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Miami vibrante: um giro gastronômico e cultural por Little Havana e Design District

Além de praias e compras, a cidade norte-americana queridinha por nós brasileiros ferve de opções culturais e gastronômicas que fogem do óbvio - e deixam um gostinho de quero mais

Daniela Filomenodo Viagem & Gastronomia

Miami, Estados Unidos

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Plural, agitada, praiana e contemporânea. Junte todos estes predicados a uma cena gastronômica premiada e a uma interessante transformação artística e temos Miami à nossa frente.

Considerada um mosaico pan-americano com suas influências latinas, a cidade de mais de 450 mil habitantes no estado da Flórida é uma das preferidas de muitos brasileiros nos Estados Unidos há bastante tempo. Além das famosas compras nos grandes shoppings e outlets da região, Miami carrega em si um roteiro multicultural extremamente pujante.

O interessante é que a passagem do CNN Viagem & Gastronomia pelos EUA na terceira temporada do programa contemplou duas cidades que dialogam em termos de abundância cultural e culinária: Nova Orleans, uma cidade que queria muito conhecer e descobrir junto dos telespectadores; e Miami, destino que já conhecia – e sigo conhecendo – e que está entre as minhas prediletas do mundo.

E o que a torna especial? Justamente esta fusão de culturas latinas e americanas, que nos convida a degustá-la com calma. As casinhas dos salva-vidas, as gaivotas na areia e o mar azul turquesa ao fundo enquadram uma imagem clássica de Miami Beach, mas a cidade como um todo vai muito além disso.

Miami tem passado por uma renovação cultural e artística, além de gastronômica, e muitos artistas escolhem a cidade para viver e expor sua arte. Galerias, núcleos culturais, feiras de arte e até muros com intervenções pipocam por diversos cantos daqui, formando um terreno fértil para o campo das artes.

Digo também que Miami detém os melhores restaurantes dos EUA: dá para fazer um roteiro só de casas asiáticas, chinesas, japonesas, mexicanas, entre tantas outras cozinhas fascinantes. Que tal uma Miami que fuja um pouco do óbvio?

A missão foi fazer um contraponto de lugares “escondidos” que adoro ir e a apresentação de uma alta gastronomia – e também não tão alta assim, com restaurantes mais familiares e afetivos.

Percorrendo os bairros, especialmente Little Havana e Design District, o que fiz foi uma introdução do que acho bacana e imperdível na cidade, uma forma de instigar a descobrir outros lados de Miami em sua próxima viagem. Venha comigo e aproveite!

Little Havana

A pluralidade de Miami também se traduz em suas redondezas. E, com uma grande quantidade de latinos que se mudaram para a cidade e acabaram por ressoar suas raízes, não é de se espantar que uma das maiores comunidades seja de cubanos.

Durante a década de 1960, resumidamente, os Estados Unidos receberam a maior quantidade de cubanos no país da história. O resultado é que, hoje, Miami tem uma das maiores comunidades de cubanos fora da própria Cuba – para se ter uma ideia, Havana fica a mais ou menos 200 km de distância de Miami.

É uma verdadeira descoberta cultural e saborosa passar o dia por aqui: é uma região para tomar um bom mojito, mergulhar um pouco na cultura cubana e da América Central e escutar músicas típicas.

A mais famosa das vias é a Calle Ocho, a sudoeste da 8th Street, onde acontece o Calle Ocho Music Festival anualmente – festividade que culmina no Carnaval da cidade e chega a receber mais de 1 milhão de pessoas.

Coração do bairro, a Calle Ocho nos oferece vislumbres da cultura cubana com suas construções art déco, parques públicos, restaurantes, bares e lojas de charutos bem características. Não é difícil encontrarmos vários muros grafitados e pintados com dizeres referentes à Cuba, como “Cuba Libre”, “Havana” e corações com a bandeira do país.

Uma vez aqui, vale dar uma passadinha no tradicional Domino Park, icônico entre os turistas e moradores por concentrar idosos latinos jogando dominó e papeando sobre as principais manchetes do dia.

Por aqui também fica a Calle Ocho Walk of Fame, espécie de Calçada da Fama – mas na sua versão latino-americana. Atores, escritores, artistas e músicos possuem estrelas com seus nomes na calçada – uma das mais famosas é a da cantora e atriz mexicana Thalía.

Não deixe de entrar em uma loja de charutos, um dos símbolos cubanos. Na Calle Ocho, entrei na Federico Empire Cigar Boutique and Factory, que comercializa e enrola o tabaco em nossa frente. É interessante ver de perto como eles fazem os próprios charutos manualmente – com a ajuda dos funcionários, tentei fazer meu próprio charuto,  enrolando o tabaco e depois cortando a ponta com auxílio de um objeto cortante.

E falando de sabores e aromas, que tal uma parada para comer? Claro que restaurantes cubanos são a alma da região, mas minha sugestão aqui é diferente, já que estamos falando de misturas culturais: aposte almoçar no Lung Yai Thai Tapas, pequeno restaurante tailandês que tem fila na porta e uma comida incomparável feita por locais.

Baseada na tradicional comida de rua do país asiático, o local serve iguarias típicas de dar água na boca antes mesmo dos pratos chegarem à mesa. Minha sugestão aqui é: peça um pouco de tudo.

Tem pad thai (US$ 13), arroz frito com caranguejo azul (US$ 15), pato crocante com manjericão (US$ 21), mix de legumes da época (US$ 13) e uma salada de mamão verde (US$ 11) com tomate, amendoim e vagem com molho de limão no estilo tailandês que é de comer rezando – só experimentei uma salada parecida na própria Tailândia.

E o interessante é que o esquema é um pouco diferente do qual estamos acostumados. Você chega na porta, escreve seu nome numa planilha de papel e aguarda uma mesa. Uma vez sentados, a política da casa é o “one time order”, ou seja, temos de pedir todos os pratos de uma única vez – caso contrário temos de voltar para fila novamente.

Deixando a cultura tailandesa um pouco de lado e voltando às raízes cubanas, uma das casas mais amadas da Calle Ocho é a Sanguich, que possui apenas cinco sanduíches no cardápio. Os pães e os recheios são caseiros e a mostarda da casa é um dos grandes sucessos do local. São apenas 25 lugares e uma decoração que nos leva diretamente a uma velha Havana, com ladrilhos coloridos.

E se estiver em uma época de intenso calor em Miami, nada melhor do que um sorvete para adoçar a tarde. Após as refeições, passe na Azucar Ice Cream Company, sorveteria artesanal que nos oferece cerca de 100 sabores tropicais, como “café con leche”, “plátano maduro” (banana frita) e até rum. Uma delícia atrás da outra!

E uma ótima maneira de começar uma happy hour em Little Havana é, claro, com um mojito – drinque de origem cubana que combina rum branco com suco de limão e hortelã.

Na mesma Calle Ocho tente o Old’s Havana, bar e restaurante onde podemos testemunhar vários mojitos sendo feitos ao mesmo tempo, e onde os copos ficam enfileirados um ao lado do outro e vão recebendo o álcool necessário. Tal fato me lembra o Bodeguita del Médio, lendário bar em Havana que já virou até um ponto turístico e é conhecido por ser o berço do mojito.

Outra parada famosa entre os bares é o Cafe La Trova, que imprime uma visão da cozinha cubana moderna e traz certa vibração com um pátio ao ar livre – bom atrativo para um degustar um coquetel, fumar um charuto e ou até jogar dominó.

Quer ainda um pouco mais de diversão? Vá ao Ball & Chain, bar aberto em 1935 que carrega em si um espírito latino que remonta a bailes regados a muito ânimo.

São mais de 80 anos de história, que remontam a um tempo onde homens usavam seus melhores chapéus e as mulheres se vestiam com esmero para dançar e saborear mojitos – por que não repetir isso hoje em dia?

Miami Design District

Assim como em Little Havana, aqui é onde a criatividade floresce e onde nossos sentidos se divertem. Mais ao norte do bairro cubano, próximo de Wynwood, arquitetura, moda e gastronomia se juntam no Design District em sua potencialidade máxima para nos deixar com várias impressões, mas uma delas é especial: a de encantamento.

Em resumo, é uma região que congrega lojas de grifes badaladas, restaurantes premiados e instituições artísticas e culturais a nível mundial.

O bairro foi concebido pelo empreendedor e empresário Craig Robbins, que começou a comprar algumas propriedades por aqui e, a partir dos anos 2000, deu o pontapé inicial na revitalização do local, dando uma sobrevida ao que ele chamou de uma “Miami esquecida”. Deu certo. Hoje, o Design District possui mais de 130 espaços que abraçam os campos da arte, da cultura, da gastronomia e das compras.

Andar por aqui já é por si só um passeio e tanto. Além de opulentas, as grandes grifes seguem o código do bairro e possuem intervenções artísticas periódicas que pedem muitas fotos – isso quando a própria arquitetura das lojas já é digna de contemplação. Obras de arte públicas também ficam espalhadas pelas ruas e centros comerciais.

Uma das principais instituições artísticas que vale a visita é o Institute of Contemporary Art Miami (ICA), principal museu do bairro que nos apresenta arte contemporânea de artistas locais emergentes e pouco reconhecidos. Além do acervo fixo, exposições e um calendário artístico agitado ocorrem ao longo do ano.

O bacana é que o museu também possui um espaço externo chamado de Jardim das Esculturas, com trabalhos dispostos ao ar livre. E a cereja do bolo: a entrada é gratuita o ano todo – entretanto, reservas são recomendadas via site e o local não abre na segunda e na terça-feira.

Vale destacar que, na mesma 41st Street, rua do ICA, fica uma paradinha gastronômica deliciosa que se enquadra também como uma experiência. Falo do Aubi & Ramsa, sorveteria com um porém: apenas aceita clientes acima de 21 anos. A resposta? Os sorvetes da marca são infusionados com bebidas alcoólicas. É como uma happy hour diferente.

São vários sabores inspirados em drinques, como os meus favoritos de chocolate, nozes e gim (a partir de US$ 10) e o de agave dulce de leche (a partir de US$ 9), que leva tequila. Os sorvetes vêm em potes refinados e a lojinha é toda rebuscada, brincando com quadros de arte e o fato do álcool estar presente no alimento.

Para os entusiastas e amantes de arte igual a mim, vale conhecer também o Locust Projects, uma incubadora que produz e apresenta exposições, programas e projetos. Fundado em 1998 por e para artistas, o local respira arte alternativa sem fins lucrativos e se firma como uma pulsante lançadora de artistas em Miami.

E quer ver ainda mais arte? É indispensável estar aqui e não visitar uma galeria. Uma das mais renomadas no Design District é a David Castillo, que se destaca por apresentar artistas negros inovadores, assim como mulheres e artistas queer.

Outro espaço bacana – difícil achar um que não seja! – é o Palm Court, uma praça ampla e repleta de palmeiras que possui em seu centro uma obra de arte para lá de fotogênica, o Fly’s Eye Dome – um domo que se firmou como um dos pontos de arte pública mais bacanas do pedaço. Ao seu redor, lojas de luxo completam a aura refinada do local.

E, a partir da Palm Court, por um caminho em linha reta batizado de Paseo Point, é possível chegar ao Paradise Plaza, local de eventos de arquitetura moderna que se transforma facilmente em qualquer ocasião. É aqui que fica um dos restaurantes mais emblemáticos da cidade – e um dos meus prediletos.

Falo do L’Atelier de Joël Robuchon, que desembarcou na região em 2019 e agitou a cena gastronômica da cidade. É uma parada para um jantar delicioso e rebuscado, que nos apresenta um menu-degustação para lá de saboroso e instigante.

Com uma decoração contemporânea e de cor predominantemente vermelha, o balcão de 34 lugares é o melhor lugar para apreciar o trabalho duro que a equipe emprega para seguir os passos do Sr. Robuchon – um dos melhores chefs do mundo que foi condecorado com cerca de 32 estrelas Michelin ao longo da carreira.

Assim, não experimentamos uma comida francesa tradicional, mas uma cozinha inventiva com um pouco de influência internacional. Na casa, apostei no menu-degustação chamado de “Evolução Gustativa”, uma sequência de sete tempos: seis pratos saborosos e uma sobremesa (US$ 255). É o menu mais popular da casa, podendo ser harmonizado com vinhos também.

Na boca, diferentes texturas e sabores que impressionam. Os pratos são lindos, bem montados, com uma apresentação que comemos imediatamente com os olhos. Começamos com amuse-bouche com foie gras real e vinho do Porto.

Lagosta com caviar russo e maçã verde, black cod fresco supermacio e pequena costela de wagyu servida com cogumelos maitake com mousse de alcachofra e purê de batatas são algumas das delícias que se destacaram – e muito – para mim.

Inclusive, a dica é experimentar o purê de batatas de Robuchon: é sem igual de tão cremoso, e se assemelha a um queijo. Ótima maneira de terminar a noite e celebrar Miami.


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