Feriado do Dia das Crianças: um mini guia para curtir cidades históricas de MG

Uma viagem ao passado do Brasil e um caso de amor: andar pelos centrinhos destas cidades é como uma aula de história a céu aberto e um deslumbre a cada esquina

Daniela Filomeno em fim de tarde ao lado dos sinos de uma das igrejas da histórica Ouro Preto
Daniela Filomeno em fim de tarde ao lado dos sinos de uma das igrejas da histórica Ouro Preto Daniela Filomeno

Daniela Filomenodo Viagem & Gastronomia

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O ouro reluz dentro das igrejas e chama atenção para os adornos em volta do altar e do teto. Uma ao lado da outra, casinhas carregam fachadas coloniais típicas e as ruas feitas de grandes pedras dificultam o andar, mas recompensam no visual. A comida traz sotaques e fragrâncias mineiras, com seu torresmo, feijão tropeiro e frango com quiabo – além de cervejas geladas!

Assim, apenas os carros, os celulares e o burburinho urbano ao redor das cidades históricas de Minas Gerais nos lembram que este não é mais o Brasil dos séculos XVI e XIX, período em que ainda éramos uma colônia de Portugal.

Já no século XXI, andar a pé sem pressa nos centrinhos destas cidades, não muito distantes da capital Belo Horizonte, é como apreciar uma aula de história a céu aberto. Dá para notar que a brasilidade faz uma mistura incrível com a mineiridade local, nos presenteando com a história de um pedaço bem importante para o desenvolvimento do país, seja em Tiradentes, Ouro Preto ou em São João del Rei, entre tantas outras, como Mariana, Sabará e Cordisburgo.

Todo o patrimônio barroco e colonial é complementado hoje pelas gentis lojinhas de artesanato, por casas culturais que tentam traçar um paralelo com a importância histórica local e por restaurantes que servem o melhor da cozinha regional, além de hospedagens charmosas ao longo do caminho. Como apreciadora da história brasileira, posso afirmar que é um verdadeiro deleite turístico, cultural e gastronômico.

Não muito longe umas das outras, as cidades históricas de Minas carregam ricos resquícios de tempos que não voltam mais, mas que são importantíssimos para nossa memória coletiva. Recentemente, durante uma viagem pela região, pude me encantar com o que o estado – e o Brasil – oferece de melhor.

De olho nos próximos feriados nacionais e na retomada do turismo, te convido a embarcar comigo para cinco das mais importantes cidades históricas mineiras, locais onde o tempo passa de outra maneira e o encanto surge a cada cantinho. Coloque um tênis confortável – por aqui andamos muito – e vamos lá?

Ouro Preto

ouro preto do bene da flauta
Vista privilegiada da fachada da Igreja de São Francisco de Assis pela janela do restaurante Bené da Flauta (Foto: Daniela Filomeno)

Talvez a mais emblemática e conhecida das cidades históricas, digo que Ouro Preto é uma porta-voz da história do Brasil, com um acervo cultural fascinante. A 1h40 de Belo Horizonte, é a porta de entrada para quem deseja descobrir cenários históricos. Contextualizo: a cidade foi a responsável por colocar Minas Gerais no âmbito nacional, sendo um grande polo econômico e ponto central do Ciclo do Ouro nos tempos áureos da mineração, no século XVIII – na época, Minas era a capitania mais rica do Brasil.

O esgotamento das riquezas levou a uma queda de influência da cidade, porém, deixou para nós suas abundantes obras como testemunhos de um passado próspero. Tamanha importância, Ouro Preto entrou para a lista de Patrimônios Mundiais da Unesco em 1980 – a primeira inscrição nacional na prestigiada relação. Palco da Inconfidência Mineira, revolta que queria a emancipação da Coroa Portuguesa, os arquivos e memórias do movimento podem ser conferidos de perto no Museu da Inconfidência.

O atrativo fica no centro, ótimo lugar para iniciar o passeio pela cidade: repleto de ladeiras e fachadas históricas, por ali há a Casa de Ópera de Vila Rica (teatro mais antigo em funcionamento do país), a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar, a Feirinha de Artesanato do Largo de Coimbra, a Igreja Nossa Senhora do Carmo e o Museu do Oratório, para citar alguns. Uma das obras mais significativas da arte colonial, a visita à Igreja de São Francisco de Assis, relíquia do século XVIII, é imperdível – e as fotos no local também.

Bateu a fome? Bem ao lado da majestosa Igreja fica o Bené da Flauta, restaurante e café num casarão colonial branco e azul que serve comida regional refinada. O melhor é estar ali e apreciar do seu lado, pela janela, a vista a alguns metros da igreja, uma das obras mais impressionantes de Aleijadinho. Para um dos melhores frangos com quiabo da vida, prato tipicamente mineiro, vá ao Casa do Ouvidor, na Rua Direita, no centro.

Para conhecer mais da história da exploração do ouro, recomendo fazer algum dos passeios às antigas minas, como a Mina da Passagem, a 10 minutinhos da cidade. Ali, temos acesso a uma estrada que liga Ouro Preto a Mariana e descobrimos diversos túneis e trilhos que serviam de base para a exploração mineral.

Além das riquezas do centro, Ouro Preto também reserva passeios para quem, assim como eu, é amante da natureza. O Parque Estadual do Itacolomi é uma boa pedida, que tem uma grande ponta de pedra na paisagem que transforma a cidade, no Pico do Itacolomi, a 1.772 metros de altitude. Por lá, dá para conhecer a represa e o Mirante do Custódio, fazer trilhas e, claro, ir até o pico.

Mariana

Daniela Filomeno no centro de Mariana (Foto: acervo pessoal)

Outra cidade que guarda charmes mineiros e cantinhos barrocos dos tempos coloniais é Mariana, a 110 km de “Beagá” e singelos 14 km de Ouro Preto, cerca de 20 minutinhos de carro. Com a pequena distância, dá até para fazer um bate e volta e conhecer os principais atrativos do destino, que se destaca entre as cidades históricas por ter sido a primeira vila, cidade e capital de Minas Gerais.

Uma maneira simbólica de se locomover entre as cidades é por meio do Trem da Vale, trem turístico com interior de madeira que mantém o mesmo desenho dos trens obsoletos usados na antiga ferrovia construída ali em 1883 – atualmente o atrativo encontra-se inativo por tempo indeterminado por conta da pandemia.

Mariana chegou a ser a principal cidade no Ciclo do Ouro, no século XVIII, mas lentamente, à época, foi perdendo prestígio para Ouro Preto. Atualmente, andar por suas ruas tortuosas do centro é se deparar com décadas e séculos onde religiosidade, prosperidade material e arquitetura arrojada se encontram. Como regra nas cidadezinhas históricas, o indicado é circular a pé pelo centro histórico: um dos marcos é a Praça Minas Gerais, no alto do município, conjunto arquitetônico formado pela Igreja São Francisco de Assis, a Igreja Nossa Senhora do Carmo (que ficam lado a lado), a Casa da Câmara e a Cadeia. Parece cenário de filme!

Um dos endereços mais envolventes da cidade é a Rua Direita, com casarões coloniais de janelas grandes, paredes altas e sacadas com grades que abrigam lojinhas de artesanato, de roupas e tecidos. Além de toda magia, que nos leva a tempos áureos passados, a rua abriga a Igreja da Sé, bem fotogênica e com adornos preservados que remetem o catolicismo do período colonial. Ao lado dela fica a casa Barão do Pontal, casarão que ficou famoso com suas sacadas em pedra sabão.

No alto do centro histórico, a cidade ainda é lar da Igreja São Pedro dos Clérigos, um templo católico barroco com construção iniciada em 1753 mas apenas concluída de fato mais de 160 anos depois, aproximadamente na década de 1920.

E atrativos naturais pelo entorno também conquistam os visitantes. Cachoeiras como a do Brumado, do Cristal e da Serrinha, em diferentes pontos da cidade, deixam os arredores mais encantadores e refrescantes. O Pico da Cartuxa é ideal para os mais aventureiros – ótima pedida para apreciar uma linda paisagem tanto de Mariana quanto de Ouro Preto.

Algumas grutas e cavernas espalhadas pela região também fazem parte dos roteiros, como a Gruta Nossa Senhora da Lapa e dos Desejos.

Tiradentes

Dani Filomeno em frente da Igreja Matriz de Santo Antônio, marco de Tiradentes e mais antiga igreja local (Foto: acervo pessoal)

A 190 km de Belo Horizonte, ou a cerca de 3h de carro, está Tiradentes, charmosa cidadezinha de mais de 8 mil habitantes que guarda tesouros culturais e gastronômicos do estado. Uma das cidades históricas mais conhecidas e visitadas de Minas, ela é um dos Patrimônios Históricos pelo Iphan, sendo muito bem conservada e cercada de beleza natural pela Serra de São José.

Costumo brincar que ela tem um pouco de tudo que é bom: arquitetura do século XVIII, com casarões tombados e igrejas preservadas; uma deliciosa gastronomia; encantadoras pousadas; e belas paisagens. Combo perfeito!

A visita pode começar pelas ruas de pedras irregulares do centro histórico, na Rua Direita, principal via de acesso da cidade onde ficam alguns dos pontos turísticos, como a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, exemplo de obra barroca no país, e o Museu de Sant’ana, que fica dentro da antiga cadeia pública de Tiradentes e guarda um acervo de imagens de santas e santos importantes para o povo brasileiro.

Dá para emendar o passeio com uma visita até a Igreja Matriz de Santo Antônio, mais antiga igreja da cidade que fica no topo de um mirante com vista privilegiada para a Serra de São José. É indispensável visitá-la, já que é um marco para a história do Brasil, ornamentada com esculturas barrocas de Aleijadinho. Dica: aprecie o pôr do sol diretamente dali – é um momento para ficar na memória.

Outro passeio agradável é a ida a Bichinho, distrito que fica a cerca de 7 km da cidade e que pode ser acessado de carro. Lá há uma única e contínua rua com lojas, ateliês, oficinas e alguns bares que são igualmente concorridos pelos visitantes.

Tiradentes também reserva cenários naturais prontos para serem explorados, como a Trilha do Carteiro, que vai até o alto da Serra de São José e nos presenteia com piscinas naturais. Já a Travessia da Serra de São José inclui passeio pelas matas, mirantes, paisagens rupestres e vai até o topo a 1.200m de altitude.

E o passeio não para por aí: a cidade ainda possui uma cena gastronômica de lamber os beiços. Em resumo, são releituras ou produções literais das delícias mineiras. Não deixe de conferir o Angatu, que alia cozinha moderna com ingredientes brasileiros e alma mineira; o Ora, que faz uma incrível releitura de carne de panela e steak tartar com jiló e pepino (tem que experimentar o doce de leite também); o Tragaluz, que tem um sorvete de queijo com calda de doce de leite especial e o Virada’s do Largo, da chef Beth Beltrão, quase uma instituição mineira que tive o prazer de conhecer.

Para dormir, a Pequena Tiradentes é uma das (boas) opções pelo pedaço. Um pouco afastada do centrinho, há um bem-vindo silêncio nos quartos – são 62 ao todo, distribuídos em casinhas que imitam um vilarejo histórico.

São João del Rei

Daniela Filomeno igreja sao joao del rei
Daniela Filomeno no interior detalhado da Catedral Nossa Senhora do Pilar, um dos destaques mais imponentes da cidade (Foto: Daniela Filomeno)

São apenas 15 km que separam Tiradentes da graciosa São João del Rei, maior e mais populosa cidade em comparação à vizinha. Um dos passeios que liga as duas cidades é a bordo do Maria Fumaça, trem turístico que percorre um trecho charmoso levando-nos a viajar no tempo. O local mescla muito bem o passado barroco e colonial com as marcas da urbanização moderna, sendo a maior entre as cidades históricas de Minas.

Com todo seu esplendor, as igrejas de São João del Rei dominam o check-list do que ver e fazer na cidade – ela é chamada carinhosamente de “terra dos sinos”, já que as badaladas formam um coro único. São várias delas, em que destaco a Igreja de São Francisco de Assis, no centro, e a Catedral Nossa Senhora do Pilar, cuja fachada simples esconde um interior riquíssimo em detalhes que vão de encontro com os ideais barrocos e rococó. É com certeza um dos orgulhos da religiosidade mineira!

No centro histórico, a dica de onde comer “mineirices” é a Taberna d’Omar, que serve cafézinho e cozinha artesanal num cenário charmoso, bem em frente à Paróquia Nossa Senhora do Carmo.

A cidade também é local de nascimento de algumas figuras ilustres, a exemplo da poetisa e ativista Bárbara Heliodora, cuja casa em que morou está conservada e fica bem em frente à Igreja de São Francisco de Assis, e o ex-presidente Tancredo Neves, que ganhou até um memorial interessante no município que conta sua história com ajuda de recursos digitais.

É uma delícia andar sem pressa pelo centrinho histórico, com suas casinhas típicas e comércio local, esbarrar nas igrejas e capelas e, claro, parar para tomar um café e devorar um pão de queijo.

Congonhas

Santuario do Senhor Bom Jesus de Matosinhos
Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, cartão-postal da cidade e um dos ícones da arquitetura colonial brasileira com adorno de 12 estátuas atribuídas a Aleijadinho (Foto: Sylvio Bazote/Flickr)

Assim como Ouro Preto, Tiradentes e São João del Rei, a revitalizada Congonhas faz parte do Caminho Velho da Estrada Real, primeira via aberta oficialmente pela Coroa Portuguesa que ligava a região produtora de ouro ao litoral fluminense – são mais de 710 km que vão de Ouro Preto a Paraty, com várias paradas emblemáticas. A 1h20 de Belo Horizonte, a cidade abriga um dos mais importantes patrimônios brasileiros, inscrito inclusive na lista dos Patrimônios Mundiais da Unesco: o Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Situado no centro histórico, o cartão-postal da cidade conta com 12 profetas, esculpidos em pedra sabão por Aleijadinho, artista barroco que tem seu importante trabalho espalhado pelas cidades históricas.

O Santuário já é um bom começo para conhecer a cidade. Bem em frente à Basílica fica o Jardim dos Passos, que são seis capelas que representam o caminho da Via Sacra. Com seus santos e adornos característicos, também é interessante passar por outras igrejas pelos arredores, como a Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição e a Igreja Matriz de São José Operário.

Mas a cidade de mais de 55 mil habitantes reserva outros atrativos além dos santuários tombados e da comida típica mineira pelos restaurantezinhos. Em minhas andanças, sempre procuro atividades ligadas à natureza, e o Parque Ecológico da Cachoeira é o local certo para trilhas e caminhadas ao lado da mata. Há ainda piscinas de água natural para adultos e crianças, campo de futebol, quadra poliesportiva, camping, churrasqueiras e lanchonetes.

Diamantina

diamantina rua igreja matriz
Rua no centro de Diamantina que desemboca na Catedral Metropolitana da Paróquia Santo Antônio da Sé (Foto: Wikimedia Commons)

É mais uma das cidades históricas inscritas entre os Patrimônios Mundiais, reconhecendo assim a importância social, histórica e cultural de nosso passado. A cerca de 300 km da capital mineira, a cidade cresceu em torno da exploração de diamantes e apresenta uma arquitetura barroca predominante em madeira, diferente das outras cidades setecentistas. Seu centro histórico, patrimônio da Unesco desde 1997, guarda resquícios dos tempos coloniais com seus casarões e igrejas, transportando-nos diretamente para o século XVIII.

Diamantina segue a topografia natural e é constituída por ruas irregulares e sinuosas – leve tênis confortáveis e esteja preparada para subidas e descidas. A cidade faz parte dos Caminhos dos Diamantes, que se liga até Ouro Preto por um caminho de 395 km repleto de belezas naturais de tirar o fôlego e cantos cheios de história.

Falando de natureza, um dos principais chamarizes da cidade é o Parque Estadual do Biribiri, na Serra do Espinhaço, com várias cachoeiras e trilhas ideais para turismo de aventura e ecoturismo. Em dias mais quentes, é uma delícia se banhar e ficar ao lado da Cachoeira da Sentinela e da Cachoeira dos Cristais, duas das mais procuradas quedas d’água dali.

De volta à cidade, no centro, não deixe de passar pela Rua da Quitanda, cercada por barzinhos e casarões históricos – as mesinhas geralmente ficam no meio da rua! Como em outras cidades da região, Diamantina também tem uma Igreja São Francisco de Assis, que vale uma breve visita, e a Igreja Matriz, a Santo Antônio, construída no século XVIII.

Igual a São João del Rei, algumas pessoas célebres tem Diamantina como cidade natal: o ex-presidente Juscelino Kubitschek, que possui uma casa dedicada à sua memória, e Chica da Silva, que viveu na localidade e hoje também possui uma casa no centro com seu nome, onde teria morado.

Ainda no centro, um dos cartões-postais é a Casa da Glória, composta por duas construções de épocas e estilos diferentes ligadas por uma passarela – o “Passadiço da Glória”. Um dos ícones regionais, o local ajuda a contar um pouquinho da cidade em uma rua íngreme de pedra.


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