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Bisate Lodge: o hotel no meio da floresta e cercado de vulcões e gorilas em Ruanda

Com design arrojado que se integra à natureza, tudo aqui é surpreendente: desde as vistas privilegiadas para os montes do Parque Nacional dos Vulcões até a séria preservação dos animais e da comunidade local

Daniela Filomenodo Viagem & Gastronomia

Parque Nacional dos Vulcões, Ruanda

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Na estradinha que leva para a entrada do hotel conseguimos escutar de longe os sons da cantoria de boas-vindas dos funcionários. O coro fica mais audível e emocionante quando nos aproximamos e vemos as fileiras de homens e mulheres que batem palmas e cantam a plenos pulmões. No fundo, os apenas seis quartos em formato de ninho surgem imponentes e incrustados na montanha, um prenúncio magnífico do que encontrei neste hotel dos sonhos.

Assim é a calorosa recepção do Bisate Lodge, acomodação superexclusiva em meio a um cenário natural cercado por vulcões e florestas tropicais densas a cerca de duas horas da capital Kigali, em Ruanda. Após os safáris no Akagera, fui para outro parque nacional gravar o CNN Viagem & Gastronomia, desta vez o Parque Nacional dos Vulcões, no noroeste do país.

Com 160 quilômetros quadrados de área, o local faz divisa com a República Democrática do Congo e com Uganda, onde o parque abrange oito vulcões, sendo dois deles ainda ativos no Congo e outros cinco inativos em Ruanda. E é justamente dentro desta área de conservação que fica o Bisate Lodge, onde, da varanda do meu quarto e das áreas comuns, é possível encarar de frente o imponente Monte Bisoke e o Karisimbi – este último o ponto mais alto do país, com mais de 4,5 mil metros de altura.

Unindo uma hospedagem de experiência junto de um turismo de propósito, há muito tempo desejava conhecer o Bisate Lodge – hotel que é uma das paradas mais especiais de Ruanda e também da vida. Acredito que não seja possível descrever a emoção que sentimos quando estamos perto de realizar um sonho, e foi exatamente este o sentimento que tive ao adentrar as áreas comuns e meu generoso quarto.

O que é o Bisate Lodge

Saindo de Kigali chega-se à Musanze em aproximadamente duas horas, cidade relativamente grande no noroeste do país que é conhecida por ser a base para as aventuras no Parque Nacional dos Vulcões, um dos mais antigos e importantes de Ruanda.

É entre as montanhas e em seu cenário rural que ocorre a observação de gorilas e dos macacos-dourados, os “golden monkeys de Ruanda”, duas das principais atividades turísticas nesta região – tudo feito com o maior cuidado e com financiamento para conservação vindo diretamente do turismo.

Neste contexto de envolvimento com a comunidade do entorno e auxílio com a fauna e a flora em um dos cenários mais atraentes do mundo, nasceu o Bisate Lodge em 2017, hotel de luxo com apenas seis quartos situado nas encostas de uma cratera vulcânica erodida.

Os famosos “ninhos” do Bisate: quartos e áreas comuns foram construídos de modo arrojado a fim de integrar a natureza/ Foto: Divulgação

Aqui, o ecoturismo dá as caras e revela ser feito de uma maneira ímpar, já que um dos objetivos do hotel – e isso fica muito claro quando se está aqui – é ser um modelo de ecoturismo sustentável em Ruanda.

Assim, há projetos de reflorestamento e de reabilitação em prol da conservação da biodiversidade ao redor, tudo envolvendo e beneficiando a comunidade local – como no próprio Parque Nacional Akagera. Além disso, o serviço sorridente e prestativo junto de instalações caprichadas sem um luxo exagerado faz com que nos conectemos ainda mais com as pessoas e com o ambiente ao redor, único na Terra.

E como no próprio Magashi Camp no Parque Akagera, é importante frisar que o lodge é propriedade da Wilderness Safaris, empresa operadora de ecoturismo da África que realiza um trabalho primoroso ao colocar o turismo com o propósito de conservar e restaurar a vida selvagem do continente. As propriedades intimistas da empresa são cercadas pela abundância da vida animal, e, ao se hospedar nelas, ajudamos a conservar espécies ameaçadas de extinção e impactamos positivamente as pessoas que moram ao redor.

Os famosos “ninhos”

Sabe aquela imagem clássica de uma criança animada prestes a entrar em um parque de diversões? Posso afirmar que fiquei com esta aparência, tamanha felicidade em estar em um hotel dos meus sonhos e também na região dos vulcões de Ruanda, cenário cativante do começo ao fim.

Incrustado em meio ao terreno de uma cratera vulcânica extinta, a estrutura principal do hotel intimista fica num local alto e íngreme, como uma leve trilha. A construção é segmentada, com a recepção e as áreas comuns separadas dos únicos seis quartos, em que, tanto de longe quanto de perto, parecem ninhos no meio da natureza. As grandes estruturas com bordas arredondadas possuem tons de terra e se unem perfeitamente com a mata ao redor.

Requintados e confortáveis, com um luxo sem ostentação, os quartos são enormes e chamam a atenção já de fora. É preciso subir escadas no meio da natureza verde para chegarmos às instalações. As seis exclusivas “Forest Villas”, como são chamados os aposentos, são espaçosas e equipadas com lareira de pedra vulcânica, poltronas e sofá. As grandes camas ficam de frente para um dos janelões, com vista impactante para os montes do Parque Nacional dos Vulcões. Simplesmente incrível!

O banheiro também é especial, equipado com uma elegante banheira escura no centro, logo em frente a outro janelão. O grande box, os espelhos e os detalhes em madeira complementam o charme. A varanda é mais um dos locais que arrancam um “uau” de nossa boca.

O salão comum segue a premissa do resto do hotel: a decoração é inspirada em tradições ruandesas coloridas e há uma grande varanda com cadeiras e mesas confortáveis com as vistas privilegiadas para os Montes Bisoke (que faz fronteira também com a República Democrática do Congo) e Karisimbi.

Há ainda uma pequena sala de jantar onde são servidas as refeições – a gastronomia é deliciosa e fresca, com muitos ingredientes vindos das hortas da comunidade no seu entorno. Como o Bisate Lodge possui apenas seis quartos, todo o serviço é bem personalizado e íntimo, o que garante maior conforto e requinte.

O ambiente é recheado ainda de sofás, adega climatizada (onde podemos degustar vinhos sul-africanos), biblioteca, um charmoso bar com drinks de nomes que fazem alusão aos animais da região e lareira de pedra vulcânica, que deixa o ambiente mais quente – lembre-se que estamos em altitudes elevadas por conta das montanhas, o que faz com que as temperaturas sejam mais baixas.

Quando a luz do sol vai embora e a noite nos dá boas-vindas, as luzes amenas e amareladas dos “ninhos” compõem um cenário magnífico do hotel quando visto de fora, uma cena encantadora para ficar na memória.

Observação da fauna e da flora

A principal atração no hotel é, sem dúvida, adentrar as matas do Parque Nacional dos Vulcões para avistar os gorilas e os macacos-dourados, além de toda a fauna e a flora locais. Os hóspedes, inclusive, são encorajados a fazer os passeios e a mergulhar de cabeça na vida do entorno.

O alojamento fica a uma curta distância de carro da sede do parque, recinto de onde partem diariamente as caminhadas para avistar os gorilas. E já adianto: são únicas na vida. Também poder ver de pertinho os macacos-dourados é “life changing“, como dizem por aqui. Ou seja, é transformador.

É nestas entradas na mata para observarmos estas espécies ameaçadas de extinção, que entendemos melhor como é feito o importante trabalho de preservação e conscientização em torno dos animais, assim como podemos ver de perto o cotidiano agrícola das comunidades no entorno, com pessoas muito amáveis e crianças que se empolgam com nossa passagem.

Enquanto o trekking de gorilas é a atração principal, o Parque Nacional dos Vulcões também oferece outras aventuras, como escalar o Monte Bisoke ou ainda uma visita ao cemitério de Dian Fossey, importantíssima zoóloga americana conhecida pelo seu trabalho científico na conservação dos gorilas desta região que ajudou a revelar a importância do local como é celebrado hoje.

Já de volta ao Bisate, é possível também desfrutar de trilhas naturais repletas de pássaros – são cerca de 178 espécies de aves na área, e pelo menos 13 são endêmicas da área de Virunga, onde o Parque está localizado. É possível também plantar uma árvore para o projeto de reflorestamento do hotel e, assim, ajudar a atrair a vida selvagem de volta ao local.

Aqui eles possuem o “Bisate nursery“, berçário de mudas em que os hóspedes podem literalmente colocar a mão na terra e plantar uma árvore para chamar de sua. Escolhi a espécie de uma árvore bem frondosa, em que percebi que os gorilas gostam de ficar debaixo de sua sombra, para assim deixar minha marca em Ruanda e voltar para o Brasil com um pedacinho deste país incrível no peito.

Rodeado pelo verde e pelas vistas de perder o fôlego, estar aqui é compreender, mais uma vez, que a convivência entre homem e natureza pode e deve ser feita de maneira harmoniosa. E o Bisate Lodge ajuda na missão: é uma aula a céu aberto de turismo sustentável em um dos locais mais arrebatadores do planeta.


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