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    Os encantos de Évora, pequena cidade no Alentejo que é um museu a céu aberto

    Com cerca de 50 mil habitantes, a cidade nos reserva uma Portugal autêntica: transpira história, nos convida à boa mesa e ainda possui um hotel de luxo dentro de um convento

    Daniela Filomeno em fim de tarde no centro histórico de Évora, considerado Patrimônio Histórico pela Unesco
    Daniela Filomeno em fim de tarde no centro histórico de Évora, considerado Patrimônio Histórico pela Unesco CNN Viagem & Gastronomia

    Daniela Filomenodo Viagem & Gastronomia

    Évora, Portugal

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    Depois de me deslumbrar com os vinhedos nas encostas do Vale do Douro, de seguir viagem até a foz do rio e me deparar com a apaixonante cidade do Porto, é chegada a hora de descobrir mais um pedaço delicioso de Portugal.

    Boa mesa, bons vinhos e incríveis experiências marcam a passagem pelo Alentejo, região já mais ao centro do país conhecida por excelentes rótulos e por ser repleta de oliveiras e sobreiros, as árvores da cortiça e, também, de onde saem alguns dos melhores azeites de Portugal.

    E uma das protagonistas deste canto é justamente a capital Évora, cidadezinha de cerca de 50 mil habitantes que é como o coração do Alentejo.

    Autêntica, histórica, charmosa e surpreendente são apenas alguns dos adjetivos que uso ao me referir a este local, que é também um dos melhores jeitos de começar a viagem pela região central de Portugal.

    Fundada pelos romanos, a cidade carrega uma riqueza cultural imensurável em cada uma de suas vielas de ruas de pedra. Com várias ruínas, construções históricas que carregam parte do passado português e joias arquitetônicas com fachadas brancas e azulejos nas varandas, digo que Évora merece ser descoberta a pé.

    Em cada cantinho nos deparamos com uma surpresa, incrustada nos mínimos detalhes. Por aqui, é impossível não parar em cada esquina e apreciar a vida acontecer de uma maneira peculiar, onde o ritmo do tempo é outro.

    Junte tudo isso a restaurantes de culinária alentejana, sinônimo de mesa farta, e temos nas mãos uma experiência para lá de genuína.

    E não pense que o charme acaba quando o dia vai embora: é durante a noite que a cidadezinha ganha contornos ainda mais apaixonantes com as iluminações nas fachadas e nas construções.

    Centro histórico: patrimônio da humanidade

    Daniela Filomeno pelas ruas do centro histórico de Évora / CNN Viagem & Gastronomia

    Andar por Évora é ser testemunha de uma história muito bem conservada. Uma das cidades portuguesas que remontam os tempos medievais, fundada no século 12, Évora é como um museu a céu aberto e um livro de história da arte portuguesa.

    Não é à toa que, desde a década de 1980, seu centro histórico é considerado Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco.

    Resquícios de tempos romanos, vestígios da passagem moura, muralhas e ainda igrejas góticas e outras que misturam variados estilos constituem um gostinho da cidade.

    A seguir, confira o que não deixar de ver quando estiver de passagem em Évora – a dica é reservar pelo menos um dia para descobrir os encantos desta cidade no Alentejo:

    Igreja de São Francisco

    Construída entre o final do século 15 e começo do século 16, a Igreja de São Francisco é um dos edifícios religiosos mais interessantes da região, onde se sobressai o estilo gótico-manuelino.

    Interessante saber e notar que sua construção e decoração estão ligadas aos acontecimentos históricos que remetem ao período da expansão marítima de Portugal, com símbolos de reis e da Ordem de Cristo na nave da igreja.

    A nave, inclusive, é formada por uma extensa abóbada de pedra, que impressiona nosso olhar. Dada a importância, a igreja é considerada como um Monumento Nacional desde 1910.

    Além da igreja em si, com seu altar e nave, é nas dependências da edificação que fica a atração mais famosa de Évora: a Capela dos Ossos.

    Capela dos Ossos

    Escondida na Igreja de São Francisco, a capela não é necessariamente um local abundante de beleza e sobriedade. Pelo contrário, chega a ser mórbido e, para mim, até um pouco apavorante. O motivo?

    Mais de cinco mil ossadas que foram enterradas e encontradas pela região dos conventos da cidade ficam dispostas como se fossem um revestimento nas paredes. Ou seja, crânios e diversos ossos ficam empilhados pelos cantos.

    Logo na entrada, um inscrito sobre a porta nos deixa em alerta: “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”. Não é cravada uma data exata da construção da capela, mas podemos perceber que, mesmo com seu aspecto horripilante, havia uma preocupação em deixar uma poderosa mensagem.

    Apesar de certo desconforto que nos possa causar, a capela cumpre com um papel de catequização e reflexão. Com as ossadas que forram as paredes, aqui se fala da morte e da vida pós-morte, uma oportunidade para refletirmos sobre vida espiritual, uma vez que, de acordo com os preceitos daqui, estamos na Terra apenas de passagem e o que importa são nossas boas ações.

    Apesar da energia pesada, vale a pena adentrar o local e passar pela experiência – tanto contemplativa quanto reflexiva. Aberta todos os dias, o bilhete para a capela sai por € 5 para os adultos e ainda inclui visita ao Núcleo Museológico e a Coleção de Presépios da Igreja de São Francisco.

    Sé de Évora

    Junto dos outros monumentos, é um dos cartões-postais de Évora e se localiza na direção da parte mais alta da cidade. A Sé de Évora é simplesmente um dos maiores monumentos da arquitetura religiosa de Portugal e a maior catedral medieval do país, constituída como um dos mais valiosos resquícios deste período tanto a nível nacional quanto internacional.

    Voltemos no tempo: a catedral começou a ser construída em 1186, mas ficou totalmente pronta apenas 64 anos depois, em 1250. Ao longo dos séculos foi ganhando melhorias e mais anexos, ampliando seu espaço.

    Considerado monumento nacional português desde o início do século 20, a construção da catedral é marcada por uma interessante transição do período românico para o período gótico – cheia de detalhes, prepare o olhar e a câmera.

    Três naves de 80 metros de comprimento, cerca de cinco capelas e duas torres compõem o grandioso templo, onde os sinos marcam as horas há séculos. Toda revestida de granito, aqui notamos também o uso da talha dourada, técnica na qual a madeira é esculpida e revestida por películas de ouro.

    A catedral ainda abriga o Museu de Arte Sacra, com imagens importantes para a religiosidade portuguesa. Mas um dos pontos imperdíveis é o topo da catedral, com um terraço que é o local mais alto da cidade – já dá para imaginar a vista, certo? Daqui temos um panorama de todo o horizonte de Évora, além de planícies do Alentejo.

    É uma parada obrigatória! A catedral cobra alguns euros dos visitantes para adentrar as instalações, e os valores dos combos ficam entre 3 € e 4,50 € (o valor cheio dá direito a visita na Sé, no claustro, à vista panorâmica e ao museu).

    Templo Romano

    Chegar perto do Templo Romano, também conhecido como Templo de Diana, é se aproximar de mais de 2 mil anos de história.

    Alguns dizem que é do século 1, construído junto das muralhas, palacetes e aquedutos que ainda existem por aqui, já outros historiadores dizem que não havia tecnologia suficiente para construir o monumento na época.

    De uma maneira ou de outra, fato é que o templo é um dos símbolos mais impactantes da ocupação romana em todo território português e na Península Ibérica. De acordo com o órgão de turismo de Portugal, escavações recentes revelaram que o templo chegou a ser rodeado por pórtico e um espelho d’água.

    Situado também na parte mais alta da cidade, o templo ganha um tom apaixonante ainda mais durante a noite, quando suas colunas remanescentes ficam iluminadas. Vale destacar que também somos agraciados com um belo jardim florido nos fundos da atração, local agradável para um fim de tarde.

    Andanças pela cidade

    E não pense que acabou: Évora ainda possui outros tantos cantinhos charmosos para um passeio a pé. Nas proximidades do templo romano há, inclusive, o Museu de Évora, a Biblioteca Pública e o Centro de Arte e Cultura.

    Nas bordas da cidade fica o Aqueduto de Prata, original da época dos romanos que ainda hoje abastece a localidade, assim como muralhas de tempos longínquos de quando a cidade era toda cercada por elas.

    E não deixe de passar também pela Praça do Giraldo, como se fosse a sala de visitas de Évora, com comércio e mesinhas de cafés e restaurantes ao centro.

    Gastronomia Alentejana

    Como todo território português, a boa mesa é uma das características mais significantes – e saborosas – daqui. Pelas vielas e ruas nos deparamos com casas que servem o melhor da culinária alentejana, elevando a experiência gastronômica com bons vinhos e sorrisos.

    A vontade é de provar tudo e repetir a dose! Confira três locais imperdíveis de onde comer em Évora:

    Tasquinha d’Oliveira

    Considero o Tasquinha d’Oliveira uma das joias gastronômicas de Évora, um achado em meio às maravilhas da cidade. Situado na rua Cândido dos Reis, o restaurante é minúsculo e acomoda 10 pessoas. Tocado pelo Sr. Oliveira há cerca de 26 anos, já adianto: é difícil conseguir reserva.

    Isso explica então a procura para uma das melhores comidas do Alentejo. Dentro da casa, cujas paredes são adornadas com quadros e pratos típicos, podemos apreciar uma comida típica alentejana, que é sinônimo de mesa farta.

    A começar, as entradas são várias. Empadinha de perdiz com alho poró, carapaus de escabeche, pataniscas de bacalhau, queijinho de ovelha com empadinha, entre muitas outras, são algumas das delicinhas que podem ser provadas por aqui.

    Depois prepare a garfada no suflê de espinafre com camarão, um prato quente que nos satisfaz. Digo que é uma comida que abraça e que nos deixa felizes. Tudo isso, claro, acompanhado de algum vinho português de excelência.

    Rua Cândido dos Reis 45, 7000-524 Évora, Portugal

    Restaurante Fialho

    Outra casa imperdível em Évora e no Alentejo é o Fialho. Localizado no centro histórico da cidade, em meio a uma travessa que mais parece um ponto cenográfico (que fica ainda mais sedutora à noite), o restaurante é um dos mais tradicionais da região.

    Aberto desde 1945, aqui os pratos parecem não parar de chegar à mesa. As entradinhas são uma melhor que a outra e os pratos principais são igualmente um deleite ao paladar. Considero o Fialho uma boa oportunidade para mergulhar na cozinha alentejana de uma maneira apetitosa.

    Entre as entradinhas, pastel de carne que quebra na mão, arrematado com pimenta, e bolinhos fritos crocantes por fora e macios por dentro fazem nossa alegria.

    Os principais também são dignos de nota: perna de cabrito com batata bolinha cozida no próprio molho, que desfia fácil, e carne de porco feita com amêijoas, uma mistura que é um dos pratos mais pedidos daqui, formam uma experiência deliciosa.

    E a vivência aqui é assim: é um despertar dos sentidos pela cozinha portuguesa, prezando pela genuína gastronomia regional com uma notável garrafeira.

    Travessa Mascarenhas 16, 7000-557 Évora, Portugal

    Enoteca Cartuxa

    Interior da enoteca em Évora. Sentar-se no balcão também é experiência agradável / Reprodução/Instagram

    Em Portugal, muitas das ocasiões terminam em vinho. E um lugar ideal para degustar rótulos e de quebra apreciar comidinhas típicas alentejanas é na Enoteca Cartuxa, em pleno centro histórico.

    De pegada moderninha, com linhas retas e paredes brancas preenchidas por tons de madeira e pela cor vermelha, a Enoteca lembra um ambiente de taverna.

    Ao mesmo tempo restaurante e loja de vinhos, é local certo para degustar excelentes rótulos, como o Scala, um tinto obtido a partir das melhores fermentações anuais, de uma casta ou até de um lote de castas menos tradicionais na região.

    Como o nome entrega, a Enoteca pertence à Vinícola Cartuxa, tradicional da região, localizada a cerca de dois quilômetros do centrinho de Évora. Assim, todo portfólio vínico da empresa está disponível no restaurante do centro, assim como azeites da marca.

    Caso fique um tempinho a mais pela região, vale a visita na vinícola, sediada na Quinta do Valbom. O local já foi uma casa de repousos de jesuítas e hoje funciona como um dos centros de maturação dos vinhos produzidos pela Fundação Eugênio Almeida.

    Aqui surge uma informação importante: a Cartuxa é a produtora do Pêra Manca, um dos mais emblemáticos vinhos de Portugal. As visitas sem prova à vinícola saem por 5 €; visitas com provas de até cinco rótulos premium saem por 45 €.

    Enoteca: Rua Vasco da Gama 15, 7000-941 Évora, Portugal / Vinícola: Quinta de Valbom, Estrada da Soeira 7005-003 Évora, Portugal.

    Convento do Espinheiro: dormir na história

    Como é a experiência de pernoitar na história? O Convento do Espinheiro Historic Hotel & Spa pode nos dar uma boa resposta. Antigo mosteiro da Ordem de São Jerônimo, a apenas dois quilômetros do centro de Évora, as edificações históricas hoje dão lugar a um luxuoso hotel.

    Para mim, o local é como uma imagem clássica de Portugal, em que cada cantinho conta uma história do antigo convento. Dormir num hotel deste tipo é ficar imaginando como era o passado. Abrir a janela e ver ruínas e construções antigas é para lá de especial.

    Mas como o local surgiu? Reza a lenda de que a imagem da Virgem Maria apareceu em um espinheiro por aqui nos idos de 1400, onde foi erguida uma ermida em honra a Nossa Senhora em 1412 por conta da crescente importância do ponto, que virou um local de peregrinação.

    Antes de se tornar convento, o local abrigou ainda uma igreja e também recebeu hóspedes ilustres da história portuguesa, como D. João II e D. Manuel I. Hoje, o patrimônio histórico de seis séculos nos recebe de maneira ímpar com suas acomodações e edificações de importância imensurável.

    São 92 quartos ao todo, contando com as acomodações numa ala nova, mais contemporânea. Eles variam de tamanho, entre 32 e 110m², e também de categorias, indo da Deluxe no local do antigo convento até a Suíte Real, que é uma verdadeira viagem histórica no aposento antes reservado apenas aos membros da Família Real.

    Aqui, podemos ver de perto a edificação do século 15, arcos históricos que complementam a arquitetura, assim como ânforas onde os monges guardavam vinhos. Jardins, piscina interior e exterior, quadra de tênis, spa e parquinho infantil são algumas das opções de lazer. Vale destacar que a igreja do local é concorrida para casamentos.

    Dois restaurantes operam nas dependências: o Divinus, de gastronomia alentejana, e o Olive, italiano localizado na antiga cozinha dos monges do convento. Há ainda lounge de vinho e bar.

    O hotel também oferece visita comentada aos hóspedes, em que passamos por todos os pontos históricos e de importância do recinto. É um ótimo local que une o que Portugal tem de melhor na hotelaria: bom serviço, boa gastronomia e uma cidade charmosa ao lado.

    Convento do Espinheiro 7005-839 Évora, Portugal / Tel.: +351 266 788 200 / Site oficial


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