pré-pandêmicos/ Pxhere

A própria digitalização dos processos relacionados às viagens corporativas junto de hotéis mais inteligentes são algumas das tendências que vieram para ficar neste nicho. E soma-se a isso uma palavra que já virou moda no setor : “bleisure”, ou seja, a junção de trabalho com o lazer em um mesmo destino, alimentada pela possibilidade do trabalho remoto.

“A digitalização não é mais uma opção e nem vantagem competitiva, a tecnologia já faz parte da jornada. E o conceito de ‘bleisure’ também tem tido uma convergência forte, assim como o ‘staycation’. Ou seja, a mistura de estadias longas com possibilidade de trabalho remoto em um destino e ao mesmo tempo que a família está ao lado de férias”, elenca Marcelo Linhares, da Onfly.

Tais conceitos vão de encontro com o dado de que o Brasil é o considerado o melhor destino para trabalho remoto na América do Sul e o Caribe, de acordo com o Índice de Trabalho Remoto divulgado pelo metabuscador Kayak.

Esse levantamento mostra que país é considerado ideal para viajantes que procuram trabalho remoto ao mesmo tempo que enxergam possibilidades de viagem. Para a classificação, foram consideradas categorias como condições de saúde e segurança, infraestrutura para o trabalho remoto, preços locais, vida social e clima.

“Por conta disso, posso de fato ter um dia a mais no destino e trabalhar remotamente e com isso aproveitar melhor o local ou ainda até viajar mais”, relata André Sena, representante da Accor na América do Sul.

Atualmente, entre as diferenças observadas em comparação com os tempos pré-pandêmicos, é o preço de tudo que envolve uma viagem corporativa. O preço é uma máxima repetida diversas vezes como importante fator de decisão, mas não no sentido da economia: André Sena revela que os clientes passaram a escolher o hotel mais por protocolos bem instalados do que pelo valor das estadias.

“Durante a pandemia, os clientes passaram a prezar muito pela qualidade de processo e a segurança que o hotel trazia ou não durante a hospedagem – isso em especial às viagens corporativas, mas não apenas”, relata. A afirmação vai de encontro também com as observações da Abracorp.

“Hoje não é somente preço que se conta. Até 2019, a única preocupação era relacionada ao orçamento. Agora, a empresa entende que tem que trabalhar com um orçamento, mas tem que ter um equilíbrio entre orçamento e governança”, diz o presidente da Associação.

“Nem sempre a empresa vai conseguir o mais barato para determinado destino. A forma negocial está sofrendo um pequeno reajuste de como fazer as cotações e em como buscar o serviço”, conclui.

Entra então outro fator primordial relacionada à segurança do cliente: a preocupação com o colaborador que vai viajar.

“O que tem estado muito mais em voga é a preocupação com o colaborador. Antigamente, era um viés muito forte de economia, de reduzir custo a toda forma, e agora é mais voltado à experiência do viajante. É uma diferença de tempos pré-pandêmicos que se resume à otimização da experiência do colaborador”, expressa o fundador da Onfly, Marcelo Linhares.

Viagens bate e volta? Não mais. Reuniões que hoje podem ser resolvidas em pouco tempo por videochamadas são a prioridade das empresas. Ao contrário, busca-se viagens mais longas que trarão resultados mais sólidos. “Se as pessoas estão indo viajar, elas têm que otimizar muito a agenda delas”, continua Linhares, com base nas movimentações dos clientes nos últimos tempos.

Tal fato entra em consonância com o compliance das empresas, ou seja, as regras de governança que as rege. Na visão dos representantes, são as grandes empresas que mais demoram a voltar a colocar colaboradores para viajar, enquanto as pequenas e as médias retornam mais rápido justamente pela necessidade de não ficar para trás perante os concorrentes. Em suma, bom para elas e sinal positivo para o setor.


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