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Bordeaux histórica: entre fortalezas, vinhedos e a graciosa comuna de Saint-Émilion

Além dos grandes châteaux, os arredores de Bordeaux apresentam fortificações medievais e vilarejos charmosos que aliam o melhor desse pedaço da França: ótima gastronomia, pequenos hotéis, história e muito vinho

Daniela Filomenodo Viagem & Gastronomia

Bordeaux, França

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Cada cantinho de Bordeaux é uma surpresa. Seja pelas paisagens exuberantes ou pela rica herança cultural, viajar pelo “Velho Mundo” é entender que a história não é feita somente de monumentos, mas também de pessoas. E em Bordeaux, o vinho divide o protagonismo nesta incrível narrativa.

Ao longo de cinco episódios do programa CNN Viagem & Gastronomia em Bordeaux, onde eu e a equipe passamos quase um mês descobrindo a cidade e os grandes châteaux da região, entendi que a emoção e o pertencimento são fatores primordiais para a manutenção da tradição.

Tanto na produção dos vinhos quanto no acolhimento, a busca pela perfeição às vezes não é alcançada, mas se atinge uma qualidade talvez até superior: a excelência.

Chamada de “pequena Paris”, Bordeaux compreende uma cidade de cerca de 260 mil habitantes e seus vinhedos, divididos em regiões, sub-regiões e comunas. Uma vez aqui, começamos a entender o porquê os vinhos são tão cultuados e como a história cumpre um papel importante na memória coletiva. É como uma aula fora dos livros e a céu aberto.

Descobertas no centro urbano, passeio de cruzeiro pelas águas do rio Garonne e visitas aos châteaux mais celebrados do mundo estão entre os programas únicos que fiz durante a temporada por aqui. Para fechar da melhor maneira, castelos medievais, fortalezas, outros châteaux históricos e uma imersão deliciosa por Saint-Émilion compõem minha despedida da cidade. Tudo acompanhado por mais taças de vinho, claro!

Entre igrejas do século passado, vilarejos encantadores, hotéis e restaurantes premiados e paradas em lojinhas de doces tradicionais, embarque comigo por locais que honram o passado, degustam o presente e plantam o futuro:

Fortalezas Medievais

Castelo de Roquetaillade

A cerca de uma hora do centro de Bordeaux, na comuna de Mazères, o Castelo de Roquetaillade pode ser descrito como uma viagem a um pedaço da era medieval. Construído em uma base de pedra, data do século XIV e há ainda ruínas de uma outra fortificação do século VIII e uma capela no mesmo recinto.

Andando por aqui dá para perceber os detalhes do que foi a fortaleza: há vários elementos defensivos que impressionam, como o fosso, o duplo portão e o pátio de observação no topo da construção principal. Brinco que é como um castelo de areia que fazíamos quando crianças na praia, mas em escala e tamanho maior – e sem o balde para ajudar a fazer a torre central.

As janelas que vemos hoje foram feitas ao longo dos séculos: originalmente elas não existiam, já que haviam, na verdade, fendas ao redor da construção – bem estreitas por fora e com uma abertura maior por dentro, elas eram projetadas para que os soldados posicionassem as armas e atirassem. A primeira leva de janelas foi feita no primeiro andar no século XVI e a outra no segundo andar apenas no século XIX.

O interior do castelo possui várias salas e cômodos com obras de arte, detalhes esculpidos no teto e ao longo das paredes, com pé direito alto e desenhos feitos à mão. Curioso é que vários detalhes, como os animais esculpidos em diversos locais da construção, são uma forma de comunicação visual que fazem uma conexão com a arte gótica e a natureza, uma forma das pessoas entenderem certos recados já que grande parte da população não sabia ler.

É especial estar aqui e adentrar os quartos e a cozinha que eram, de fato, utilizados em séculos passados. Próximo do castelo fica uma capela, que mistura o símbolos do cristianismo e do islamismo em mosaicos de madeira e que estão ali há mais de 160 anos – nunca foram restaurados e estão em estado ótimo de conservação.

Porém, o mais interessante é que o castelo sempre esteve nas mãos da mesma família e o legado de mais de 700 anos continua até os dias atuais. Os membros da família não somente honram a história como trazem o projeto de novo à tona, em que vários aspectos estruturais e detalhes das construções estão sendo restaurados e recuperados.

Quem me recebeu para visita foi Sébastien Baritault, proprietário que me guiou pelas redondezas e subiu comigo pelas escadas em caracol até o topo do castelo. São 30 metros de altura, onde a vista é atraente e a bandeira da França dança conforme o vento.

Aberto ao público, as visitas no castelo são guiadas e ocorrem em francês. Além das construções históricas do recinto, podemos conhecer a fazenda do castelo e seus vinhedos, que produzem vinhos inscritos na denominação de Graves. Um verdadeiro mergulho na história em plena luz do dia!

Fort Médoc

Maior estuário da Europa Ocidental, o Estuário da Gironda é onde o Oceano Atlântico encontra-se com a confluência dos rios Dordogne e o Garonne. Assim, houve – e ainda há – uma importância relacionada à defesa local. Bem significativo para Bordeaux, visitei o Fort Médoc, um conjunto de fortes que nunca foram usados, mas que serviram como um ponto de defesa no caso de qualquer incursão de inimigos.

Construído no século XVII, por volta de 1689, aqui dá para ver a planta de todo o recinto e notar o canal em volta das construções. É especial estar aqui e se perder entre os portões, janelas e salas de armamento, sempre mirando o passado importante que esse pedaço da França carrega.

Próximo da comuna de Cussac Fort-Médoc, o conjunto foi construído por Vauban, engenheiro militar que trabalhou sob os comandos de Luís XIV, o “rei sol”, e é um dos Patrimônios Mundiais da Unesco. Estar aqui é contemplar um sistema militar histórico e muito bem construído em que um tiro de canhão nunca foi dado.

Blaye

Quando falamos sobre medievalismo e fortalezas, Blaye é uma comuna francesa que não pode ficar de fora. Estrategicamente posicionada entre o Estuário da Gironda (60 km para baixo do oceano) e Bordeaux (cerca de 10 km para cima da cidade), Blaye traduz bem a perfeição da tradição e da conservação medieval.

Há registros de pessoas que viveram aqui há 5 mil anos antes de Cristo e as muralhas foram construídas na era medieval, o que forma o conjunto chamado de “cidadela de Blaye”. O complexo militar tem ao todo 38 hectares de área e foi construído também sob supervisão de Vauban no século XVII, um dos conselheiros militares mais importantes de Luís XIV e que ajudou a moldar a França num Estado moderno.

Patrimônio mundial da UNESCO, é uma das construções imperdíveis de se conhecer pela região, em que batemos os olhos e logo já pensamos em seu passado medieval.

Châteaux de Sauternes

Château Lafaurie-Peyraguey

Situado no topo de uma colina de frente para os vinhedos do Château d’Yquem, o Château Lafaurie-Peyraguey tem uma história que remonta há mais de 400 anos. O vinho da casa é um dos mais especiais de Bordeaux: é classificado como um Premier Cru Classé de Sauternes, um dos mais altos na hierarquia.

Na propriedade, fiz uma degustação especial dos vinhos brancos do château, incluindo o que leva o nome do local e o La Chapelle de Lafaurie – segundo vinho daqui. Enquanto o primeiro é mais doce, quase como “uma colher de mel”, como explica a equipe, o segundo é mais leve, ótimo para ser acompanhado por queijos e aperitivos.

Um dos fatos interessantes é que em uma das caves do local há um grande barril feito inteiramente de vidro da marca francesa Lalique, onde descansa o Premier Cru Classé. Dentro da propriedade, inclusive, funciona um hotel da Lalique, onde cristais da marca ficam espalhados pelos quartos e áreas comuns, incluindo as taças em que tomamos os vinhos.

Localizado junto dos vinhedos da vinícola, o hotel traz uma simplicidade sofisticada em sua arquitetura, que remete à autenticidade da região de Sauternes. Os quartos são decorados com toques rústicos sofisticados e o restaurante possui uma estrela Michelin. Visitas aos vinhedos, à adega e degustação fazem parte dos atrativos do Château, nos oferecendo uma verdadeira imersão por um dos melhores terroirs da região de Sauternes.

Château Guiraud

Outro dos grandes Châteaux de Sauternes, o Château Guiraud remonta ao século XVIII e também é um dos Premier Cru Classé de Sauternes. É fascinante estar aqui e poder compartilhar de mais de 250 anos de história e do processo de se fazer bons vinhos. Entre os programas, podemos visitar os vinhedos, um jardim biodiverso, a adega e contemplar o cenário que nos deixa sem palavras.

Além disso, o Château possui um restaurante digno de vários elogios, o La Chapelle. Podemos apreciar as criações na sala de jantar, onde há presença de grandes vigas, ou ainda no adorável terraço entre as vinhas.

O château possui uma horta própria, bem farta, o que nos proporciona pratos únicos e sazonais: quando fui, experimentei uma burrata junto de vários tipos de tomate, já que, naquela semana, a equipe teve uma super colheita de tomate. Uma delícia! Aproveitando a tradição biodiversa e sua horta, o château também tem uma lojinha com uma variedade de produtos orgânicos.

Saint-Émilion

A apenas 40 minutos do centro de Bordeaux, Saint-Émilion é uma das minhas paixões na França. É o maior vilarejo medieval da região, uma comuna que, apesar de pequena, vale a estadia por vários dias. Descobrir seu centrinho e vinhedos está entre os programas imperdíveis quando se está por aqui.

Patrimônio Mundial da UNESCO com destaque para seu valor excepcional, Saint-Émilion foi fundada no século VIII e já foi moradia de monges. A região chamou a atenção de Émilion, um monge bretão, que fugiu para escapar da perseguição da Ordem Beneditina. O monge então adotou uma existência eremítica, vivendo em uma caverna. Reza a lenda de que ele fazia milagres e, assim, atraiu uma legião de outros monges.

Logo, a região ficou conhecida como Saint-Émilion, que, com o tempo, adquiriu riqueza e destaque pela produção de vinho e pela posição estratégica ao longo do caminho de peregrinação de Santiago de Compostela. Hoje, além de alguns dos melhores châteaux da região, ela reúne num pequeno território hotéis luxuosos, gastronomia deliciosa e muita história.

Igreja Monolítica de Saint-Émilion

Bem no centro de Saint-Émilion, na Place du Marché, fica a maior igreja monolítica de toda a Europa, ou seja, construída a partir de uma única pedra. É ao mesmo tempo um ponto turístico e contemplativo que se ergue austero entre o comércio e a arquitetura ao redor.

Construída no início do século XII, ela é parcialmente subterrânea. As catacumbas, cavidades naturais da pedra, eram vendidas às pessoas que queriam ter um lugar no céu garantido – os mais prestigiados eram sepultados ao lado dos monges. Entrar na igreja, adentrar suas catacumbas, naves e espaços históricos é de arrepiar.

Além das catacumbas, há mais de 200 km de túneis subterrâneos, que passam por Saint-Émilion e também por debaixo de vários châteaux, os quais fecharam em tempos passados para evitar roubos.

O sino, colocado aqui alguns séculos depois da construção da igreja, tem 53 metros de altura. Com quase 200 degraus, o topo da torre possui vistas pitorescas para o vilarejo e para as vinícolas nas redondezas – uma maravilha a ser apreciada.

Château Pavie

Junto dos Châteaux Cheval Blanc e Marjosse, também adentrei os vinhedos, mergulhei na história e degustei os vinhos do Château Pavie, em Saint-Émilion. Classificado como Premier Grand Cru Classé A, ou seja, entre os melhores na hierarquia na classificação de Saint-Émilion. Complementando o cenário deslumbrante deste cantinho da França, tudo aqui merece elogios: o château é imponente e a cave é linda, com obras de arte e repleta de garrafas de vinho de variados tamanhos.

Por ter diferentes altitudes numa mesma propriedade, é notável que a vinícola tenha terroirs diferentes num mesmo espaço, ou seja, uma diversidade no DNA do vinho. Mesmo a 90 metros de altitude, aqui há sempre água corrente que umidifica os vinhedos por conta de um lago fechado que distribui água pelo recinto.

Aqui, a variedade merlot corresponde por cerca de 60% das uvas usadas, seguida por 25% de cabernet franc e 15% de cabernet sauvignon. Tours pelos vinhedos e degustações são oferecidos aos visitantes. Outros quatro châteaux por Bordeaux fazem parte dos negócios dos controladores da propriedade, que ainda abriga o Hotel de Pavie.

Ou seja, aqui há uma noção de que tudo está interligado: desde o zelo dos vinhedos até o acolhimento nos sofisticados quartos, tudo desemboca num enoturismo de qualidade.

Hotéis e gastronomia

Mesmo pequena, Saint-Émilion possui uma hotelaria íntima e caprichada, que segue os moldes encantadores dos vinhedos de Bordeaux. Uma das boas escolhas para se hospedar por aqui é o Hotel de Pavie, da mesma equipe que controla o Château de Pavie. Mega sofisticado, o hotel cinco estrelas fica no centro do vilarejo, numa praça próxima à Igreja Monolítica.

Seus 17 quartos diferem no tamanho e nas amenidades, mas todos trazem traços contemporâneos luxuosos e de serenidade em seu recinto. Com uma vista panorâmica deslumbrante para toda Saint-Émilion, o terraço é um dos pontos altos da experiência.

Como de se esperar, a gastronomia aqui também é das melhores: com duas estrelas Michelin, o La Table de Pavie é o restaurante do hotel e oferece uma experiência francesa completa. A dica é pedir o incrível menu-degustação e brindar com os melhores vinhos de Saint-Émilion. Fora do centrinho, a três quilômetros do Château Pavie, a equipe mantém uma residência que é um verdadeiro refúgio no meio dos vinhedos: são três quartos e uma suíte, nomeados com os lotes das vinhas do Château e decorados seguindo a elegância das casas da região do século XIX.

Outro local que vale a pena a estadia é o Château Troplong Mondot: ligeiramente afastado do centro, ficar aqui é vivenciar uma casa de fazenda bem chique, com sofisticação em todos os detalhes. São apenas dois quartos e outras duas casas separadas que compõem o hotel.

Além do espaço amplo e da piscina num lindo terraço com pinheiros, o benefício daqui é a vista das colinas e das vinhas – é simplesmente esplêndido. Seu restaurante é igualmente delicioso, com pratos criativos e vibrantes, e o melhor de se estar entre os vinhedos do Troplong Mondot é conhecer o próprio Château e degustar seus vinhos.

Voltando ao centro de Saint-Émilion, não deixe de comer no L’Envers du Décor, um bistrô simples com vinho e comida (muito) boa com uma simpática fachada vermelha. Minha sugestão é pedir o steak tartare, que é mais grosso por ser cortado na ponta da faca. Como manda a tradição, peça batatas fritas e saladinha de acompanhamentos. Quente e de massa folheada, a torta de maçã, é imperdível, assim como o suflê, de uma maciez sem igual.

Para finalizar as descobertas, um docinho tradicional de uma receita guardada a sete chaves desde 1620 faz nossa alegria: falo do macaron de Saint-Émilion. Ele é diferente dos macarons coloridos e recheados que conhecemos, já que é feito com farinha, açúcar, amêndoas e clara de ovo e possui um formato mais achatado, de cor bege, crosta crocante interior macio.

Depois do vinho, estes macarons são a especialidade de Saint-Émilion. Feito aqui desde o século XVII por uma comunidade religiosa, a receita foi dada para algumas famílias e passada de geração em geração, sempre mantida em segredo. Hoje, os docinhos podem ser encontrados na autêntica lojinha de fábrica na rua Guadet. É uma síntese de Saint-Émilion: tradição, história e sabor.


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