Mãe e filha pilotos abrem caminho para mulheres aviadoras

Suzy e Donna Garrett compartilham uma paixão pela aviação e enfrentam mercado amplamente masculino

Mãe e Filha aviadoras
Suzy e Donna Garret
Suzy e Donna Garret compartilham a paixão pela aviação
Foto: Reprodução/Facebook

Quando Donna Garrett estava crescendo na área metropolitana de Los Angeles, não lhe parecia estranho que sua mãe trabalhasse como piloto de avião. Como seu pai tinha a mesma profissão, comandar um avião parecia uma coisa normal a se fazer.

“Era o trabalho chato que meus pais tinham quando saiam de casa para trabalhar”, ri Donna, hoje com 26 anos.

Na verdade, a mãe Suzy Garrett estava abrindo caminho pelos céus como uma das primeiras mulheres a pilotar na SkyWest, companhia aérea regional dos Estados Unidos.

Conforme Donna foi ficando mais velha, ela começou a notar. Inspirada pela paixão de seus pais e pela liberdade que desfrutavam para explorar o mundo, ela decidiu seguir sua própria carreira como aviadora.

Em setembro de 2019, Donna comandou um avião ao lado de Suzy como a primeira equipe piloto mãe e filha da SkyWest.

O voo ocorreu há mais de um ano, mas, nas últimas semanas, a história de Donna e Suzy acabou viralizando, com fotos da dupla sorrindo orgulhosamente na cabine se espalhando pelas redes sociais.

“Sabíamos que era algo muito especial”, contou Suzy, que estava comemorando 30 anos na SkyWest quando fez par com sua filha.

Ela se lembra da “reação de todos os outros” como uma das partes mais emocionantes da experiência.

“Fiquei muito surpresa – tão surpresa quanto agora que isso viralizou. Não tiravam tantas fotos do mim desde o meu casamento! Os passageiros tiraram fotos com a gente, carregadores de bagagem, comissários de bordo… Isso só ajudou a tornar o dia ainda mais especial, o apoio foi maravilhoso”.

A dupla esperava repetir a experiência em 2020, mas seus planos foram interrompidos pela pandemia de Covid-19. No momento, a mãe Suzy está em Los Angeles e a filha Donna está em Chicago e, como muitas famílias, elas não puderam passar muito tempo juntos este ano.

Donna e Suzy Garrett trabalham como pilotos da SkyWest Airlines
Donna e Suzy Garrett trabalham como pilotos da SkyWest Airlines
Foto: Cortesia de Donna Garret

Desafiando o estereótipo

A imagem das duas compartilhando uma cabine de comando capturou um momento feliz na aviação, mas também simbolizou um marco na difícil jornada enfrentada por muitas mulheres pilotos – uma das razões pelas quais a dupla pensa que sua história ressoou em todo o mundo.

Suzy Garrett começou a trabalhar para a SkyWest em 1989. Ela sonhava em se tornar uma aviadora desde que se apaixonou por viagens aéreas em seu segundo voo, do Arizona a Los Angeles, quando estava na oitava série. Olhando pela janela do avião, ela foi cativada pelo pôr do sol.

Mas o caminho para alcançar esse objetivo não parecia tão claro.

“Naquela época, as mulheres não eram pilotas de verdade, e a carreira militar era praticamente a única maneira de me tornar uma, mas eu não era alta o suficiente para a área militar”, diz Suzy, que tem 1,55 metro de altura.

Determinada a ter sucesso, ela se matriculou na escola de aviação no Mount San Antonio College, na Califórnia, em 1984. Mais tarde, trabalhou como instrutora de voo por alguns anos antes de conseguir seu primeiro emprego na SkyWest.

Ao longo de sua carreira na SkyWest, ela pilotou turboélices Fairchild Swearingen Metroliner, o Embraer EMB 120 Brasília e agora o Bombardier CRJ200, CRJ700 e CRJ900 NextGen.

Trinta anos atrás, a aviação na América era dominada por homens brancos e hoje o quadro mudou pouco. De acordo com o escritório de estatísticas trabalhistas dos EUA (US Bureau of Labor Statistics), 92,5% dos pilotos profissionais são do sexo masculino e 93,7% dos pilotos profissionais são brancos.

Organizações como Fly for the Culture e Sisters of the Skies estão trabalhando para tornar a aviação mais acessível, fornecendo bolsas de estudo, aumentando a representação e apresentando mentores para grupos sub-representados na aviação, particularmente pilotos negros.

Suzy diz que não enfrentou nenhuma discriminação na cabine do piloto e sentiu que teve “a mesma quantidade de oportunidades” que seus colegas do sexo masculino.

Qualquer comentário sarcástico que tenha ouvido veio de pessoas menos familiarizadas com o trabalho, mas Suzy recebeu “comentários, talvez de passageiros ou pessoas no terminal”.

Ela se acostumou a ver uma expressão de surpresa no rosto dos passageiros ao perceberem que foi ela quem acabou de pousar a aeronave.

Embora a aviação ainda tenha um problema flagrante de diversidade, Suzy diz que está animada para ver a mudança de atitude durante as três décadas em que voa. Além disso, pensar que ela pode ter ajudado a inspirar mulheres jovens a entrar na indústria também é gratificante.

“Isso tem sido muito bom, e saber que isso realmente inspirou minha filha foi a cereja do bolo”.

Passos da família

Donna começou a voar na faculdade, depois que seu pai piloto lhe ensinou o básico.

“Fiquei completamente apaixonada por voar”, conta.

Mais tarde, ela estudou em duas escolas de voo no sul da Califórnia, terminou seu treinamento em Michigan e aumentou suas horas de voo trabalhando para empresas menores, incluindo a Scenic Airlines, que oferece passeios aéreos ao Grand Canyon. Ela ingressou na SkyWest em abril de 2019.

“Para falar a verdade, eu não percebi o quanto minha mãe foi pioneira nesse campo até bem recentemente”, afirma.

“Eu cresci vendo-a nesse papel, e só quando eu estava muito mais velha e tentando me firmar nessa carreira percebi como sua posição é rara nesse campo, e percebi que o que ela fez em sua época foi muito impressionante”.

Ambas as mulheres veem a representação como um passo importante para encorajar mais mulheres a treinar para se tornarem pilotos.

“Ter garotas mais jovens vendo mulheres lá em cima na cabine fazendo isso é aquele tipo de momento que vai inspirar as mulheres a perseguir algo que talvez nunca tenham pensado ser uma possibilidade para elas”, diz Donna.

Donna e Suzy falam com carinho sobre a época em que voaram juntas. Em 4 e 5 de setembro de 2019, a dupla operou um CRJ700 entre Los Angeles, San Diego, Fresno (Califórnia) e Salt Lake City (Utah).

“Nunca tive a oportunidade de voar com um capitão ou capitã tão experiente”, diz Donna. “E tendo ela como minha mãe, nós temos uma grande base de comunicação, trabalhando a partir da nossa dinâmica”.

Suzy acrescentou que, na cabine de comando, os laços familiares ficaram em segundo plano em relação ao profissionalismo e ao treinamento.

“Mas é muito legal olhar e vê-la sentada ao meu lado, além do orgulho e da alegria que vejo de ter Donna fazendo isso e estando comigo no trabalho”, diz ela. “É indescritível, estou muito, muito orgulhoso dela, ela faz um trabalho fantástico”.

Mãe e filha pilotas
A dupla teve o prazer de compartilhar a cabine em setembro de 2019
Foto: Cortesia de Donna Garrett

A dupla espera que o filho de Suzy se junte a elas na cabine da próxima vez. O jovem é um piloto recém-qualificado e deve se juntar à SkyWest em breve.

“O que eu acho que seria realmente legal é ter Donna como capitã e ele como seu primeiro oficial”, conta Suzy. “E talvez eu esteja sentado no banco de trás como passageiro. Acho que seria divertido”.

“Isso seria um sonho incrível virando realidade”, acrescenta Donna.

O irmão de Donna deveria ingressar na SkyWest no início deste ano, mas a contratação foi suspensa quando a pandemia começou.

“Tem sido mesmo um pouco difícil”, diz Suzy, refletindo sobre o impacto da Covid-19 na indústria de aviação.

As duas mulheres esperam que o setor se recupere e que as companhias aéreas voltem a contratar em breve. Nesse ínterim, elas torcem para que a pandemia não afaste os jovens aviadores que lutam para atingir seus objetivos.

“Nesse setor, vi muitos altos e baixos, ciclos diferentes. “Isso é temporário, vamos voltar e no final é uma carreira muito gratificante que acho que muita gente vai gostar”, opina Suzy.

A filha Donna, por sua vez, defende a importância de encontrar bons mentores na indústria da aviação, reconhecendo que teve o privilégio de ter modelos dentro de sua própria família.

“Se você puder encontrar outros amigos, colegas, mentores, pessoas para ajudá-lo nessa jornada desafiadora, mas muito gratificante, de entrar na aviação, ter outras pessoas lá, ajudando você, é algo que torna toda a jornada muito mais fácil.”

Fatia de positividade

A dupla tem algumas ideias sobre por que sua história ganhou um novo sopro de vida em 2020.
Suzy sugere que pode ser porque oferece uma fatia de positividade no que tem sido um ano difícil para tantos.

“Talvez por que seja algo inspirador, edificante, uma nota positiva, talvez tenha ressoado nas pessoas? E especialmente para os jovens, onde muitas carreiras e aspirações foram suspensas”, conta.

A história também se tornou viral em um momento em que muitos estão separados da família, sem ter certeza de quando poderão ser um ao outro – então, ver uma mãe e uma filha trabalhando juntas é ainda mais emocionante.

Suzy e Donna esperam que ambas estejam de volta ao cockpit em breve. Enquanto isso, elas estão relembrando como a experiência realmente foi ótima.

“Trabalhamos muito bem juntas”, lembra Donna. “E foi simplesmente indescritível ver como foi divertido voar com ela e como fiquei orgulhosa de sentar ao seu lado”.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).